A herança do Regicídio

Foi há cento e onze anos!

E ainda hoje o sangue derramado enegrece o destino de Portugal!

Primeiro os republicanos e anti monárquicos que, com as trapalhadas, oportunismo e desorganização  de ideário, estrafegaram o que restava de um país  já  atrasado. Depois foi a vez da ala católica tomar o poder com o apogeu no consulado de Salazar, o qual cai de podre pela falta de visão  e ausência  de renovação,  acompanhada da voracidade do resto do Mundo pelas riquezas do império  português.

Hoje, ao ouvir as notícias  do envolvimento de empresas dominadas por elementos do PCP em ajustes diretos de “encomendas” de edilidades geridas pelo mesmo PCP, associada ao historial da despodorada corrupção  que grassou na banca e nas altas empresas, entendo que a democracia pós  25 de Abril também se encontra em elevado estado de decomposição!

Como tal lamento cada vez mais o fatídico Regicídio!

Restam-me os valores apreendidos do senhor meu pai e da senhora minha mãe, valores de servir as instituições, os colegas e os doentes que me procuram.

Do que li e me foi contado pelos meus ascendentes, eram estes os mesmos valores vivenciados por Sua Magestade el-rei D. Carlos bem como pelo príncipe  D. Luis!

Desgraçado Portugal!

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Francamente senhor Presidente!

A telefonar em directo para o programa da Cristina Ferreira?

Qual a razão  de Estado ou mesmo, dado o alto cargo que ocupa, qual a razão simples de amizade que levaram Va. Exa. a tamanha banalização do referido cargo?

Não  bastaria um simples telefonema pessoal antes do início  do programa ?

Espero não  ter sido a atitude banal mais uma forma de marketing com utilização  indevida do magistério  do alto cargo que Va. Exa. ora ocupa!

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Carta à Dra. Joana Marques Vidal!

Exa. Dra. Joana Marques Vidal

Após ter ouvido a Dra. Manuela Moura Guedes venho por este meio pedir-lhe, na qualidade de português com honra, que lute até ao limite das suas capacidades, a fim da limpeza e higienização de Portugal.

Venho, também,  depositar em si toda a confiança de um cidadão português que se sente desonrado e vilipendiado por esta escória política que, transversalmente, se apoderou do meu querido País.

O “sistema” instalado está ansioso por ver Va. Exa. pelas costas!

Dentro das minhas parcas possibilidades, considere-me à sua inteira e total disposição para o que de mim entenda necessário.

É preciso, diria mesmo, imperativo realizar uma reforma na governança de Portugal, na base dos princípios do Serviço Público. E se tiver de ser por forma revolucionária, pois que seja!

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Estou a ouvir Manuela Moura Guedes!

Este emaranhado de vigarices nacionais leva-me a meditar o país em que nasci e vivo.

Incompreensível o papel de actores com responsabilidades de Estado e políticas na governança de Portugal! O papel dos votantes nesta democracia fétida em que somos obrigados a viver!

Desde primeiros ministros, ministros, políticos com responsabilidades, procuradores, alta finança, bancos e se calhar alguns altos cargos todos enrrodilhados nesta porcaria de ilegalidade e falta de pudor e ética!

Os deputados recebem ajudas de custo a fim de se deslocarem para a Assembleia da República!

Eu desloco-me mais de 3 km todos os dias e entendo que não me é nem nunca tal aceitaria, qualquer tipo de subsidio.

Agora alguns declaram desculpa dos seus actos pela falta de regulamentação de códigos da dita. Como se os deveres éticos não dependam dos princípios!

Pergunto-me como se sentirão os votantes de Sócrates!

Não  sou socialista e portanto nunca votei neste figurão!

Os que trabalham como eu na coisa pública, que no afã diário tentam dar o seu melhor com a contrapartida do orgulho da missão cumprida, devem estar…digo antes ESTÃO cabisbaixos e deprimidos com tanta porcaria e desonestidade!

É como escrevia Aquilino a “ápode dos possidónios e broeiros no poder”!

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A falta de memória ou a limpeza do passado que não interessa.

Assistia eu à merecida homenagem no Palácio Real de S. Bento aos campeões europeus de footsal na Eslovénia.

No momento solene o senhor Presidente da Assembleia da República, Dr Ferro, referiu-se à dívida que o futebol português tinha, em termos de prestígio aportado á Nação, pelo Benfica e pelo Sporting (clubes de Lisboa).

Esqueceu-se sua excelência de todo o prestígio  aportado pelo F.C. do Porto, com as duas taças Intercontimentais, as 2 taças dos Campeões  Europeus e tantos outros títulos que, seguramente também  prestigiaram a Nação Portuguesa.

Estes lapsus linguae são imperdoáveis á segunda presonalidade da hierarquia de Portugal.

Vergonha Dr Ferro Rodrigues!

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A minha alma já não pasma!!

Acabo de ver e ouvir a reportagem na TVI sobre os “negócios” dos incêndios e do que se gasta de dinheiros públicos nas trapaças, omissões e eventualmente no dolo á coisa pública. Os montantes apontados na reportagem, no pagamento de meios aéreos que dependem da contratação pública ( horas de voo contratadas, manutenção, etc.) ascendem a mais de 350000 euros/ano.

Este vilipendio nas contas públicas passa por 2esquemas” de desgovernação de várias cores políticas , recalcitrando na transferência do nosso dinheiro público para interesses privados.

E a tudo isto acresce a perda de valor em tudo o que arde e, muitíssimo mais gravoso, na perda de vidas e condição humana.

O montante total de perdas e desperdício acumulados ao longo dos últimos 10 anos, ainda ninguém apresentou valores ainda que aproximados.

O que se terá gasto daria para investir em meios técnicos e humanos nos hospitais dos nosso SNS. E aqui, permitam-me o meu grande desgosto quando, desde há vários anos, ouço os CA do hospital onde exerço a minha profissão, queixarem-se da falta de verbas para investimentos de remodelação ( o meu hospital tem já mais de 55 anos), reequipamento e contratação de profissionais necessários a sua regular actividade.

Na qualidade de cidadão, e apenas nessa qualidade, venho aqui apelar ao Exº Senhor Presidente da República e á esperança que nele deposito, para que, olhe para o Estado Português e leve, até às últimas consequências, as averiguações e demandas para pôr cobro a esta “vilanagem”!

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O paradoxo da matemática ou o golpe de estado da rés pública!

Na realidade, e como referiu Sextos, reconheço a mediania governativa à coligação PSD-CDS. Entre erros e mediocridades (com episódios de “relva”, de “marco” e quejandos), a coligação obteve a maioria relativa, mas, a MAIORIA de votos dos portugueses,
O programa maioritariamente sufragado foi o da coligação. Na campanha eleitoral ninguém se apercebeu de alguma possibilidade de coligação entre o PS, PCP e BE.
Ora esta hipótese (quase tese) de coligação representa a subversão de todo o historial dos princípios da vida democrática pós 25 de Abril de 1974.
A concretizar-se representa o escamotear da vontade da maioria de votos dos portugueses!
Representa, também, claro está, a luta titânica do Dr António Costa pela permanência no poder. O próprio pretende o protagonismo do lugar de 1º ministro, apesar da reconhecida ineficácia durante a campanha que levou o PS a uma derrota desastrosa.
O povo português terá que se manifestar na rua a concretizar-se esta leviana e contra natura coligação de esquerda.
E gostaria de rematar lembrando ao Dr António Costa que, como diz o velho provérbio popular, ” quem com ferros mata, com ferros morre”.

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O decurso da história.

De facto Passos Coelho cometeu erros na governação. Provavelmente o correr do tempo e alguns factores de sorte conjuntoral dão, hoje, resultados ligeiramente positivos na nossa economia.

Haverá que reconhecer que a diminuição da taxa de desemprego não é apenas fruto da governação. Mas o País é o que é.

Não reconheço algum patriotismo especial a este governo.

À historia caberá o julgamento desta integração europeia e de todos os responsáveis.

Mas, no presente, não nos restará outra solução senão esta governação mediana, sem elevação cívica e patriótica desta coligação PSD-CDS.

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Encosta abaixo, alegremente, o duplipensar ainda não enegreceu, a novilíngua exalta sempre até ao fim e de qualquer modo Brassens já cantava “mourir pour des idées, d’accord mais de mort leeeente ” ou a humildade de lembrar que raramente, raramente, os catastrofistas vêm justo

É bem verdade que quando se erra no diagnóstico é quase impossível acertar no tratamento mas quando a manipulação é muito boa transforma-se um produto noutro muito diferente e sabe-se há muito que a pergunta que não tem resposta é o que é a verdade. Mais, o extraordinário avanço da novilíngua e do duplipensar torna a audácia quase algo ilimitado.

Também se sabe que não se aprende com o erro dos outros, nem sequer com os nossos – nem a Grécia aprendeu com os seus erros na aplicação inicial dos fundos europeus, nem a Alemanha aprendeu com os seus erros que a levaram a mendigar, com sucesso, o perdão da dívida da II guerra, tal como a Lusocacânia nada aprendeu desde 1985 – os primeiros ecos da aplicação do Portugal 2020 levantam os receios habituais.

Também se devia saber e muitos sabem-no que os modelos mais depurados nunca funcionam muito tempo, só os mais degenerados e amalgamados conseguem sobreviver mais tempo, a natureza, a vida são amigas da heterogeneidade, dos contrários – as formas de Platão constituem as entidades mais solitárias e frígidas produzidas pelo pensamento humano e apenas evoluem para as paixões, estados de alma, ou temporários ou patológicos. Dito isto, é bem verdade que as sopas mais complexas precisam de demoradas cocções e mexidelas e se estas forem mal feitas acabam por resultar num caldo que coalhará ao fim de pouco tempo.

A sobrevivência do projecto do euro constitui uma surpresa e um manancial para análise.

O euro é um projecto de revolucionários bem sucedidos embora o desenho contribua e muito para o sucesso. Tinha tudo para falhar, já falhou no fundo, mas sobrevive e isto distingue o revolucionário com sucesso daquele de insucesso – transformar o novo, o inesperado, o inacreditável, o inviável em evolução natural, inevitável, transformar a revolução em TINA (Tsipras manifestamente ainda não percebeu isto, realmente de revolucionário nada tem). O euro sobrevive porque conseguiu levar os estados para o alto mar e agora declarou que nunca trouxe botes salva-vidas.

O euro é uma construção audaciosa do sistema financeiro , o último passo antes da entrada no paraíso do capitalismo-socialista de Spengler, de lucros privados e prejuízos públicos e  transferiu totalmente o risco moral para os devedores e isentou-o na totalidade dos credores.

Historicamente sempre houve uma luta sangrenta e feroz à volta do risco moral mas o pano de fundo não muda demasiado, permanece nos devedores que são empurrados para a perda da propriedade, nalguns períodos da história, para a perda da individualidade, agora, para a abolição da autonomia. Também faz parte da história que a recuperação das perdas quando as há, são sempre desviadas mais para os credores desde que se cumpra a regra de os credores serem mais fortes.

Este pormenor, melhor esta condição absolutamente necessária, passa demasiadas vezes despercebida. Tudo o que se disse repousa nessa pré-condição do credor ser mais forte que o devedor. Exemplos clássicos contrários, os primeiros emprestadores judeus que acabavam sem a cabeça ou empurrados para o outro lado da fronteira. Exemplo oposto, os EUA os grandes devedores que impõe a sua vontade aos credores.

O ser forte, para além de permitir assumir a cobrança, a captura da propriedade do devedor ou até a sua escravatura, torna-o dotado de uma força centrípeta quando se redistribuem os recursos. Esta força centrípeta assegura que a periferia não escape porque quem ditas as regras todas passa a ser o centro – o sistema de empréstimo/endividamento é na verdade o carrasco anunciado do mito do livre comércio, a falácia mãos bem vendida pelo centro. Esta força centrípeta assegura que o centro disfrute de todas as vantagens do endividamento ao empurrar todos os perigos para a periferia. Claro que isto exige uma mistura bem doseada de incompetência/ignorância da periferia, afastada da informação privilegiada, compra e pagamento de capatazes após o afastamento/eliminação do que restou dos patrões da periferia – eles próprios com tendência para preferir a internacionalização sendo duques  à limitação e perigos do estatuto da realeza local – de modo que não é possível fugir ás regras estabelecidas. Uma vez feito o endividamento do centro nada mais resta á periferia senão fazer o mesmo – o mito das contas equilibradas com o par franco-germânico perpetuamente fora dele é o maior mito que a o duplipensar conseguiu inculcar.

Se olharmos para outros continentes observamos esse crescer de dívida generalizado. A moral falaciosa de censura a quem quer mais do que aquilo que pode, foi muito bem construída – como é que uma empresa da periferia pode competir se não tiver também um grau importante de endividamento? No centro o capital próprio anda á volta dos 25 a 40%, tudo o resto é dívida contraída a juros mais favoráveis,  na periferia descapitalizada o capital próprio não pode deixar de ser menor e muitas vezes desce para o patamar á volta dos 10%, convenientemente fraco para uma fácil destruição. Esta regra do centro, o endividamento, é o seguro de vida para o seu predomínio. No sistema financeiro a arte foi mais desenvolvida, pudera, o centro absoluto, com capitais próprios entre 3 e 4% – mesmo Basileia III não sobe para 8%, outra mentirazita bem urdida e de qualquer modo esses 8% são suficientes para assegurar que o risco moral nunca será invocado ao mesmo tempo que assegura o controlo, tornando possível comprar vários cães com o pelo dos ditos.

Mas  a falácia mais importante não deriva da dívida mas sim do emprego, ou as famosas reformas estruturais como promotores do emprego. Como se irá ver no futuro, a médio prazo, as reformas estruturais, o eufemismo da baixa dos salários não cria emprego, diminui-o por várias razões, sendo a principal a lentificação da velocidade do dinheiro, algo que Friedman não previu e que originou o falhanço da sua teoria económica, ao ser comprovado que a massa monetária de per si não controla os preços, é preciso ter em conta a velocidade de circulação. Ao tirar ao salário cada vez mais a porção do bolo a velocidade fatalmente diminui. Mais determinante, com a acumulação extraordinária de dívida a irrelevância, o excedente de massa humana torna-se insustentável agora que não há impérios para exportar, pelo contrário são os desgraçados das ex-colónias que fogem das suas terras, sem nada para fazer para além de morrer ao serviço dos capatazes da guerra.

Aquilo que vamos testar é qual o nível de empobrecimento e de desemprego compagináveis com a actual duração da vida humana, com a lentidão da morte e com a descrença espelhada na baixa taxa de natalidade.

Aquilo que se vai testar é qual o grau de estupidificação, de infantilização e de corrupção que podem ser compatíveis com a liberdade humana, qual é o ponto da reversibilidade última.

Aquilo que já se percebeu é que o modelo da democracia representativa morreu de morte natural ao fim de poucas gerações. A corrupção que a distância potencia tornou-se, mais do geradora de perdas importantes, no maior factor destrutivo da sociedade – será a última ironia desta fase da história, a comprovação da existência de algo porque se destrói e se nota a ausência. Aquilo que ainda não adivinhamos é qual o resultado da governação por capatazes apenas, já que os donos ou morreram ou já não querem aparecer – o factor decisivo não é a justiça, a natureza e as sociedades não são justas, é a sua sustentabilidade.

Até quando a subsidiariedade vai continuar a enganar os optimistas? Quando é que o pensamento de que não há  maior bondade do que independência e liberdade, que a complexidade que tudo justifica é filha da novilíngua e sobrinha da corrupção que ninguém é melhor servido do que por si próprio se tornam evidentes por si próprios, como diriam os fundadores dos EUA.

Quando é que os verdadeiros revolucionários que nos vêm governando  vão ser expostos, a sua audácia e loucura exibidas e logo afastados. Se é possível descer, descer, descer, retroceder até á mais avançada infantilidade e saír do buraco, é algo que não sabemos, nunca antecipamos quando os catastrofistas têm razão porque só raramente a têm, mas lembrem-se que como tudo, nem sempre estão errados. Tudo se cansa, tudo se apaga.

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A grécia inventou a democracia, a europa central o processo e o castelo, os anglo-saxónicos o “as if”, os burocratas a imbecilidade activa, os financeiros a corda para os enforcamentos, leiam Swift que é bem bom

Os Cafeínicos

Provavelmente, mas está longe de ser certo, iniciamos uma das grandes curvas da história, lenta a negociar, cega sem deixar ver o que vem a seguir – nem houve fim da história, mas o historicismo está morto.

O referendo da Grécia marca mais uma das etapas do fim do regime representativo, pelo menos nesta versão. Os exemplos acumulam-se sobre as más opções que são tomadas nas alturas mais decisivas das escolhas, certamente sempre contrariadas pelos incumbentes que, satisfeitos, proclamam a bondade de terem sido escolhidos. A maior parte das vezes nem de escolhas se trata, como ontem aconteceu, a não ser da última vontade de fazer uma careta aos palhaços ricos do centro antes da queda habitual do palhaço pobre.

A escolha é quase sempre fatalmente viciada pela manipulação das alternativas, sempre trabalhadas e desfiguradas por quem pode controlar, pelo menos parcialmente.

Não é fácil saber se ontem a fundamentação…

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A grécia inventou a democracia, a europa central o processo e o castelo, os anglo-saxónicos o “as if”, os burocratas a imbecilidade activa, os finaceiros a corda para os enforcamentos, leiam Swift que é bem bom

Provavelmente, mas está longe de ser certo, iniciamos uma das grandes curvas da história, lenta a negociar, cega sem deixar ver o que vem a seguir – nem houve fim da história, mas o historicismo está morto.

O referendo da Grécia marca mais uma das etapas do fim do regime representativo, pelo menos nesta versão. Os exemplos acumulam-se sobre as más opções que são tomadas nas alturas mais decisivas das escolhas, certamente sempre contrariadas pelos incumbentes que, satisfeitos, proclamam a bondade de terem sido escolhidos. A maior parte das vezes nem de escolhas se trata, como ontem aconteceu, a não ser da última vontade de fazer uma careta aos palhaços ricos do centro antes da queda habitual do palhaço pobre.

A escolha é quase sempre fatalmente viciada pela manipulação das alternativas, sempre trabalhadas e desfiguradas por quem pode controlar, pelo menos parcialmente.

Não é fácil saber se ontem a fundamentação do resultado era robusta ou não. Aparentemente sim, votar não com os bancos fechados é próprio do desespero, da mesma magnitude dos irlandeses de Swift aconselhados a comer os filhos. Mais tradicionalmente, qualquer livro de histórias antigas relata a saída habitual dos miseráveis endividados e desempregados, a venda dos filhos, a prostituição das mulheres e talvez os gregos sintam que estão no limiar desse estado.

Até se compreende o resultado porque outro seria de certo modo ratificar o delírio e gatunagem dos últimos trinta anos na Grécia. Esse é , aliás, o risco que corre a velha Europa nos próximos tempos, a confrontação com a ratificação da trupe enorme de capatazes vendedores da banha da cobra, vendedores da segurança nacional ao endividarem todo um país e obviamente incapazes de rapidamente varrerem para debaixo do chão toda a porcaria acumulada nestes trinta anos.

É curioso que a queda de um regime inviável e ameaçador como os regimes comunistas se tenha seguido pela instauração de regimes cleptocráticos e desvairados. Muitas vezes os vitoriosos sabem como infligir a sua perda por demasiada ambição, nunca leram a arte da guerra. Enfim, deslumbraram-se.

Estes capatazes esperam sempre escapar ao chicote e ao pontapé da história mas nada está perdido, o que é preciso é resiliência, ah que grande palavra da treta gesto-económica, verdadeiramente a “dismal science”.

As sociedades vão perfurar, pressionar, encolher até encontrar uma saída. Até lá vai haver muita destruição. A duração deste tempo será de uma a duas gerações, tempo suficiente para o desaparecimento de alguns povos, fugitivos das agruras das periferias para as frialdades dos centros.

Nunca foi possível arranjar emprego para toda a gente, sempre houve muita dívida, mas agora há algumas diferenças, as três principais é que se morre devagar – ou pelo menos era assim até agora – muito devagar, procria-se pouco, muito pouco e a dimensão da dívida é muito grande, assustadoramente grande ao levar em conta que cresceu já no meio de um ambiente de altas extorsões / impostos. Como é que os capatazes conseguem retirar o dinheiro suficiente para azular parte dos grandes vermelhos dos livros? Vai ser muito difícil, muito difícil, mais ainda porque esses capatazes promoveram a glorificação dos mercados e do crescimento e ajudaram ao enterro dos contextos, os grandes limitantes, em todos os sentidos das sociedades. Uma sociedade sem contexto é mais livre para ser desenvolvida e espremida, é mais vulnerável perante a contracção. Como justificar sem exibir força  uma extorsão elevada numa sociedade a activamente a destruir o contexto – verdadeiramente, se “there is no such thing as society” porque é que pago impostos para além da manutenção da polícia e do exército, para pagar despesas que outros assumiram, para voltar a ir aos mercados, mas eu não quero ir aos mercados para nada, “só por cima do meu cadáver”.

Pior, os capatazes não perceberam que o modelo de desenvolvimento global que escolheram só é viável com uma das duas saídas, uma estupidificação em massa e profunda – mas como vender banha da cobra a débeis, a compra da mesma pressupõe uma ambição acima desse nível seguro de estupidez – ou uma sociedade oriental onde o conceito de vida seja um interminável jogo onde os contrários não são percebidos como verdadeiramente diferentes, algo muito longe da vivência da metade ocidental do mundo.

A representatividade falhou porque tinha de falhar, muitos tinham verificado isso, desde Platão até ao amaldiçoado Nietzche. Os anglo-saxónicos tinham conseguido lidar com este falhanço com a forma hábil do “as if”. Mas tudo tem um prazo de validade, algo tem de morrer mesmo para renascer de forma um pouquito diferente.

A crise da representação tem no entanto um efeito com grande potencialidade, a humildade. Se não é verdade que a representação possa continuar a fundamentar-se na complexidade da administração, talvez a única ingenuidade de Tocqueville e a sua metodologia de escolha é demasiado vulnerável á manipulação e caciquismo com a quase inevitável escolha dos piores entre os piores – a elite dos capatazes europeus é absolutamente assustadora – a humildade advirá da apreensão que não temos equipamentos para grandes planeamentos ou legislações, regressemos ao nível mais humano da administração mais local, mas com verdadeira autonomia, não aquela que os bruxelenses sonharam para o seu total domínio, as regiões como caixas postais das suas deliberações.

Como a biologia nos ensina, a imagem que Sextus mais aprecia, a riqueza dos genes só foi possível pela individualização das células e mesmo da compartimentalização dentro das células, ou o exemplo da fisiologia, a comunicação entre células faz-se de formas passiva, activa e facilitada, sempre com portões.

Até lá, queimemo-nos no grande magma enlouquecido, disfrutemos do último “as if”.

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Propriedade sem controlo é escravatura, controlo sem propriedade é tirania e no intervalo há a comissão dos capatazes e nas galerias ninguém ouve nem vê o suficiente para se entender

Nas famílias de décadas passadas reuníam-se três gerações, com grande frequência. Na altura das demoradas conversas segregavam-se muitas vezes os mais novos, quer para obter maior liberdade na troca de opiniões quer para os libertar para brincadeiras mais ajustadas á idade. Quando, com o crescimento, alguns da geração mais tenra eram admitidos nessas conversas mais reservadas percebiam que lhe eram outorgados os selos do entendimento e da responsabilidade, fundamentais no tratamento da informação que iria ser trocada. A vida adulta dava os seus primeiros passos.

A ocultação da informação é contemporânea da formação de qualquer sociedade e quanto mais elaborada e mais antiga, mais bocados da sua natureza são reenviados para áreas de esquecimento, de ocultação e de fingimento, o refúgio último da não compreensão. Quando este sector da vida atinge alguma densidade e quantidade reaparece na forma de teatro, quer em drama quer em comédia, via elegante para preservar e não explicitar tudo. Nas sociedades muito cansadas, o teatro torna-se a última via de continuidade até declinar inevitavelmente e infantilizar-se até ao seu desaparecimento. Nos últimos estádios, o teatro pode ser visto por todos, as segundas e terceiras leituras seguem com à vontade com as primeiras mais infantis. Só os mais esclarecidos dentro dos mais velhos aguentam a auto-referenciação na forma do como se.

A comédia europeia é servida em vários níveis para diferentes espectadores, os mais bem colocados  conseguem até ver onde está o ponto, os piores mal distinguem as falas e não identificam todos os comediantes. Além disso, só quem chegou primeiro, resultado da sua pertença ao núcleo dos convidados especiais do círculo interno é que poderão ter tido a ocasião de consultar a ficha técnica. Os sentados á frente não se descompõem a comer pipocas e a beber colas, vão satisfazer a fome e a sede depois do espectáculo, os da periférica galeria aproveitam para substituir o inacessível jantar por rebuçados, chocolates e similares. É verdade que a ficha técnica passou também a constituir um exercício de charadas, o director não aparece e o produtor esconde-se atrás de um nome empresarial que ninguém parece conhecer, só os actores mais antigos e  de primeira grandeza parecem perceber quem são os mandantes. Na verdade, os proprietários do teatro já não o controlam, uma forma civilizada de escravatura.

O teatro europeu continua a pretender exibir as grandes reformas estruturais que serão a antecâmara de mais salões de riquezas e de progresso, mas as grandes reformas são como a galeria dos espelhos, realmente apenas se reflectem mas nada contêm. Há a ilusão sonhada dos produtores de controlarem aquilo que não têm, a forma elevada da tirania, outra comédia. Não há nem houve nunca governo algum, Lao descobriu-o bem cedo. As famosas reformas são de dois tipos, as mais imediatas, de concepção das raposas, com redistribuição habitual de recursos financeiros. Há ainda muito para fazer, pode-se tirar ainda bastante de um lado e dar ao outro, muitas formas de vida podem evoluir, basta pensar na ociosidade prisioneira da juventude árabe em Belém até á errância contínua quase browniana em busca da sobrevivência de Bombaim. A periferia europeia tem ainda tanto para contrair, para empobrecer aguentando por mais algum tempo os superavits do centro – hoje foi divulgado que o alemão e o holandês caminham para 10% e isto apesar do produto potencial ainda estar cerca de 20% do produto real. As verdadeiras reformas estruturais, o núcleo do desiderato é a irrelevância, o corolário desejado, louco e revolucionário, já os capatazes tinham feito isso com o agrimensor do castelo – enquanto tal desmesurado fim não chega, de tal grandeza que perturba, os capatazes descem á aldeia cobrar as comissões e beber a cervejas para animar a algo apagada líbido, as raparigas do povo já não o que costumavam ser, a procriação desce a olhos vistos, mesmos os teutónicos exuberantes e gordurosos só fazem 1.3 filhos a cada fêmea.

A dívida terá finalmente o último préstimo, passa da menos importante renda para a mais decisiva posse. O grande trabalho já está feito, todos querem é condições para contraír dívida, lá se vai o conselho de Adam Smith sobre a perigosidade das dívidas soberanas, mas isso faz parte da bíblia renascida do neoconservadorismo, que de conservador só tem o nome. Até os infantilizados gregos é isso que querem, autorização para continuar a contrair dívida para rolar a mais antiga, foi esse o trabalho herculeano de Maria Luís, endividar-se enquanto é tempo. A democracia prova a tese de humano, demasiado humano, gera a criança. A democracia sem jornalismo adulto e independente – mas como era possível tal haver – gera a decadência política antecipada por Tocqueville.

Safa-se o império, convenientemente já para lá da democracia, com a sua agenda militar e mercantilista dos tratados transatlântico e transpacífico.

Sextus recomenda “Unstoppable” de Ralph Nader, ou o sonho de remover os revolucionários neoconservadores e substituí-los pela aliança do conservador dos fundadores com partes do optimismo impenitente dos liberais.

Talvez a europa se salve quando enterrar a CE, mas a dificuldade de remover milhares de capatazes, ainda por cima em parte pagos pelo império, a única entidade consciente adulta – o império do meio renasceu da crisálida, ainda está tenro e talvez nunca cresça o suficiente, ta como da primeira vez – é de monta. O povo ainda os aclama, pelo menos durante mais uma geração, tempo largo para vender a novilíngua e o duplipensar até à estupidificação irreversível.

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A contradição como salvaconduto para a sobrevida do poder ou para já Nicolau ganha a Frederico, no fim teremos sempre as pedras e as fisgas

Nesta metade ocidental do mundo e nos últimos cem anos, assistimos à dominância da inteligente transfiguração dos fundamentos do poder, desde a tradicional mistura de sangue com riqueza para a aparente tiragem à sorte da democracia baseada na representatividade e na territorialidade, manobra de escape para acomodar a acumulação do saber dos séculos anteriores, mais presente e emproado pelo iluminismo. Mas consequente ao saber está o esquecimento e o engano.

O saber ocidental sempre lidou mal com a contradição, com o tratamento da exclusão do terceiro. Só o conforto derivado do refúgio na sombra que a matemática procurou, evitou que o raciocínio ocidental atenuasse a desilusão de se confrontar com o falhanço de Russell e com o sucesso de Godell e do seu teorema da incompletude.

Numa extensão algo larga, podemos dizer que Godell levou ao triunfo, pelo menos até agora, do conhecido “como se” anglo-saxónico e à derrota do pensamento franco-germânico. A afirmação do ser deixou de poder ser espelhada no devir hegeliano do estado, passou a repousar na tautologia.

A evolução do poder não deixou de receber estas influências. A tautologia, melhor, a auto-referenciação, passou também a guiar a existência do poder. A auto-referenciação é obviamente muito poderosa e sólida enquanto que tal for possível, só que é quase impossível identificar os momentos em que a auto-referência se esgota. A auto-referência procura a eternidade pela inclusão e anulação da contradição.

O poder ocidental  dos tempos presentes tem três camadas principais de apoio: a  financeira, a  militar-financeira e a civilizacional, sendo esta de longe a mais fraca, debilidade que se percepciona de forma mais clara na demografia e na arriscada eliminação da nacionalidade dos excedentes periféricos.

A financeira atravessa um momento curioso, com sinais opostos, um de grande vigor e outro de grande fraqueza. O primeiro apercebe-se na evolução da quota parte que arrecada do lucro do capital, sempre em crescendo nas últimas décadas, algo que muita gente tem esquecido. Apesar dos protestos de muitos pela crescente importância do mundo financeiro já datarem desde o início do século passado, a verdade é que nessa altura a componente financeira do produto ainda estava abaixo de 10% do PIB, mas no momento presente já ultrapassou os 15%. Mais, a parte do capital também voltou a ultrapassar os 50% do rendimento nos últimos dez anos, depois de um valor inferior a 45% nos anos sessenta. O sinal da debilidade deriva das expectativas de retorno do capital para o futuro a curto e médio prazo, de volta aos valores á volta dos 3 a 4% e mesmo isto á custa do muito maior retorno dos super-acumuladores de capital que vão conseguindo retornos entre os 7 e os 10%, sempre à custa da informação privilegiada. Aqui o controlo / captura dos reguladores foi essencial, uma contradição típica que assegura cada vez maior liberdade com cada vez maior regulação, com o brinde nada desprezível de ter criado a aparente necessidade de um exército de funcionários ditos muito indispensáveis e competentes, logo muito bem pagos, exemplos típicos dos gestores, advogados e banqueiros. A contradição brilhante aproveitada pelo mundo financeiro foi a criação do seu regulador, o banco central, garante do seu domínio sem os incómodos da satisfação das massas – não é preciso sujar as mãos a fazer a massa dos brioches. a desmaterialização do dinheiro, a quase exclusiva criação de dinheiro apoiado em dívida cimentou o poder quase absoluto. A sua contradição fulcral é a colisão entre o seu domínio sufocante e a sua invisibilidade procurada – um poder que não se sacraliza pela cerimónia pública tem sempre muitas dificuldades em momentos de curva, não pode falar.

A componente militar-financeira está com um vigor extraordinário, mais uma vez á custa da região do médio-oriente e em menor escala o continente africano. Esta componente tem evoluído para outras formas de armas, mais apoiadas na vigilância / espionagem que se desenvolve sem freios e que vai evoluindo para o antecipado “big brother”. Fica por saber se existe algo de autónomo e viável para além do sistema de espionagem montado pelos anglo-saxónicos dos hemisférios norte e sul, mas a subserviência franco-alemã não fica nada atrás da que a luso cacânia exibiu na altura das viagens entre o afganistão e cuba. A segurança máxima e filha da contradição foi a criação da figura da nuvem para armazenamento de informação, realmente não uma nuvem inocente e passageira do mundo, mas algo enterrado muito seguramente em qualquer bunker dum estado do oeste central americano. A grande contradição é o seu fundamento radicar na sua insuficiência, pede-se cada vez maior segurança por que esse poder não consegue, fundamentalmente não quer garantir essa protecção. Quanto tempo consegue o furtivo incendiário justificar o gasto nos bombeiros é uma pergunta de difícil resposta mas para já a inteligente mistura de terror, hipervigilância e infantilização tem conseguido levar o barco a bom porto. O complexo militar-financeiro consegue o prémio de justificar cada vez maior estado no centro, permitindo-lhe o nacionalismo ao mesmo tempo que promove o inescapável internacionalismo da periferia anã e infantil, incapaz de se defender dentro do enquadramento nacionalista. Esta ambivalência garante-lhe para já todo o sucesso até á emergência de um poder alternativo asiático mas de duvidoso nascimento.

A civilizacional repousa numa herança muito antiga, dita greco-judaica-cristã, uma sopa de pedra que foi sempre mal cozida porque a sua ligação dependia mais do outro, o mundo hindu-budista, do que dela própria. Esta referência tem evoluído para posições de bloqueio quando se pretendeu atribuir á vertente anglo-saxónica a sua emergência mais aperfeiçoada e última, o conhecido fim da história. Esta idealização ia a par com a globalização, a natural consequência do fim da história, com a as periferias a sofrerem um processo de descoloração e desestruturação para mergulhar no superaquecido centro que tudo consome. Esta globalização é também uma forma interessante e com manifestações opostas de lidar com os problemas, atrofia e desnata as periferias para salvaguardar a satisfação dos apetites do centro, cada vez mais voraz a uma mesa que parece mais desguarnecida. A fragmentação da importância dos poderes permitiu anular os efeitos indesejáveis de oscilações populares que passaram a votar em alternativas muito estreita, a globalização consegue facilmente acomodar qualquer devaneio entre o hamburger e o frango assado, ensaia o certificado de óbito daquele que ainda não morreu. O processo totalitário está em curso promovido por capatazes revolucionários que numa hábil utilização novilinguística,  carimbam de reaccionários e populistas todos os outros, os novos demagogos do passado.

Lidar com este programa implica voltar aos bons velhos tempos da sangria para melhorar a inflamação pela anergia e fraqueza. Para isso a presença de capatazes fiáveis que garantam a colecção de impostos que vão pagar os juros do capital emprestado é decisiva, capatazes esses que também asseguram a continuidade dos empréstimos, o regresso aos mercados – aqui Picketty tem a sua melhor contribuição, se um estado precisa de dinheiro que lance impostos e não que contraia dívidas, os impostos serão a melhor garantia de moderação no futuro, as dívidas como se viu nunca o foram.. Mais uma vez é necessário lidar com a contradição dos sucessivos pagamentos serem incapazes de abater á dívida que continua a crescer. Tudo isto é temperado pelo discurso das reformas que é sempre apoiado em teorias que não são verificadas na realidade o que as tornam mais robustas porque permitem explicar tudo e o seu contrário.

O extraordinário prec globalizante está a pouco de conhecer a vitória total. Como já mais vezes se citou, Tocqueville receava a infantilização que viu nascer nos USA como limitante a gerar as energias que pudessem ser necessárias. Se a globalização se cumprir na totalidade antes do choque de poderes, restará como motor da história a velha raridade de recursos. Não discutiremos ideias, lutaremos por água, terra e alimentos. Cumprir-se-á o destino, voltaremos, á bomba, á idade da pedra.

Duas leituras recomendadas: “the secret of the temple” e “la haine de la démocratie”.

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Na periferia não há ilusões perdidas, há ordens para ser cumpridas, passa-se o tempo à espera que passe e dá-se pontapés nas pedras das ruas a abafar o ruído das raposas no galinheiro

As sociedades registaram muitas evoluções consequentes à divisão do trabalho mas uma das mais relevantes foi a delimitação mais clara entre o núcleo e a periferia. No desenho de uma máquina, na sucessão de actos conducentes a um produto, na acumulação orientada de saberes para derivar uma premissa há tempos e zonas centrais e períodos e actos periféricos e laterais. Será sempre impossível perceber se Adam Smith não realizou que a divisão de trabalho não poderia promover desenvolvimentos equilibrados ou que Ricardo não entreviu que o uso das vantagens comparativas é um processo dinâmico, aberto a movimentos de boomerang que podem contrariar as premissas, principalmente quando os resultados a médio-longo prazo sobre  o desenvolvimento de capacidades e a formação de capital fixo são tão díspares – produzir vinho e produzir têxteis levam a duas evoluções muito diferentes, Ricardo não viu, ou viu e escondeu?

Portugal foi empurrado, mas com a sua colaboração activa por cansaço dos trópicos, para a periferia da ponta europeia e vem perdendo para o centro europeu desde os últimos três séculos. Conforme a regra, a elite de uma periferia entra num processo lento de deliquescência e acaba por desaparecer transformada numa trupe de funcionários-capatazes.

O processo de centrifugação não parou aqui mas pode ser sempre atenuado pela dinâmica da massa crítica, claramente uma das variáveis que têm ajudado a vizinha Espanha. É certo que não é imediato reunir uma teoria explicativa para o melhor desempenho dos nórdicos, os outros grandes periféricos, embora o sucesso escandinavo tenha sido pontuado por inflexões dramáticas, com períodos de fome generalizada que levaram á emigração que veio a povoar e constituir os estados centrais da região fronteira entre os EUA e o Canadá.

Uma elite transfigurada como a lusa mais facilmente embarca em aventuras de deslegitimação adicional. Fomos sempre um dos mais entusiastas da transferência de poderes, fomos um dos mais entusiastas da adesão à moeda única. Parte deste infantil e suicidário regozijo adveio de uma ignorância mais ou menos geral das elites actuais, que após a declaração do fim da história quiseram acreditar como  desnecessária a actividade da reflexão sobre o passado. Mesmo assim impressiona a facilidade com que largamos a capacidade de criar dinheiro, só entendível no contexto alargado de demissão pós segunda guerra mundial. Se estivéssemos atentos, um dos sinais mais eloquentes desta demissão – auto-anulação transparecia do envio mais ou menos voluntário das reservas de ouro para os cofres dos bancos federais americanos.

O escândalo da passagem de dados de espionagem alemã para a NSA americana que nada têm a ver com a repetida ad nauseum por acéfala luta contra o terrorismo constitui outro deprimente exemplo do rapto das elites europeias pelo império americano. Ainda estamos a pagar os custos da última grande guerra europeia.

Em Portugal, 2015, lidamos com esta dupla amputação, uma elite que se deixou caricaturar e de muito baixa qualidade por falta de uso – décadas de irresponsabilidade própria de quem só recebe ordens.

Aqui se fundamenta muita da apatia lusitana que já não tem o luxo das ilusões perdidas nem o doce engano da segurança de quem recebe directivas adequadas. A crise europeia tem posto em relevo este duplo desconforto. Não se trata certamente de incompetência pura dos funcionários europeus do presente, realmente a incompetência está mais atrás, nas escolhas impossíveis dos funcionários em período de retirada que ainda tinham sofrido directamente os estilhaços da guerra – o projecto é impossível, o desenho irremediavelmente defeituoso para todos menos para o centro.

A isto há que acrescentar o domínio completo pelo mundo financeiro, algo que se veio a construir lentamente e que atingiu um estádio muito avançado quando a formação de dinheiro passou a estar debaixo do total controlo de alguns poucos que com o tempo passaram a apresentar com toda a exuberância as consequências mais funestas do poder absoluto, a postura de inimputabilidade e da negação – veja-se a narrativa sobre a crise das dívidas soberanas e privadas e a forma como tem sido tratada. Esta crise, muito mais do que qualquer outra coisa, veio exibir o colapso da imprensa como quarto poder e o enterro da democracia partidária no modelo que conhecemos.

O “As if” anglo-saxónico vai ser testado mais uma vez, até agora, alguma qualidade decisória e alguma limitação do alcance das opções tomadas sobre a vida das sociedades (um dos mais eficazes limitadores dos prejuízos ao longo da história humana) têm permitido saídas mais ou menos airosas. A grande dificuldade origina-se no afã do império em garantir por bom período a sua supremacia e das suas mega-empresas, contando para isso com a colaboração activa dos funcionários que foi colocando deste lado do oceano e que foi posicionando no lado asiático do pacífico. É esta grande força que constitui a maior fraqueza porque as consequências do desastre podem ser de tal forma que impliquem um conflito.

A ambição desmedida foi sempre a perda dos poderes sucessivos, claro que determinar aquilo que é desmedido não é imediato nem consensual, não há uma TINA para avaliação dos desmesurado. Aquilo que se joga na definição dos poderes do BCE e dos outros bancos centrais e nos ameaçadores e secretos acordos de livre comércio tem talvez demasiado alcance, o erro vai ser inevitável e pode ser perigosamente grande. A globalização ditatorial e forçada irá descobrir que aquilo que lhe é mais próximo é o magma vulcânico, hiper-destrutivo e que quando arrefece produz cinza e algumas rochas amorfas, só muito depois, milénios, o solo até se pode tornar muito fértil. No magma está tudo, nada se utiliza.

Pode uma mega-elite inimputável e sem contrapoder ter qualidade para lidar com a situação será uma pergunta que a periferia não fará – veja-se a qualidade da imprensa portuguesa – a periferia aguarda ordem para mover ou para aguentar, nesse intervalo estupidifica e dá pontapés nas pedras das ruas.

O que pode ser um país de criados e capatazes sem ilusões? Apenas uma região, aquilo em que nos tornamos, embrulhado num discurso tão leve como o dos servos.

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O paradoxo pirrónico da cacânia: da suspensão do ser até à consequente vacuidade

A história continua a desenrolar a sua curva e a revelar algo daquilo que nos vai apresentar mais à frente. A curva funciona como um teste de stress mas com maior potencial.

Na luso-cacãnia – e na euro-cacânia – há eleições nos próximos meses. Pode haver eleições na cacânia? Poder pode, mas com um enquadramento curioso, cacânico. As eleições servem para perpetuá-la, logo são e não são ao mesmo tempo. Certamente que é difícil operar esta arte, algo como celebrar uma missa e o vigário avisar no preâmbulo que tal para nada serve. A reacção dos assistentes será de desânimo e incredulidade se ainda não tiverem completado a sua aprendizagem do não ser, a entidade máxima. Tal religião implica um assentimento ainda mais completo do que aquele defendido por Newman, o bispo católico convertido na Inglaterra vitoriana.

As eleições são apontadas como um sinal duma governação democrática. Pode haver democracia na cacânia? Poder pode desde que esteja interiorizado a inutilidade  / impossibilidade da governação. A democracia cacânica implica chegar ao fim da história, ao “governo” global onde nada pode existir fora dele.

Pode haver governo cacânico? Poder pode, desde que não exista por já não ser necessário e aqui a ausência é a última prova da sua existência, um pouco como as figuras de polícias de cartão colocados em alguns sítios mais perigosos das estradas do Japão do fim do século.

Pode a cacânia existir? Poder pode desde que não se sinta a necessidade da sua existência por habitar cada um.

A luso-cacãnia via à frente da euro-cacânia, paradoxal emergência do quinto império. A elite local á a mais avançada no processo de cacanização geral a que só escapam o poder imperial – com bolsas de cacanização – e o seu desafiante, o velho império do meio, ainda não afogado depois de ter conseguido evitar o enterro da sua moldura confucionista, ameaçada pelo interregno maoísta. O curioso é a contradição entre a postura do império e o seu devir mais lógico, a cacanização, prole dilecta dos seus pais, o mercado e a globalização. Aqui o paradoxo é entre a aceitação da futilidade da governação e a maximização da sua força por trás das cortinas, claramente descortinada pelas negociações secretas para o assetimento dos tratados comercias trans- atlântico e trans-pacífico.

A elite luso-cacânica tem medo, ou melhor, já está impossibilitada de descortinar a oportunidade gerada pela crise, corolário lógico, na cacânia não há crises nem oportunidades. A elite luso-cacânica sofre quando muito de cefaleias, tão frequentes na organizadora dos chás e jantares frequentados pelo homem sem qualidades. As cefaleias têm origem no medo de falhar as responsabilidades de uma tarefa que já não se vislumbra, são as cefaleias do vazio.

Os debates que aí vêm sobre as eleições serão uma manifestação desse mal-estar da vacuidade antes de se atingir a perfeição do não ser. Aparentemente, os gregos estão à beira de ultrapassar a luso-cacânia neste processo de transmutação. Na Grécia iremos vislumbrar a cacânia pobre talvez ainda antes da Lusitânia, na França aperceberemos a cacânia rica.

Esta transmutação tem pernas para andar porque se serve do paradoxo como moldura da sua existência transmutante. O paradoxo é sempre a forma mais resistente de afirmação até atingir um cansaço fatal. O paradoxo é a reclamação de menos governo para melhor eficiância dos mercados e a exigência dos mercados do poder dos governos, como sempre assim foi – os chamados custos de transacção dos economistas que com a sua demência, induzida ou espontânea, transformaram esses custos numa não existência.

A cacânia tem como paradoxo primário a compatibilização impossível entre governo nacional, democracia e globalização, como paradoxo secundário mas igualmente limitante, a compatibilização entre dívida, crescimento e demografia negativa – na cacânia já Musil indicava que a maternidade era origem de cefaleias e de pulsões contraditórias entre a juventude eterna e a maternidade, o primeiro sinal da morte.

A cacânia vem aí e tanto pode durar uma eternidade como apenas uma geração. Um bom céptico suspende aqui o seu julgamento.

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Depois do cabo da boa esperança, o cabo da grande cacânia ou a diferença entre ser o dono do barco e o embarcadiço á força do “Flying Dutchman” mais doido do que nunca porque sabe o que aconteceu a Jasão

Nas sociedades crepusculares o caminho é único, não por falta de alternativas mas por falta de condições para ver ou o conhecido, de noite todos os gatos são pardos. Quem não sabe fazer nunca poderá escolher. Sabe-se que quem não conhece para onde ir nunca apanha os ventos favoráveis e se o piloto não é dono do barco a situação de indefinição aprofunda-se. A europa cacânica não sabe para onde ir e não tem dono, talvez melhor, o dono não se quer apresentar ou até talvez tenha sido eliminado. O melhor monarca hobbesiano é uma múmia cimentada num pedestal emitindo um discurso novilinguístico de inacabada decifração.

Curioso, que um continente envelhecido, os capatazes mais ou menos senis e que já não escutados pelas massas já cansadas de nem descobrirem o início da vereda que conduz ao castelo, se dediquem à juvenil arte de surfar as ondas que por hábito ocultam a direcção da corrente dominante.

É duvidoso que os gastos mercados dominem o que quer que seja, os mercados são construções humanas, logo de duração e alcance limitados. A condição humana sofre a influência mais silenciosa mas férrea da sua pertença à natureza.

Os mercados querem crescimento e rentabilidade de capital, duas coisas cada vez mais liluputianas na europa para não falar da presciente lusitânia, o farol da cacanização.

A rentabilidade do capital tem permanecido estável durante os últimos cento e cinquenta anos, com os óbvios picos e vales desencadeados por guerras alargadas. A análise cuidada da evolução dos produtos internos brutos mostra uma correlação muito maior com o crescimento demográfico do que com o badalado crescimento tecnológico.

O capital no futuro a médio-longo prazo vai procurar os sítios onde o par crescimento populacional e satisfação de um pacote que conquistou o estatuto de básico mais dele necessita e mais o pode recompensar, a áfrica toda e ainda uma enorme parte da ásia e da américa hispânica. De resto o crescimento norte-americano vai continuar a ser superior ao europeu porque é o incumbente, goza do privilégio excepcional de emissor da moeda imperial e domina totalmente a máquina de guerra e todo comércio associado de lucros incomuns. À europa não cabe a melhor parte de nenhuma destas fatias, cabe-lhe ainda um bom resto apesar de tudo. À europa cabe aquilo que a natureza lhe destinar apertada pela negociação que americanos e chineses lhe impuserem.

O surfar do centro europeu sobre as ondas do petróleo a preço de desconto e de capital a custo zero terminará, como é da natureza das ondas, na praia tão próxima. Quando as massas pagam o bilhete para embarcar num barco que os deita à água logo depois, com uma prancha manhosa, o murmúrio na praia sobe de intensidade, o preço é muito caro, a viagem não vale a pena.

Pior, percebe-se que o recreio não é definido pelo vendedor da viagem de barco. Quer a necessidade dos produtos, quer a valorização do trabalho, quer a distribuição que cabe ao capital e ao trabalho são todas variáveis de grande amplitude, algumas até à sua eliminação quase total, mesmo a necessidade de cuidados médicos, algo que constituiria o extremo de pouca variabilidade por dependente das leis naturais é de uma discricionaridade espantosa. A europa percebe que está a perder a capacidade de definir a sociedade, as suas necessidades, a hierarquia dos desejos. A europa infantiliza-se, melhor, como não consegue pôr o relógio a andar para trás, cacaniza-se. Esta incapacidade crescente em protagonizar a definição da sociedade está a ser percepcionada pelo mundo lateral, mais jovem, até antes receptáculo de exportação das massas inúteis dos impérios, depois, ele próprio e até agora, emissário de mão de obra fresca e a custo quase nulo; a senilidade europeia é pornográfica.

As massas da periferia infantilizada começam a desconfiar que o patrão do barco não é o seu proprietário, que não sabe para onde vai, que não vale a pena substituí-lo pelo contra-mestre, outro da mesma igualha. O outro barco que ainda é um pouco diferente é o navio-almirante, único com poder de fogo que atemoriza, logo ainda reúne.

Qual o interesse de embarcar nos barcos secundários para além de manter o emprego e os confortáveis ordenados dos marinheiros-gestores de água doce – é verdade, eles também não sabem fazer mais nada, lá aumentava mais o desemprego, conforme se tem amplamente visto, todo o seu saber residiu na construção da teia, algo sempre muito fácil de reconstruír e sempre susceptível de redução dos seus nós.

Enquanto que o discurso do chá pré- cacânico sobre o crescimento, sobre a austeridade – que saudades da austeridade expansionista – sobre a TINA for vendável tudo continuará como dantes à espera que a mãe natureza se encarregue de fazer uma rearrumação, com a poieirada inerente.

Até lá que ainda demora, a reivindicação possível é a diminuição dos capatazes – gestores, muito caros e que desperdiçam muito dinheiro e a diminuição dos patamares da representação – já não é mau. O mais inconveniente é o continuar da captura do melhorzito da periferia pela sub-centralidade germânica até à recondução deste povo á loja das caldas – e dos espanhóis a las bodegas e tutti quanti…

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Das montanhas são altas e o imperador está longe até às montanhas são anãs mas o imperador não está ou uma viagem de Oz passando pela Cacânia até chegar ao estado de Ford

Este vai ser uma ano rico em eleições tal como têm sido os últimos anos em quase todo o mundo. O número de votações tem vindo a aumentar nas últimas décadas e o número de partidos concorrentes também tem crescido. Mas tal como é costume a realidade finta-nos quase sempre e o mais torna-se menos.

Já muitos têm afirmado que o sistema de representação está falido, mas sempre esteve. A legitimação do poder sempre foi difícil e a ontogenia do poder é de difícil destrinça. Durante alguns séculos conviveram duas bases diferentes para a sua sustentação. No ocidente cristão procurou-se refúgio na sacralização do poder. O seu representante estava ungido pela benção da divina providência, local onde se realizava a escolha. Isto resolvia vários problemas, primeiro a escolha que era subtraída à sociedade e mais importante, certificava a representação, eliminando qualquer fosso entre a deliberação e a vontade que a sustentava, eram o mesmo, logo a sua realização era a sua legitimação.

O conceito oriental, neste caso o chinês, era mais subtil nos caboucos do poder. A sua legitimação era também divina mas ex-post e não ex-ante. A sua bondade era certificada pela concórdia na terra, sinal de que os céus também se acordavam com a sua representação. A guerra e instabilidade na terra era a mediação escolhida pelo céu para mudar a sua representação na terra.

Nos dois últimos séculos promoveu-se a laicização do poder voltando-se ao início, o reino do céu não se confundia com o da terra, conceito de aparecimento iterativo no mundo antigo greco-romano. Esta laicização, prima do iluminismo, tinha que evoluir para a racionalização, obstáculo que cresceu até ser inultrapassável desde que o voto mais ou menos universal foi sendo crescentemente abraçado.

Uma outra evolução paralela foi a percepção sobre a necessidade da exposição. No passado, a exposição era remetida nos tempos de acalmia para as cerimónias calendarizadas de exposição do poder. O sobrinho da racionalização tornou o calendário uma sucessão de dias consecutivos de obrigatoriedade de exposição.

Uma outra evolução deriva de um engano auto-alimentado. Na altura em que havia um poder concentrado e autocrático, hobbesiano, pedia-se ao poder inteligente que raramente emergisse, que assumisse um carácter atómico, onde o maior espaço é um vazio atravessado por uma energia. No presente quântico, a energia transformou-se em massa de modo que o poder está de facto em todo o lado e durante todo o tempo. Já não raros feriados cerimoniais a marcar um calendário rico em dias de ausência de poder, agora há dias de poder todos os dias. Só que esta alteração marcada na frequência da emergência do poder não se acompanhou de forma paralela de uma necessidade do mesmo. O poder, agora, é francamente excessivo por comparação com a sua necessidade, logo chegamos à repetida manifestação de um poder inútil, vazio, a energia deixou de gozar da capacidade de se transformar em massa – a Cacânia foi forçada a nascer para preencher esta redundância inútil e caricatural.

Uma contradição adicional mas consequente do que se desenvolveu acima, o poder evoluiu para a deslegitimação auto-promovida ao construir um fosso extraordinário entre o que anuncia que vai fazer e aquilo que realiza. Nas últimas décadas vivemos um compasso de espera do “como se” do país de Oz, o que víamos era uma transfiguração colorida da oligocromia existente detrás da cortina. Isto vem provocando cada vez menor frequência aos espectáculos do pobre feiticeiro e das reuniões com mais ou menos comida e bebida promovidas pelos funcionários ilustres da Cacânia.

Nunca apreenderemos que o poder se comporta como um carro de chassis defeituoso e direcção não assistida, razoável para conduzir em recta, fatalmente destinado ao desastre ao negociar uma curva, mais ainda porque quem vai a conduzir teima em ver numa curva apenas uma lomba na desejada interminável recta. O poder apenas está preparado para preservar, como seria natural

As escolhas dos andaluzes e dos gauleses apresentam uma dificuldade a acrescentar ao que dissemos. por muito maus que tenham sido antes, a confusa percepção é que não vale a pena avaliá-los, votamos neles porque eles estão lá, ou numa fórmula conhecida recentemente, são famosos porque são famosos, ou já agora, a manifestação global do Dr. Bilhim e a sua cresap, a escolha dos mais competentes entre os competentes.

No fundo, nada de muito novo tem surgido nos últimos anos, o poder é tão real como ilusório, tão necessário como inconveniente, tão forte como tão fraco, tão omnipresente como tão ausente, o poder submete-se totalmente à natureza que se encarrega da evolução: a demografia associada e configurada pelos recursos e produção.

A curva é essa, o trabalho de casa que a natureza nos encomendou é esse. Até agora a TINA apenas descobriu Ford depois da Cacânia mas as noites para passar debaixo do esburacado palácio de cristal onde se reúnem os mais ilustres cacânicos só serão razoavelmente agradáveis para alguns. A maior parte ficará à chuva, será que vai atirar as telhar que caíram lá para dentro e acabar por derrubar a porta giratória depois de eliminar o porteiro? É que Ford ainda não acabou o dicionário da novilíngua e a TINA está a envelhecer.

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As origens dos paradoxos: a complexidade, o desconhecimento e a ocultação ou a eurocacãnia ainda longe da perfeição

Poucas coisas são capazes de gerar consenso na Europa cacânica mas a percepção do discurso paradoxal é uma delas. Há que pôr entre parêntesis a dificuldade do paradoxo numa sociedade cacânica que está já para além disso mas o processo de transformação demora muito a chegar à perfeição da exclusão. Na fase actual da transformação cacânica nota-se essencialmente o cansaço, a velhice irremediável, o regresso à dependência a coberto do novo império depois de deixar de o ser.

No discurso (ainda há uns restos de discurso) corrente dominam os vectores das reformas estruturais, o crescimento austero e o investimento. Subjacente a este arrazoado há a  mistificação sobre as dificuldades postas pelo chamado estado social e pelo problema da oferta. Aparece, algo envergonhado, o exemplo alemão como um exemplo da melhor aproximação à tipificação das bondosas reformas estruturais.

O estado social passou a ser o culpado do envelhecimento demográfico. Bom, se retirarmos completamente algum apoio na saúde e diminuirmos drasticamente os rendimentos do trabalho  até aos limites um pouco para lá da indigência será de esperar um decréscimo acentuado na esperança de vida de forma a rejuvenescer as populações. Para os revolucionários que governam a Europa actual tal é concebível porque estão a calcular que controlarão a revolução.

Um dos paradoxos mais notórios é o discurso que junta uma baixa taxa de emprego, rendimentos do trabalho esmagados e natalidade robusta. A alternativa parcial que tem sido seguida é a importação de populações, primeiro africanas e posteriormente sul-americanas e asiáticas – até do leste europeu – que tem substituído a baixa natalidade. Tudo isto se enroupa com falatório sobre o apoio à natalidade e suas políticas ditas de apoio, imediatamente esburacado pelo apelo à movimentação, primeiro no trabalho, depois do país. mas se há coisa que nunca assustou um revolucionário é a contradição ou o não ajustamento das propostas avançadas. Como se sabe, num revolucionário a realidade ajusta-se à ideia e as próprias ideias são facilmente contorcidas para se ajustarem à teoria.

O outro ponto revolucionário é o crescimento. Não se sabe bem o que impede o desabrochar de tal desiderato, as dívidas soberanas não poderiam impedir tal. Se o dito medrar depende essencialmente da iniciativa privada, os juros actuais batem todos os recordes de nanismo.  Alguns funcionários superiores lá deixam escapar que o desemprego jovem vai continuar a ser alto apesar do volumoso capital que o Sr. Draghi vai pôr à disposição. Enfim, mais um pequeno contratempo.

Outros mais afoitos reclamam por maiores facilidades no mundo do trabalho, ideias não muito distantes das teses da Inglatera da “Poor’s law” onde se afirmava que uma das principais razões para o desemprego é a pouca vontade de trabalhar – talvez seja a única forma de conciliar com salários à beira da indigência com baixo desemprego, um sobrinho do ditado pouco é melhor que nada. Ah, e a necessidade de criatividade, flexibilidade e formação não devem ser esquecidas pelos empregados do presente-futuro – num mundo conformado pelo dinheiro quer criar-se um exército de desprendidos e contidos. aqui a porca volta a torcer o rabo.

Então o problema não é o da oferta? mas então donde virá a procura. Das exportações… espera lá, para onde, para Marte?

Continua a querer negar-se as origens desta crise. Uma delas é o seu carácter cíclico e nada há a fazer – só os crentes do esquecido deus Greenspan é que professaram – mas será que essa malta professa coisa alguma – é que pareciam acreditar que as novas gestões financeiras tinham acabado com as crises. Uma outra e muito mais impostante e também cíclica mas com alguma novidade, é o reaparecimento do excesso de oferta. Quer em quantidade quer em qualidade e variedade. Esta sobreprodução dura há décadas e foi atenuada numa fase pelo endividamento. Não há dúvida que os rendimentos do trabalho estão estagnados ou em perda desde há cerca de quarenta anos depois da expansão do pós-guerra. A satisfação das pretensas necessidades desencontradas da insuficiência de rendimento para as satisfazer foi ultrapassada pelo cartão de crédito pessoal e nalguns países mais desorientados pelo cartão de crédito dos países. Só os que estão num estadio muito mais atrasado é que não padecem de dívidas gigantescas e mais ou menos impagáveis. Mesmo o oriental Japão caiu na armadilha e só não está na frente do palco porque quase toda a dívida está em mãos nacionais, apesar de um artigo da Bloomberg vir na corrente semana a iluminar essa situação.

A capacidade produtiva instalada é excessiva e o desemprego seria ainda mais alto se as habituais redundâncias das mega empresas e dos aparelhos estatais não contivessem números avultados de excedentários. Basta olhar para o castelo financeiro e perceber isso e a tendência para o emagrecimento dos empregados vai persistir por vários anos. O regressado aos lucros lloyds irá continuar a despedis, o atribulado HSBC também e então na luso cacânia nem é bom falar.

Alguns – poucos eu sei – perguntarão se estas afirmações são desconhecidas ou não aceites por quem administra as terras e povos ocidentais. a fácil resposta é que tal é conhecido mas o papel dos capatazes nunca foi de governar, mas sim de capturar o seu quinhão, mais ainda quando as suas funções são o mais redundantes e discricionárias possíveis. Quantos milhares de capatazes superiores poderiam ser dispensados sem inconveniente nenhum para a organização, muito pelo contrário.

A Europa ainda não encontrou solução para a perda das colónias, terras para onde mandou os seus excedentários durante os últimos dois séculos. mais grave, a Europa perdeu o império e passou a integrar mais ou menos voluntariamente o império americano, tentando acreditar no discurso irreal de que há interesses do ocidente – para quem tinha entre as suas filas quem dizia quem nem sequer havia sociedade, é um paradoxo de se lhe tirar o chapéu.

Para já e tristemente, temos que assistir ao lamentável espectáculo dos paradoxos filhos de quem não percebe ou de quem quer ocultar.

Nas horas difíceis lembremos Seneca que afirmava quem quem resiste ao destino apenas se deixa arrastar por ele, mas ele também disse que nem sabe para onde vai nunca apanha ventos favoráveis -também os estóicos caíam nos paradoxos, mas estes são filhos da complexidade. Suspendamos o julgamento, em honra da nossa escola.

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Na era da razão cínica o nevoeiro amalgama os ignorantes espontâneo e selectivo

O esforçado Kant procurou delimitar os terrenos dos estados natural e civilizado mas no fundo ele bem sabia que tudo repousava no como se, algo que os pragmáticos britânicos claramente vislumbraram.

O estado natural gera de per si o confronto. Outro prussiano teorizou sobre a guerra e cunhou a famosa frase sobre a guerra como outra forma de fazer política. Os tempos evoluíram e nem sempre debaixo do sol tudo permanece. Estamos agora numa fase um pouco diferente em que a política é uma outra forma de fazer a guerra.

O conhecido Fukuyama avançou com a hipótese da história ser chegado ao fim, um erro de que já se arrependeu mas havia alguma intuição brilhante subjacente. O historiador sino-americano dizia por outras palavras que a mais recente guerra e pensava ele, a mãe de todas as guerras, tinha sido travada no campo económico-financeiro com um vencedor claro. Poder-se-ia dizer que no fim do século passado, o confronto financeiro era essencialmente a nóvel forma de fazer a guerra e nisso ele tinha razão.

Na semana passada fomos brindados com um estudo resumido produzido por um conselheiro de estado. Ora os conselhos de estado sempre serviram primordialmente para aconselhar o soberano sobre quando e como fazer a guerra. Logo, Vítor Bento podia gozar da expectativa de ser alguém atento e informado.

O que é que Bento descobriu? Um erro, que não quis assumir com clareza e duas epifanias. O erro era a sua crença, em conjunto com o pensamento financeiro politicamente correcto, que estávamos perante dois problemas, um excesso de dívida pública e um problema de escassez de oferta. Vá lá, vale mais tarde do que nunca. Só um desconhecimento profundo ou uma ocultação selectiva poderia querer equacionar que dívida pública crescente se correlacionava com problemas de sustentabilidade a curto ou médio prazo. Todos os impérios cresceram lançando dívida, todos os impérios se afundaram quando deixaram de poder impôr a sua dívida. Não era porque os mercados da época desconfiassem da sustentabilidade financeira do império, era a incapacidade do império em exercer a força necessária para obrigar à compra da sua dívida. A famosa série de RR sobre as dívidas públicas ilustrava isto de forma exuberante quando se consultava a folha do Reino Unido, dados que eles habilidosamente deslocavam para um segundo plano. No presente, a dívida pública apenas sinalizou o tempo adequado para iniciar a guerra entre o núcleo e a periferia.

Esta realização do erro trouxe a primeira epifania – o núcleo credor é que estava a ganhar com a periferia devedora e não o mantra de que os devedores deviam estar muito agradecidos por estarem debaixo da protecção dos benévolos credores. A tese que Bento agora descobriu ser um erro, ia contra tudo o que se tinha visto ao longo dos séculos mas o pensamento dominante que conseguiu vender-se como sensato, prudente e informado não recua perante a realidade, transfigura-a como bom revolucionário – claro que protegido por textos assinados por quem passa por conservador e sensato, os novos-velhos internacionalistas, aquela subclasse da elite que defronte o primeiro obstáculo sério desmonta do cavalo e vai tomar chá com os árbitros do concurso, confiados que mais uma vez as aparências vão tudo salvar. Ver historiadores partilhar estas teorias é confirmar que a história é uma velha muito pouco recomendável.

A segunda epifania foi a passagem da escassez da oferta para a escassez da procura. Tudo isto é muitíssimo relativo, Bento não percebeu que tanto uma como outra são constituídas por um jogo muito volátil entre desejos e necessidades. Bento devia visitar uma das metrópoles que talvez prefigurem o futuro, Mombai, para perceber melhor o mundo que estamos a desenhar. Em Mombai não há escassez de oferta ou de procura, há constantemente um excesso iterativo das duas, aquilo que é mais importante é a luta pelo acesso ao mercado, ele próprio.

Aquilo que Bento não compreendeu é que em tempos que estão a chegar não vale a pena pensar que o mercado que se joga no dia a dia de Mombai tem algo de perfeito, nada terá, a escassez relevante é de poder, poder para tentar controlar o mercado que atingindo tal dimensão acaba por enterrar de vez a pia destruição criativa, o grande caído tem força mais do que suficiente para impedir que o pequeno novo se ponha de pé –  algo que os americanos estão lentamente a descobrir quando verificam que se tornaram numa das sociedades mais cristalizadas do ocidente, o que é deveras impressionante se nos lembrarmos do efeito agitador da imigração. Quando esta diminuir, Nova Iorque cumprirá o seu destino, ser Mombai da América.

Falta a Bento descobrir outra verdade, o touro e o urso do mercado financeiro da dívida pública estão mortos há muito, redescobriram Clausewitz. Basta ver os juros da dívida pública de alguns dos países do núcleo como a França, a Alemanha ou o apêndice belga, permitindo até a um país completamente falido como Portugal apanhar a onda.

Pode uma sociedade infantilizada como Bento do conselho de estado gerar adultos? Tocqueville receava que não, Sextus como bom pirrónico quer refugiar-se na suspensão de julgamento. Talvez não sejam crianças verdadeiras, estão apenas a aparentar que o são conforme a selecção dos obstáculos, talvez seja o confronto moderno entre os epicuristas e os pirrónicos que estes costumam perder por serem assimilados com os estóicos. Há que apreender que tudo não pode ser resumido aos porcos e ao cavalo da quinta de Orwell.

Como nota final: um céptico no século XXI da gigantesca e inigualada manipulação não vacila sobre a liberdade e a independência necessárias para poder interromper o seu julgamento.

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De em economista, passando por um banqueiro até um secretário ou a lusocacânea dos criados e capatazes

No seu trabalho ” Capital no século XXI ” Piketty expõe a evolução do rendimento de capital e do produto de França e Reino Unido, entre outros, nos últimos trezentos anos, período de que há registos fiáveis. Daí concluiu que o rendimento do capital tem sido de forma persistente superior ao aumento do produto, logo a parte da riqueza capturada pelo capital tem tendência a crescer.

É muito interessante consultar as longas séries do aumento da riqueza e perceber que o ritmo é sempre muito lento, muito raramente ultrapassa os 2%. Também é elucidativo perceber que este ritmo de crescimento é muito similar entre os países do primeiro mundo ocidental e a superior taxa apresentada pelos USA deriva do aumento populacional e não de um hipotético aumento de PIB/capita americano superior ao europeu.

Também se percebe pela consulta dessas séries longas que são as duas guerras mundiais que geraram um colapso do rendimento do capital e uma taxa de crescimento da da riqueza mais elevada.

Disto deriva Piketty, no que Sextus concorda, que a projecção para as próximas décadas deste século combina uma baixa taxa de crescimento da riqueza, inferior a 2%, uma maior fatia do capital na riqueza, mais potenciada pela estagnação e nalguns casos diminuição da população europeia. Ou seja, até aqui, num raciocínio de meridiana clareza Piketty expõe o óbvio: o mantra de crescimento repetido pela CE não passa de um engano, de uma conversa de crianças, melhor ainda, de uma conversa para o homem inútil da cacânea em gestação.

Como muitos saberão, Piketty está focalizado na criação de uma desigualdade cada vez maior e não aborda outros problemas. Manifesta uma crença moderada no projecto da união europeia e nada diz sobre outra desigualdade muito importante, embora indirectamente a aborde ao divagar sobre as diferentes taxas de imposto sobre o capital e os off-shore.

Piketty não conhece os banqueiros lusos e é pena porque talvez elaborasse outras especulações. É verdade que durante a última década vários bancos ocidentais, quase todos para sermos mais correctos, derreteram uma colossal parte do seu valor de bolsa, mas com a ajuda do BCE que faz empréstimos a juros não de amigo mas de paizinho conseguiram dar a volta, escapar à bancarrota e muitos deles  conseguiram reapresentar uma trajectória ascendente no valor de mercado. Claro que os bancos periféricos têm muito mais dificuldades, particularmente em ambientes de baixo crescimento. Eles próprios afirmam ter algum dinheiro para emprestar mas não lhes apresentam projectos que aparentem ser viáveis. Mais ainda, com o empurrar do país para exportador de mão de obra com um leque alargado de qualificações, trata-se de uma verdade que se auto-alimenta.

Os dois maiores bancos privados portugueses depois da falência daquele que era o maior, exibem prejuízos muito importantes e vêem o seu valor afundar de forma exuberante. Esta dificuldade em inverter a queda será sempre maior na periferia, algo que Piketty não aborda e também algo que o centro parece não compreender. Ou seja, no novo mundo em gestação vão ser mais evidentes diferentes taxas de rentabilização do capital, algo que já era mais ou menos assim no passado com a assimétrica taxa de industrialização observada no ocidente. Isto era atenuado por uma tendência para crescimento demográfico mais vigoroso em sociedades um pouco mais atrasadas.

Certamente que o centro está muito consciente do que está a ocorrer e tem feito o trabalho de casa para lidar com este problema. A primeira tarefa dada aos capatazes que descem o castelo é espalhar a confusão, os aldeões não sabem o que fazer, nem sequer adivinham se alguém espera que eles façam alguma coisa. O agrimensor foi contratado para nada medir.

A segunda tarefa é fazer incrustar na aldeia a imagem de pertença ao castelo, coisa que na realidade incomoda o próprio castelo que não tem tarefas para a aldeia para além de servir comida e cerveja aos capatazes quando estes descem do castelo. A visão de que outras aldeias fazem o mesmo porque tal obedece à lei natural constitui a última tarefa do dia.

Não se trata bem de um projecto revolucionário, trata-se de um projecto essencialmente terrorista, mas elegante e atrevido, chamando de irresponsáveis e reaccionários todos os outros, ou seja, fora do homem novo proclamado por Maçães restam crianças e velhos.

Uma versão muito parcial disto que está a ocorrer é a investigação sobre a cartelização dos preços de produtos de higiene e derivados nos super franceses, a gloriosa globalização na sua verdadeira essência, a cumprir o seu destino. Americanos, franceses, ingleses e alemães todos juntos a almoçar e a trabalhar.

Alguns dirão que isto é um sinal de que nem tudo está perdido, mas basta ler Musil e e perceber que na Cacânia há sempre alguns infelizes. É  não perceber qual é tarefa dos governos desde sempre, não é regular é criar assimetrias de informação e de acesso, é uma inerência que uma sociedade tem de suportar mas que não deve permitir que cresça até a sufocar – tratado USA-Europa pode bem ser a almofada final.

Há uma dúvida que Sextus vai partilhar: o que fazem no castelo a tipos como o Maçães? Dão-lhes cerveja, chocolate ou lavam-lhes o cérebro? Espero que não seja muito doloroso.

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Atenção Portistas! Atenção Futebol Club do Porto!

O jogo com o SC de Braga, ontem, deixou-me perplexo e pensativo.
Em primeira instância e na qualidade de adepto de sempre do F.C. do Porto, quero aqui louvar e enaltecer a postura e atitude dos nove magníficos que restaram até ao apito final!
Como habitual no momento presente, os noticiários começam sempre pela vitória do S.L.Benfica, tentando secundarizar o escândalo do que ontem se passou em Braga.
A arbitragem representa, para além do evidente e espúrio prejuízo para as cores azuis e brancas, significa, no meu entendimento, o momento da perda de respeito pela instituição que é o F. C. do Porto.
O apelo que deixo a todos os sócios e simpatizantes do meu clube é que deveremos unir-nos em torno do corpo directivo na defesa dos superiores interesses do nosso F. C. do Porto.
A questão que fica no ar é:
Será este e outros factos os sinais de um fim de ciclo?

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Clausewitz revisitado na fronteira entre a cacânia e o império, ou desde a guerra como continuação da política para a política como continuação da guerra

As sociedades de fim de ciclo, de fim de uma certa história apresentavam no passado uma grande fragilidade, principalmente as mais primitivas. Certamente que a escrita desses tempos de crise padece de dois defeitos cruciais, entre outros menos decisivos, a reescrita feita num tempo e por um autor que não viveu essa crise e a relativa qualidade dos conhecimentos sobre o passado. De qualquer modo, várias sociedades antigas colapsaram de forma algo rápida, umas vezes após um declínio silencioso mais ou menos longo, outras por incapacidade de suportar o desafio do estranho, o caso do derrube do império romano do ocidente constitui um bom exemplo da primeira variedade, o fim das civilizações índias da américa do norte a demonstração da segunda. Em ambos os casos, muitos são tentados para atribuir uma não irrelevante importância á má governação desses estados.

Nesta época mais tardia, as sociedades humanas adoptaram uma organização matricial muito mais robusta com muito maior capacidade de encaixar agressões exteriores e ruínas interiores parciais durante tempos prolongados. Esta forma de distribuição em rede na sua vertente mais eficaz facilmente engloba o seu agressor enquanto que nos modos mais frequentes, interage de tal forma com a ameaça que a conforma e limita. A rede final, a globalização acabada elimina a agressão porque deixa de haver exterior, mas como qualquer coisa está debaixo do domínio do divino Janus, se elimina o exterior elimina a vida, pelo menos a animal – no fundo, o projecto da globalização ambiciona transformar a grande massa humana numa gigantesca hortaliça.

A grande resiliência das sociedades avançadas é atribuída conforme os interesses, á grande complexidade que torna quase inexiquível qaulquer acção, ou por outro lado, à grande inteligência do governante / gestor qua sabiamente previne os piores desenvolvimentos e garante a melhor progressão. Na pré-cacânia moldada pelo império cada vez mais iremos oscilar entre estes dois pólos, o da máxima inibição e o da excelsa e informada intervenção.

A Gaúlia de hoje serve bem para ilustrar um pouco do que acima dizemos. O presidente Hollande de há muito vinha sendo apoiado pela última aldeia dos irredutíveis que albergava qualquer coisa á volta de 15 a 20% dos gauleses. Eis que um grupo de desorientados magrebinos pega numas metralhadoras e assassina uma dúzia de pessoas. O presidente alinha a mais previsível sequência de afirmações sobre este tipo de ocorrências e depois desfila com mais ou menos solenidade pelos campos Elíseos. Ora bem, tal é motivo de grande aplauso e passa a ser suportado por mais de 40% de franceses agradecidos por tão bom desempenho.

A Goldman-Sachs pode também avançar – noutro post já Sextus avisou que o processo da cacanização acaba sempre por atingir quem o comanda – eis que contrata um distinto advogado da praça lusitana, homem com grandes conhecimentos humanos e reputado senso de gestão política entre outras coisas. Que faz ele, nada, não faz o trabalho de casa – ou será que é um exemplar de fidelidade absoluta aos primeiros amores? -e ignora o diz-se diz-se e lá vão algumas centenas de milhões.

A PT é outra montra, antes refúgio de gestores aplaudidos de modo consensual, agora é uma confusão a ponto de não se conseguir identificar uma data para uma decisão de uma assembleia geral informada.

O ministro Macedo, durante anos identificado como o aladino que descobriu a arte de reformar e cortar sem se notar na montra, após o embate de algumas mortes mais ou menos embaraçosas nos serviços de urgência passa rapidamente para os desafortunados que não previram tudo e talvez tenham feito ou demais, ou de menos.

Na Grécia que vai a eleições -Sextus não percebeu bem para quê, pobre terra – vai descobrir depois de domingo que à austeridade expansionista e reestruturadora se segue a expansão austera e reestruturada.

A imprensa de quarto poder passou a primeiro poder como prémio por ter chegado em primeiro á meta cacânica.

Toda esta oscilação aleatória e etérea torna mais clara a grande resistência desta europa de outono tardio, primeira derrotada pela globalização imperial. A Sra Merkel ainda não percebeu que aquilo de que muito se ufana muito sorriso provoca ao incumbente que lá vai mantendo umas bases militares para o que der e vier. Isto de fazer carros e algumas máquinas não é bem o destino do centro, o centro manda e esconde o que faz de mais importante, quanto ao resto pode também vender. O centro sabe qual é o seu principal desafio, tentar a quadratura do círculo, a cacanização dos dominadores.

O que este canto do mundo ainda não percebeu, confortado pela resistência da velha opulência tão visível para quem a calcorreia, confundindo essa resistência com permanência, procurando esquecer as consequências da perda dos impérios é que a máxima de Clausewitz foi virada de pernas para o ar. Quando acordarmos só veremos os anúncios dos programas das celebrações cacânicas na sub-centralidade e o vazio e a velhice empobrecida da periferia, finalmente reestruturada. Nem Piketty percebeu em seiscentas páginas que a desigualdade sendo importante não é o centro da crise, a irrelevância sim.

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Até á bem-aventurança cacânica ainda restam algumas revoluções naturais ou quando tudo poderá ser remetido para as análises SWOT dos gafanhotos modernos

O desfile parisiense do passado domingo remete para Canetti, o judeu do leste. Quais seriam os principais vectores de formação daquela massa nem o próprio Elias avançaria com segurança na sua identificação. O pensamento fácil, logo predominante, proclamou a defesa da liberdade como causa próxima e talvez esteja perto da verdade. Nesse caso, a revolução dos capatazes já vai bem avançada, vendem um artigo que não existe, nunca existiu, a dita liberdade e conseguem mobilizar a massa para defender a agressão ao não existente, sendo verdade que as massas muitas vezes optam por substitutos na inultrapassável ausência do significante.

O desfile também foi modelado pela emoção, aqui há um potencial retrocesso. A emoção implica sempre uma focalização, um afunilamento da atenção e da paixão. Ora, a base do projecto do controlo das massas assenta na sucessão rápida e infinda de brevíssimas emoções, que não chegam á exteriorização, apenas se esbatem na fadiga e sobreposição infinda. A sinalização de um desejo a que a massa possa emprestar uma emoção mais que fugidia torna-a descontrolável e pronta para a identificação de outros projectos globalisantes.

O desfile tem perigos potenciais. Sextus acredita que o processo de construção da separação entre o castelo e a aldeia, para ser bem sucedido, não deve conviver com momentos de aparente compreensão e identificação entre os donos do castelo e os aldeões. O sucesso está na construção da incomunicabilidade e inacessibilidade, os aldeões são obrigados a transferir a sua inscrição – como diz Gil – para a representação porque não estão abilitados ao conhecimento global, restrito ao castelo. A perseguida cacânia é o fruto da representação elevada á representação até à esquizofrenia abençoada. A partir do momento em que o poder perdeu o carácter sagrado tem que se enroupar pela incompreensibilidade. Um poder que é compreendido leva á sua perda, quem o apreende toma-o ou luta com ele. O pio desejo do compromisso como etapa moderna do poder tem sido a sua melhor veste mas os rasgões são demasiado largos, embora as massas pós-modernas e endoutrinadas tenham até agora suportado tal figura.

Como sempre, uma outra face do desfile é benvinda para o projecto, a marcha da massa confirma a bondade da via única, assegura que uma razão casada com a emoção só pode ser fruto da grande verdade. A massa visualiza-se como motor e origem da vontade e julga ultrapassar as limitações da representação – a massa não transfere a representação, nada existe para além da massa para receber esse testemunho, durante o desfile há um vazio de poder, melhor, o poder mergulhou no buraco negro da massa. A melhor maneira para suportar o componente da solidão da fase actual antes da chegada ao paraíso cacânico onde novamente todos poderemos estar juntos, deveremos mesmo, é a permissão para momentos de assunção de grupo.

Diga-se em abono do poder, que este também sofre com o processo de cacanização que desenvolveu para a massa. Para além da construção do homem novo pelos revolucionários que estão no poder, o homem sem qualidades e sem emoções, o programa do disco duro a inserir na massa e no próprio poder será uma análise SWOT que implicará um apagamento de todas as outras programações. Não haverá valores porque o caminho é único, a inevitabilidade, o historicismo são, por definição, desprovido de qualquer valor para além da necessidade. Claro que o historicismo está em ruptura fatal com o devir heróico, despreza mesmo a massa – qual pode ser a reacção da pré-massa atomizada ao desprezo a que é votada é uma pergunta com várias respostas.

A clonagem do cadáver de Hegel e de Marx tornou-se possível, não temos a Dolly, teremos a trupe dos capatazes-gestores que assassinaram praticamente todos os antigos donos do castelo – exemplo actual, o extraordinário caso da PT, onde já é difícil identificar donos mas é fácil adivinhar cumplicidades, perceber silêncios e chorar prejuízos que rapidamente serão transformados (a oportunidade) por quem pode marcar as cartas, em apetitosos lucros. A metamorfose do futuro gerará mais do que capatazes actualizados, serão gafanhotos que tudo capturam. Será a caricatura adivinhada da meritocracia, a riqueza concentrar-se-á nos super gestores de méritos que nem a massa vê e que atribuem mirabolantes gratificações recíprocamente – lá estará o douto Bilhim a validar tanta sensatez e inteligência funcional. O sangue susbstituído pelo golf – parece que está em queda, o que irá susbtituí-lo, nem Sextus dorme com esta angústia – o acumular pela conservação ameaçado pela força da oportunidade da captura.

Aquilo que surpreende, é mesmo paradoxal, logo de recear que possa ocorrer, é que se está a criar o notável homem novo sem qualidades desprezando a emoção das massas, pelo contrário promovendo a sua atomização. Tanto Huxley como Orwell apresentavam a distorção potencial do lobo solitário nessas sociedades do futuro, sempre empurrado para o extremismo. Mas antes das novas sínteses, se é que irão surgir – já o fizeram no passado mas tal nunca constituiu garantia de que continuem a fazê-lo no futuro – ainda há algumas revoluções, ditas oportunidades, que terão de ser realizadas pelo poder global.

Talvez nunca tenha havido poder tão revolucionário na história humana pelo menos na metade ocidental, o mundo indiano parece continuar submergido na roda da morte de Chesterton e o mundo chinês é de muito difícil compreensão para um amador. A revolução em curso tem aliados poderosos, os três maiores são o terreno, ou seja as características do homem em busca da identidade e da referenciação a um único, predisposto a transferir quando percebe a sua incompreensão sempre na esperança de que aquele que aceita a transferência possui a chave para o segredo, o inigualado poder da mimetização e conformação dos meios de comunicação ajudado pelo ruído ensurdecedor da net e a transformação do revolucionário no guardião do status quo e aquele que recusa a revolução no imaturo revolucionário, diferente da velha oposição comunista entre revolucionário e reaccionário – a criação da globalização, do derrube de fronteiras, da moeda única, da transferência de poderes, da regulação, da financiarização da economia ad nauseum, da taxação absurda, da confluência entre banca comercial e de investimento, da parceria público-privada, da vigilância nas ruas e em todo o lado é o historicismo imparável e para além de qualquer justificação, por inerência, a discussão disto é a postura revolucionária. Foi a oportunidade da mudança que a justificou, a reflexão sobre a mesma é a ameaça. Os revolucionários transformarão o fracasso em sucesso, guerra é paz, hossanas ao duplipensar e á novilíngua.

O desfile de domingo mostrou que, paradoxalmente, a revolução está em curso, não se defendia realmente a liberdade, não foi uma emergência de citoyens tardifs, apenas se proclamava o desejo de desaparecer no esborratar da uniformidade, o filho querido da igualdade e da mítica fraternidade. Só a sede do império não ressonava, mandou um capataz menor.

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De Lao-tse a Pandora enquanto que as massas aguardam Ford

Spengler tinha um modelo conceptual para a história que era recusado pela maioria dos seus colegas e leitores, particularmente a ideia essencial de uma alma para cada cultura, que envelhecia até á sua substituição por outra civilização que emergia de um novo espírito. Spengler nunca discursou muito sobre a ruptura que separava duas culturas sucessivas, quanto do novo não era constituído tão somente pela mudança de pele. Esta atribuição de um quase corpo a cada civilização implica necessariamente uma vontade de acção, um pôr-se em forma no discurso spengleriano do jovem que persegue a presa / objectivo. Muitas críticas se podem fazer a Spengler que estando provavelmente errado na ideia nuclear foi capaz de escrever páginas deliciosas de análise. A Spengler, como bom alemão do início do século passado, sobrava Hegel em demasia, logo sob crítica mas entranhado e faltava-lhe penosamente Lao-tse.

Este grande pensador chinês gozava de uma profundidade inigualável, transportando ao mesmo tempo o bom senso auto-suficiente, a afirmação globalisante e inútil por impossível de contrariar, o paradoxo da ausência de correlação entre causa e efeito dobrados pelo peso do caos fractal. Lao percebeu muito bem, talvez melhor que os pirrónicos, o artifício fatal do terceiro excluído.

Os tempos actuais talvez sejam parecidos com a morte da civilização segundo o conceito de Spengler. Não porque a crise seja profunda, na realidade é em muitos aspectos bastante mais superficial que a ocorrida no período peri-primeira grande guerra e se compararmos muitas das afirmações do presente com as proferidas nos anos vinte do século passado percebemos que o pessimismo e cinismo desse ambiente eram mais acentuados do que agora. Isto ainda é mais de realçar porque após grandes mortandades, as massas são facilmente levadas a acreditar que então vai ser diferente, que finalmente vão tirar lições dos erros cometidos, algo do que se passou após a segunda guerra mundial nalgumas zonas da europa. Mais, nesses anos vinte, o progresso científico só em círculos pequenos podia ser olhado como uma ameaça, ao contrário do que agora se verifica. O pessimismo do passado talvez tenha nascido de um vislumbre de esgotamento, da percepção que iríamos ser expulsos da casa e do trabalho que conhecíamos.
O pessimismo do presente retoma essa época com a marca dura da queda da natalidade, que só em parte pode ser imputada ás dificuldades financeiras. A disseminação dos contraceptivos orais tem trinta anos na lusitânea e quarenta no resto da europa, mas foi nos últimos vinte que a demografia mudou e mais notoriamente nos últimos dez anos. Mesmo na Alemanha, parcialmente a salvo da recessão, a natalidade por mulher desceu claramente abaixo de 1.5. Isto pode marcar de forma consistente o começo do fim desta civilização.

As propostas dos vários governos para minorar esta baixa da reprodução são compreensivelmente ineficazes, os governos sustentam a civilização o melhor que podem e possuem um potencial de acção muito diminuto quando querem empreender alguma reforma. Paradoxalmente, a crise económica-financeira pede algumas mudanças que afundam ainda mais a natalidade – um parêntesis para a informação no expresso do último sábado sobre o grau de endividamenteo das empresas portuguesas, maior do que as gregas, mas pouco, cinco vezes maior que as britânicas, quatro vezes maior que as alemãs e as francesas – a rentabilidade do capital nesta zona do globo já não garante a empregabilidade desejada, pelo contrário atira para o desemprego cerca de um terço dos jovens que pretende entrar numa profissão. Talvez seja verdade que uma grande parte dos governos acreditaram genuinamente que a globalização e agora o acordo transatlântico, criassem riqueza e empregos, mas é difícil distinguir entre o efeito conseguido mas não procurado e o planeamento sólido mas ocultado.

Lao-tsé deixou vários aforismos sobre a dissociação entre aquilo que planeamos e o que obtemos, entre os primeiros efeitos e aqueles derivados desses e que os contrariam. De outro modo, a força e o movimento do recuo podem causar maior influência que o primeiro objectivo que foi naturalmente conseguido – os soldados das armas de recuo de antigamente sabiam isso muito bem. Estas reflexões aparecem por vezes de forma muito camuflada sob os discursos do domínio dos mercados, quer quando se afirma a sua complexidade dominadora que nada permite fora da sua vontade, quer quando tudo se explica seja qual a fôr a causa – a chuva diminuiu o preço dos nabos porque o nabal assim gosta, a chuva aumenta o preço dos nabos porque se receia que depois da cuva venha a seca, como é costume, ou melhor ainda, o preço cacãnico-luso da electricidade, ou ainda melhor se possível, depois de um mínimo de seis anos do petróleo, anuncia-se a significativa subida da gasolina por desejos do neoliberal ministro do ambiente.

Aquilo que Lao não previu foi que o seu apelo à parcimónia e desapego do poder, consequente á identificação dos perigos e imprevibilidades do seu uso, engendrou a resposta paradoxal do apego ao mesmo para além daquilo que era conhecido até agora. De certa forma, o grupo de elite de capatazes identificou de forma preclara esses perigos associados á perda do controlo, muito agravados pelo uso discricionário que dele vêm fazendo, logo aumentando imensamente a diferença entre ter e não ter. Esta acuidade removeu qualquer pudor e enterrou de forma definitiva a ideia sonhadora do comportamento do “civil servant”, propagandeada pelo império britânico no século dezanove. É preciso notar que tal sempre foi muito empolado pelos ingleses, os mais excelentes publicistas que transformam qualquer coisa relativamente banal em “terrific” desde que seja no seu interesse, que costumam correctamente identificar.

Este apego ao poder pode ser personificado no regresso de Sarkozy, na candidatura de Jeff Bush, no aparelho legitimador do Prof. Bilhim, no articulado das empresas EPE. Este desejo é alimentado e saciado pela trupe dos gestores cuja principal ocupação é participar na co-gestão das imagens uns dos outros atirando elogios com mais liberalidade do que qualquer par de namorados no filme mais pinga-amor e possidónio que se recorde – a característica da cacânia não é a falta de gosto ou de vergonha, é o mundo para além disso.

O apego ao poder acaba por conferir a alguns dos que o frequentam de forma mais duradoura a pretensão da engenharia dos sistemas e das sociedades. Depois da redifinição do médio-oriente, falhada em grande parte mas que, com um custo de muitas centenas de milhares de vidas e de bilhões de contratos, vai chegar perto daquilo que se pretendia, chegou a hora da segunda partilha russa, verdadeira terra de desastres, desde sempre, dos boiardos, de Ivan, de Pedro, de Catarina, de Nicolau morto na Igreja do Sangue Derramado, de Anna até ao Grande Inquisidor para chegar ao suicídio colectivo e lento do pós-comunismo – Stalin, ditador descontrolado e engenheiro das populações, corre o risco de ficar para a história como o último líder russo antes da grande implosão.

A abertura dos vasos de Pandora vai continuar a repetir-se agora que Epimeteus se confirma como incapaz de a satisfazer e a procura irá continuar. Como se sabe, a esperança está mesmo no fundo do vaso e ainda podemos retirar do mesmo muitas mais coisas. Até porque os estragos ocorrem sem grande recuo em quem os desencadeia e qualquer angústia que pudesse acometer os capatazes que seguram no vaso será sempre enquadrada pela tranquilizadora aprovação das massas em busca do entendimento inacessível que está ocultado por um sistema cacânico e uma novilíngua.
A repetição segue o seu curso até à mais paralisante forma que a civilização possa assumir. O perigosamente novo é que Pandora, fatalmente doente, se deita com sucessivos amantes ainda saudáveis e pior, Lao não previu Ford…

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De Morais a Poiares até Canetti ou só há ouvintes e membros do facebook na Cacânia

Esta semana tivemos uma exposição bastante descritiva dos mecanismos da corrupção na luso cacânea feita por P Morais num canal de grande difusão, o dois da RTP. Louve-se o discurso fluído e apreensível de Morais assim como a sua disponibilidade e recusa do kinismo de Diógenes e do cinismo pós iluminista. Muitos concordarão com a pintura que Morais desenha e não será Sextus o desmancha prazeres, mas creio que as cores estão pontualmente mal seleccionadas e a paisagem acaba por não constituir o paradigma que se quer erigir.

Morais acredita que na corrupção pode ser encontrado grande parte do atraso português, no fundo uma versão do dualismo países inclusivos e exclusivos de Acemoglu. Também não se pode contrariar isto mas a corrupção não chega para suportar a discronia lusitana.

Por vários motivos, muitos ainda não percepcionados distintamente, outros muito antigos, os lusitanos vêem-se como periféricos há muitos séculos e só talvez durante a segunda metade do século XV e a primeira do seguinte quase que conseguiram deitar para trás esse peso. O peso desse século excessivo foi pago com a exaustão de recursos, agravado com a angústia sobre a existência do país no período filipino. Outros adicionariam os judeus expulsos mas Sextus crê que as origens da involução são mais intrínsecas e não exteriores à nação (embora não se possa excluir de forma negligente que esses judeus também pertenciam à nação). A assunção da sua inferioridade rapidamente descambou no agravamento da corrupção.

Morais pensa ao contrário, a corrupção origina o atraso, Sextus vê a corrupção mais como desvios de recursos de uns lugares para outros, desvios activamente promovidos que na sua ausência talvez permitissem resultados diferentes.

Corrupção limita as oportunidades e em casos mais agudos quase se transforma numa impossibilidade de fazer, com derivados de fuga e de medo.
A intervenção do estado na RTP também deixa adivinhar grossos fumos de corrupção neste caso do futebol. Aquilo que parece é que a compra pela RTP perturbou o negócios de agentes privados que viam no estado o seu protector e não um concorrente. Não é sério invocar o desígnio da RTP para censurar o negócio. O que se tornou levemente implícito é que o conselho geral independente é essencialmente mais um regulador que representa quem tinha que representar, os incumbentes – a legalização dos lobbies na terra da última revolução democrática não constitui um sinal de maturidade, mas antes um reconhecimento da derrota dos princípios fundadores. Os ditos pais da democracia americana teriam que praticar contorsões impossíveis para encaixar o governo do povo pelo povo com a institucionalização dos lobbies – o princípio da gestão tayloriana de que tudo que se não pode medir não é importante evoluiu para tudo que não se pode pagar não tem valor e os americanos caíram na armadilha inultrapassável: a independência, a liberdade e a responsabilidade não se podem medir mas são na realidade os valores mais importantes.

A corrupção deve ser lida preferencialmente como o desgaste das ligações entre quem estava ligado. A corrupção mais importante – honra lhe seja feita, Morais falou isso de forma explícita – atinge a ligação representado-representante. Há muitíssimas razões para tal, uma delas está no próprio sistema, conforme refletiu Platão logo no início. A adição da corrupção à representação (uma forma de substituição, logo algo aparentado com a corrupção) produz inevitavelmente a eliminação progressiva da responsabilidade. É a este trio, representação-corrupção-inimputabilização que de o estado cacânico o seu nascimento.

Para que o estado cacânico não morra rapidamente é necessária que a sua massa não pare de crescer até ao limite de englobar tudo. A política predominante do ocidente, a globalização, não passa de uma versão das massas de Canetti, onde cada um se dilui, onde cada um porque deixou de o ser pode ultrapassar o medo, onde as ordens deixam de ser os espinhos da individualidade.
Falta a este projecto, benigno an primeira leitura, demencial na reflexão, a projecção: o que é que a massa quer projectar. Como aparenta nada lhe ter sido dado para o fazer, a massa só poderá sobreviver na versão do admirável mundo novo.
Só pode haver ouvintes na cacânia, ou caros telespectadores ou telejogadores. A massa adora o facebook, a versão moderna do soberano de Hobbes.

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A burla começou há 34 anos!

Fazem hoje 34 anos da morte prematura de Adelino Amaro da Costa e de Francisco Sá Carneiro.Ainda hoje há quem questione se foi acidente ou atentado.
Convicto que estou que se tratou de um atentado (pois convinha calar Amaro da Costa e tudo que ele sabia sobre o tráfico de armas com sede em Portugal), teremos que rebobinar a fita do tempo e pressupor que a verdade histórica ainda não foi escrita por causa de todos aqueles que souberam realmente o que se passou. E muitos ainda estão vivos.
Talvez por isso é que não convirá que se saiba!
Desde esse momento a horda dos políticos jottas, medíocre e mal preparada, tomou conta do País. Desde a legislação que emitiu a seu favor, passando pela “venda” ao desbarato do Império e do País, continuando pela pseudo integração europeia (onde pagamos 200 escudos por 1 euro enquanto que os alemães tiveram a paridade de 1 marco por 1 euro) e acabando pelo sugar do povo que tantas vezes evocam em vão, mas que impreparado que também esteve e está, continua a exercer o seu direito inalianável quão inútil do voto nas urnas, afogado numa democracia de dívidas, despotismo e pobreza, continua inerte e incapaz de reagir.
Já aqui escrevi muitas linhas de desagravo de cidadania no que considero o ideário da defesa da minha Pátria.
Neste dia apenas quero recordar a saudade dos que, próximos ou não, me fizeram aquilo que sou.
Amaro da Costa e Sá Carneiro descansem em Paz!

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Sócrates e Juncker, acto um e cena um, únicos ou na Cacânia, não adormecer já é sinal de distinção

Já sabemos há muito, muito tempo que nada se aprende e que a tragédia se repete no modo da farsa, só suportável á luz da mitologia. Numa sociedade onde a tão reclamada regulação falhou há muito – realmente sempre o fez, estava na sua natureza, excepto para alguns crentes numa doutrina que não pretende revelar mas sim endoutrinar, a essência de qualquer boa doutrina – e desempenha papel igual às paredes de vidro na exibição da vida, tudo se passa realmente detrás dos panos, a promessa do bilhete de acesso ao lugar de actor não se cumpriu, os compradores foram desviados para a plateia para testemunharem a pantomina.

Como se sabe, a cena da prisão de um ex-primeiro ministro não vai ter sequências, é única de um acto também único. Só há um dito super-juíz porque assim foi determinado de forma clarividente, que mesmo que se fosse dotado de serviço de estado -poucas vezes o houve na história e geralmente apenas em climas de grande ameaça, talvez seja isso uma das melhores razões para explicar a baixa corrupção escandinava – deve viver numa grande desorientação no mar de centenas de potenciais corruptos e corruptores. O antigo primeiro-ministro vai ser exibido tristemente como prova de vida de alguém que nunca quis nascer, de alguém que já não se sente fadado para protagonizar o cerimonial de um poder, apenas manda recados pelos jornais. A justiça, o maior sonho de Adriano de Yourcemar, foi sempre um edifício inacabado, com a fealdade das estruturas á mostra dos bairros de lata andinos – inacabados por falta de fundos e para escapar aos impostos, a justiça sempre exagerou nas suas promessas. De qualquer maneira, Sócrates irá ser o primeiro primeiro-ministro condenado por corrupção e tal não será um engano da justiça.

O caso Sócrates constitui mais um elo de uma longuíssima cadeia da falência da representação. Nunca foi resolvido nem nunca o será o falhanço de representante. Poder-se-ia avançar como atenuante que a vida é de facto um conjunto interminável de erros, de ausências e de insuficiências mas isto não desculpa o representante, o representado sente que o erro é uma condição inseparável do seu ser e nunca pode entender essa transmissão, no fundo a propriedade do erro é a condição da sua essência. Não está bem resolvida, nem nunca estará a contradição insuperável de aceitarmos a transferência do direito de governar com o dever de acatar a transferência do erro do representante, por isso é que ele pode ser substituído. Hobbes tinha alguma razão mas pouca, aliás qualquer sistema de argumentação perde sempre a sustentabilidade quando é desenvolvido na sua plenitude – o garante do sustentável é o erro intrínseco do sistema, não uma eventual pureza do mesmo, só o erro se aproxima da natureza e do ser.

Se Sócrates vai ser o primeiro de uma lista de um único isso apenas quer dizer que o sistema está a esgotar-se, já não tem a vitalidade de se pôr em causa de forma repetida e a sua inevitável condenação só se torna possível porque é facilmente digerível pelo sistema, algo muito mais complicado do que aquilo que poderá acontecer com Salgado, um erro de um capataz é de imediata resolução, a de um agente não.

Juncker é uma versão mais inteligente de Sócrates, na aparência protegido por um enquadramento legal que permita nichos que o contradiz e que só sobrevivem porque estão escondidos ou pela sombra ou pela multiplicidade, tal como os ramos mais avançados de um fractal são iguais a qualquer outro. A desmultiplicação, a consequente proliferação e o estendimento em toalha globalisante torna tudo indistinto. Talvez Juncker não tenha enriquecido de forma directa como Sócrates, apenas terá alcochoado o seu assento favorecendo a fuga aos imposto de outros, prejudicando muitos que queriam sonhar entrar na competição mercantil para benificiar os raros incumbentes, enfim Juncker foi um estadista padrão.

Nada disto é realmente novo, nem Sócrates, nem Juncker mas na verdade, nada disto é realmente velho. Como sempre, aparece qualquer coisa adicional para evitar a repetição enfandonha, a cópia acrescenta qualquer coisa ao original, o presente acrescenta o passado. Este estado persistente corruptivo do presente medra agora num ambiente de quantidade excessiva de dinheiro, nunca houve tanto como agora e nunca o estado se tinha apropriado de tanto como agora.
O que faz o estado: redistribui para quem mais tem, como sempre fez – o estado social começou com um propósito de acalmia das massas em dificuldades e reivindicativas, trasnformou-se numa indústria com bons lugares para os capatazes que se sustentam na promessa habitual de pão e circo para a geral e de mais empregos para as primeiras filas da plateia. Os mais rapaces fazem como Sócrates, outros com mais densidade satisfazem-se com privilégios – foi quando a nobreza se desinteressou pelos privilégios e gulosamente invejou os lucros e rendimentos que esta fase da história começou e que, em consequência irá acabar um dia sem ninguém saber como.

Quem manda, coordena, já nem se sabe, será o sistema financeiro certamente mas não será que esse castelo foi tomado por uma trupe imparável de capatazes? A quem deve interrogar o agrimensor, mas o que querem dele?

No fim do dia, escutando histórias que monotonamente se repetem quase iguais umas das outras, cansados, não cair no sono já é sinal de distinção, própria de quem não quer ser sacudido para acordar. Hélâs, quase todos temos de dormitar pelo menos, com uma música de fundo agradável na Cacãnia rica e central, na periférica é a sabujice habitual. O mais revolucionário é que até na Cacânia rica não há o desejo de ter filhos, Sextus tem a certeza que Merckel leu Musil.

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A cacânia revelada ou do hábito de falhar ao abandono do fazer

O tempo passado desde o seu início de funções permite com razoável segurança atribuir um rotundo falhanço ao governo de PPC. Sextus não se desdiz, o falhanço está na natureza dos governos mas alguns, por se depararem com problemas que demandam algumas soluções, o caso deste governo, permitem escapar ao seu destino. Mas PPC não escapou – é interessante a nota do painel do Expresso sobre o governo, que há meses se arrasta pelo dez, ora o valor na imprensa e televisão da treta tem de transformado para o valor real, 01.

O falhanço ainda pode continuar por mais alguns anos, talvez algumas décadas desde que a principal tarefa desses governos se cumpra, a manutenção das vias que permitem a fuga – no último ano lá se escapuliram mais de cento e dez mil e este ano, o ritmo parece que se mantém. Não é fácil antecipar o resultado deste movimento combinado com a decisão da população em não se reproduzir, algo que pode atirar o número de portugueses para valores abaixo de oito milhões mais depressa do que se tem projectado. Como é que um número reduzido paga compromissos assumidos por um número muito maior não é imediatamente evidente, mas todos perceberam que a dívida, mais do que para pagar, funciona como mecanismo de retenção. Depois lá virá alguma inflação – mas é difícil entrever as causas para tal – que alivia o esforço da dívida. No entretanto, reflicta-se sobre o surrealismo das taxas de empréstimo junto do BCE, perto dos 0% e os juros das dívidas públicas acima dos 2% da maior parte dos países europeus ditos solúveis e de taxas à volta de cinco e mais % de todos os outros – para mantermos a admiração lembremos a taxa de cerca de 1.5% da falida Irlanda.

O problema demográfico poderia despoletar correcções importantes a médio prazo mas isso talvez não ocorra. A predição do futuro é impossível, talvez que os países ricos escolham apostar em manter as portas semi-abertas para a imigração, recrutando mão de obra barata das periferias ou optem por empurrar para a periferia interior a maioria da sua população. A primeira opção é mais segura para o projecto da globalização desde que o comportamento demográfico dessa periferia não se afaste muito do que ocorre no presente. A globalização tem ainda boas décadas à sua frente para implementar o seu programa, principalmente à custa do potencial africano para explorar.

O desaparecimento da classe média vai enterrar a democracia representativa porque o enfado, o afastamento, a náusea que os representantes desencadeiam na nova ralé em gestação só pode ser resolvida por uma TINA autoritária. A TINA é a contrapartida da globalização. Platão, no meio de alguns erros, acabará por acertar, Churchill estava profundamente errado, a democracia não é o menos mau de todos os regimes, a democracia é o mais inexequível de todos. A democracia representativa resolve o seu oxímoro assumindo como melhor devir a democracia cacânica.

Mas não há historicismo e tudo o que especulamos pode ser grotescamente falso. Pode reaparecer um número suficiente de cidadãos que sabem que não há maior bem que a independência e a liberdade, que são valores desprovidos de potencial de troca, quem o faz muda-se de forma nuclear, transforma-se noutro – a troca pressupõe a manutenção da identidade.

Sem correr grande riso de se enganar, Sextus vê que esse caminho pode ser percorrido com algumas bengalas, ou melhor, recuperando Aron, nesse mar desfavorável agitado por ventos cruzados há alguns rochedos seguros a que nos podemos acolher, os maiores são aqueles que estão ditos acima. Nesse caminho, onde tem de haver menos farinha para atirar pão ás massas, o poder tem de mudar de mãos, as paredes que permitiram a civilização humana terão que ser reerguidas.

Para começar, uma revolução nos impostos: extinção de todos os impostos singulares e a instituição de algo parecido com o que sempre houve, uma nova dízima pessoal. Extinção de todos os subsídios, pessoais e às empresas, particularmente estas que através deles construíram o poder desregulado – abandonar a grande mentira do estado regulador, o único que é viável é o mercado a funcionar correctamente ou o melhor possível. Abandonar o projecto ruinoso dos conglomerados de países, que acabam por ser anulados por tratados viciados – o que envergonhadamente se constrói entre a CE e os USA e que todos os perigosos capatazes mais despudorados subscrevem. Reerguer as fronteiras que nunca deixaram de permitir um nível razoável de trocas. Afastar de vez o filho do comunismo derrotado, o neoliberalismo farsante que não passa de um capitalismo siciliano e que parece querer confirmar o ditado marxista de que o capitalismo abandonado a ele próprio destrói tudo, terminando por ele mesmo.

A tarefa é de monta, a única coisa que a torna possível é que aquilo que nos estão a servir não é sustentável, mas várias civilizações se destruíram e esta não está vacinada, ninguém aprende com a história, ainda bem, mas seria bom se aprendêssemos com a mitologia.

PPC vai passar o testemunho quase igual ao que o encontrou, mas um bocadinho mais perto da parede e com menos incrustações embelezantes.

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As crises ocultam umas das outras ou mas de que é que eles estão a falar

Muitos malefícios se têm atribuído à crise sócio-económico-financeira ainda que no seu início, alguns, particularmente aqueles da área da gestão, tenham lembrado a equivalência entre crise e oportunidade. De facto, desta vez tinham razão – é muito difícil estar errado o tempo todo- embora de modo a não ficarmos estupefactos, só parcialmente. Mas foi precisamente a transfiguração da crise em oportunidade para alguns sectores que acabou por gerar novas crises, sendo que este desenvolvimento nada inabitual acabou por aprofundar a percepção de crise.
Podemos dizer que registamos várias crises, a crise da representação, a crise da linguagem, a crise da complexidade e a crise da auto-referenciação – quem quiser é livre de adicionar mais algumas que também giram perto do núcleo.

A crise da representação tem vindo a agravar-se nas últimas décadas. Pode-se dizer-se que esta variante actual é enteada do voto universal, apenas foi algo obliterada nos anos duros mas sempre jovens dos pós-guerras. A falência da representação é verificada desde tempos muito antigos, Platão já falava dela mas foram os romanos da república que a lidaram de frente, usando e abusando dos contra-poderes para atenuar a sempre eminente derrocada da representação, leiam-se as muito interessantes páginas de Maquiavel sobre os discursos da década de Tito Lívio. Depois do afastamento do divino da origem do poder, da frustada tentativa de Hobbes de substituir o sagrado pelo individualismo radical que só poderia sonhar sobreviver após auto-amputação quase total, uma contradição insanável, o poder moderno quis vestir-se com a racionalidade misturada com doses variadas de emoção transportando sangue, crenças não religiosas e derivados. A globalização, ao afastar o racionalismo – não há razão ou julgamento no meta-estado actual do consenso unânime com a eleição a negar o acto da escolha e a a transfigurar-se na tabulção de afectos – e ao diluir ao máximo o sangue e a nacionalidade atirou a representação para o seu devir prometido, o mundo do cerimonial.
A incongruência nasce da pretensão da globalização em protagonizar um determinismo histórico que nunca poderia ser satisfeito seguindo apenas as leis da produção.

A cerimónia que vai, pelo menos nalgumas aparências, variando, obedece à ambição de satisfazer o máximo de gostos, sob a novimáxima, agito (me), logo existo, é no fundo muito, demasiado monótona, com os celebrantes máximos a repetirem-se ad nauseum, rodopiando por entre as várias capelas, proferindo imparáveis elogios mútuos. Ao fim de algum tempo de assistirmos a estes cerimoniais, já nem é bem pelos efeitos da novilíngua e do duplipensar que nos anulamos, verdadeiramente nem sabemos do que é que eles estão a palrar – relatórios de comissões e comités que analisam completamente ao lado, que elaboram projecções sobre o vazio mais ou menos completos, que falham contas impossíveis de falhar, que comentam reajustamentos e reformas cuja verdadeira agenda não pode ser divulgada. Esta crise da representação veio para ficar e aprofundar-se porque corre em paralelo com a crise da auto-referenciação.

A crise da linguagem é filha da crise da complexidade. Não é fácil a criação do vocabulário e as palavras têm vida e contexto. A crise da linguagem tomou duas formas extremas, seja já há não há nada para dizer, seja tudo ficou por dizer. A linguagem tem cada vez mais dificuldade em significar alguns dos novos significantes ao mesmo tempo que sofre o ataque letal da novilíngua. A linguagem que seria suposto ser um meio para comunicar transformou-se num meio para esquecer e para paralisar. A babilónia interlinguística chegou à fase da babilónia intra-língua.

A crise da complexidade tornou o complexo ininteligível. Paradoxalmente, em superfície, o mundo complexo está cada vez mais simples por desistência, por racionalidade finita e esta hipercomplexidade tornou o pensamento ao mesmo tempo livre e prisioneiro dessa liberdade. A complexidade parece mostrar que o erro é o resistente alicerce do progresso do pensamento e vida do homem, a complexidade está a gerar a indiferença pós-moderna num primeiro tempo logo seguido pela queda na irrelevância e o vazio pós-pós-moderno. A complexidade regrediu até ao algoritmo infantil, a complexidade assassinou a responsabilidade, logo a complexidade matou a liberdade.

Estas duas crises, a da linguagem e a da complexidade culminam na crise da auto-referenciação. Montaigne afirmou lucidamente que as verdades repousam na maior parte das vezes nos costumes e a priori locais e não numa dialéctica que Hegel tão brilhantemente elaborou. A auto-referenciação repousa por definição no conhecimento experimental em contra-posição com o saber algorítmico, logo não se estranha que a auto-referenciação esteja a ser desprezada e não tolerada como resquício do homem pré-grego, melhor pré-aristotélico. A auto-referenciação é, entre muitas outras coisas, aquilo que permite preencher o ser com a liberdade no meio da comunidade. Sem auto-referenciação a liberdade individual desvanece-se perante a certeza do pensamento algorítmico, algo parecido com o neo-liberalismo do presente que se pode dizer ser um pós-comunismo que não chegou sequer a nascer. A negação da auto-referenciação quer eliminar o cepticismo, é o Leviatã ressuscitado, quer transformar a segunda opinião na única escolha aceitável porque só essa pode ser sujeita à manipulação.

A crise da auto-referenciação desagua na crise dos representados que se vêem despidos dos padrões para enquadrar os representantes. Passou tudo a ser novamente aceite, tudo é justificável uma vez que esteja contido pelo “main stream” – tudo se pode fazer na corrente que tudo dilui, a margem está proibida porque é o lugar da diferença. Encerra-se de forma lenta a abóbada: os fiéis estão desorientados, os celebrantes ignoram o breviário, o coro de gongórico só tem o nome, ensurdecido pela enésima fuga de Bach. Para contra-balançar ou como arcobotante da periclitante abóboda, à porta vende-se pão e doçaria e ainda resta algum dinheirito para o vinho sempre doce. Não chega a ser decadente, já não há consciência para tanto, o processo quasi demencial é radicalmente cacânico. Até ao suportável que ainda está longe.

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Sextus avalia o governo de PPC ou quando se pede a confirmação da diabetes a uma radiografia

Não se pode esperar algo daquilo que, por definição, não o pode fornecer. Na medicina, este sábio princípio é de grande utilidade para prevenir as falsas expectativas enquanto se aguardam os resultados de testes auxiliares de diagnóstico – um teste sanguíneo dá uma resposta diferente da que uma ecografia providencia.

De um governo – e é pena que desde sempre os médicos se tenham afastado da governação, cronicamente dominada por homens das leis – é preciso estar consciente do que se pode esperar.

A equipa de PPC já está em funções há quase quarenta meses, só lhe resta doze se não houver antecipação de eleições. O resultado final já pode portanto ser entrevisto, embora este possa ser moderadamente afectado pelas sequelas do caso BES.

Resumindo, conforme as expectativas o programa da troika foi satisfeito numa parte, o suficiente. Como de costume, a emigração desempenhou o papel estruturante da adaptação e uma fracção significativa do sector privado fez um esforço meritório e parcialmente recompensado na conquista de novos mercados e na mudança de posição naqueles em que já penetrava. Pode-se dizer, o que é que isto tem a ver com o governo, mas tem-no indirectamente.

As consequências mais estritamente derivadas das acções da equipa de PPC exerceram-se em três tabuleiros, na correcção da atribuição de subsídios, na modulação dos alvos da tributação e nas privatizações.

Há que reconhecer que o mundo dos subsídios ainda não está estabilizado, o novo quadro de “apoio” europeu vai voltar a fazer girar a roda da distribuição enquanto que no intervalo, os outros subsídios às empresas amigas continuarão assegurados. Aqueles que são alocados aos estratos do lúmpen pouco podem ser alterados, veja-se o valor real ajustado do salário mínimo que praticamente não se mexeu nos últimos quarenta anos, roçando a subsistência degradada.

Estes dinheiros europeus, em combinação com as receitas tributárias, vão servir para comprar um pouco mais de tempo e aliviar a pressão migratória, sendo o efeito combinado final difícil de antecipar – a emigração pode levar a um agrvamento irreversível da situação porque não se acompanha das remessas de capital que eram usuais no passado.

A modulação da tributação seguiu os moldes habituais. A crença auto alimentada de que os impostos subiram até ao tecto máximo não é partilhada por quem interessa, os nossos credores que por várias vezes claramente opinaram o contrário.

A reforma fiscal nunca será feita por nenhum governo com a excepção daqueles saídos de uma revolução, sendo que o fisco isenta quem está no poder e obriga quem dele está afastado e não se antevê que o capitalismo financeiro seja removido do poder nos próximos cinquenta anos, pelo menos. O modus operandi de qualquer governo mundial é igual ao de PPC no que respeita a tributação, o resultado é que varia conforme a riqueza de cada país. Nos centrais, no império americano, no império embrionário chinês e no núcleo europeu, o que resta à classe média ainda é suficiente para preservar o padrão de vida e de posição relativa que se imaginou ser característica desta classe. Para os países pobres, as ex-colónias, os quintais do império americano e do império embrionário, a periferia europeia, o novo estauto associado ás suas classes médias pouco permanecerá acima da indigência. a única mudança significativa implicaria a alteração da frase”no taxation no representation” para se há isenção não há representação, algo do mundo da anti-matéria.

Esta imensa e nova ralé, a nova face das classes médias da periferia (seguindo a terminologia adaptada de Arendt) terá que ser anestesiada, algo que está a ser feito de modo muito eficaz pelos meios ditos de comunicação – parece que num livro recente, o pró-filósofo A Botton actualiza o pensamento seminal de Tocquevile e o cepticismo de Spengler sobre a imprensa que se alguma vez foi livre não passou de uma nota de rodapé da sua história, tendo regressado ao seu estado natural, seres monstruosos que faleceram depois de algumas décadas penosas de exibição nos circos das excentricidades ou a segunda morte dos bobos da corte.

Há uma actividade do governo de PPC que é mais inovadora e disruptiva, a privatização de várias empresas importantes que acabaram por caír em mãos estrangeiras, ou seja, está quase a fechar-se o círculo, onde a falência do BES constitui outro sinal deste extertor.

É sabido que as elites financeiras são predominantemente avessas aos nacionalismos, com a excepção das próprias aos impérios. Muita gente acha isto muito bem, sinal de um avanço civilizacional dessas elites mais esclarecidas. Sextus acha péssimo porque contém genes de suicídio. A extinção do nacionalismo tem muitos efeitos para além do óbvio central e por vezes, são estas externalidades que predominam no achado do resultado final. Acabar com as nações ser bom ou mau é difícil de afirmar para muitos, se as nações são naturais ou não é também um longo debate de dois séculos – a paz perpétua de Kant foi contaminada pelo positivismo de Comte e resultou numa sopa intragável e venenosa – interessante se profundo e que leva a várias sínteses diferentes, sendo que as melhores devem obedecer à grande premissa de Lord Acton. Mas um dos efeitos laterais do fim das nações será o afastamento cada vez maior entre causas e efeitos, a condição imprescindível para a liberdade. Esta é uma deriva imprevista por muitos do capitalismo tardio e que lhe põe um problema de solução impossível: o capitalismo deve ter como base a propriedade privada – logo posse e responsabilidade – e o risco, novamente responsabilidade. O cindir entre causa e efeito remete o risco para além das colunas de Hércules, para o abismo profundo onde tudo se perde e nada se encontra.

A remoção das grandes empresas da posse nacional altera a natureza dos governos do futuro, os capatazes ficam demasiado longe do senhor do castelo. Aquilo que Sextus antevê são governos zombie ou fantoches, tributadores para a sobrevivência dos capatazes e a acalmia da ralé, obedecendo a ordens de origem misteriosa e não imputável, ininteligíveis, vindas de em centro perdido no nevoeiro das montanhas – o castelo kafkiano. Não haverá mais razões a substanciar a presença desses governos de capatazes que até poderão ter morto os donos do castelo.

A discussão em surdina sobre a parceria comercial trans-atlântica, já sob a barreira de pesada manipulação – se se fechar o acordo, afirma-se que cada família europeia ganhará cerca de 500 euros anuais e cada americana cerca de 600 – tão grosseira que espanta como pode resultar, será o novo e gigantesco passo para o mergulho no magma amorfo e abrasador onde quase todos se diluirão, para acertar a evolução de governos zombie de uma população de fantasmas.

Pretender mais do governo de PPC é esperar que uma radiografia confirma que alguém é diabético. O problema de PPC não será ter morto o dono do castelo, será o dono tê-lo abandonado. Haverá cerveja que chegue?

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As antigas virtudes desaparecidas por não haver terreno para o seu exercício, ou Burke e Passos, a mesma luta, o mesmo engano

Diziam os gregos que os mortos vagueavam sem cessar no Hades e emitiam de forma constante uns ruídos ininteligíveis que acabavam por se tornarem francamente perturbadores. Porventura,  a fase actual do nosso declínio seja, de certa forma, uma revisita desse sub-mundo antigo.

Se o racionalismo cartesiano afirmava provar a sua existência porque produzia pensamento o mundo do presente (o presente existe?) faz testemunho pela sua agitação browniana.

Se os antigos vivos discursavam, contavam e viviam histórias agora, abusam da inventada novilíngua que cumpre o seu devir quando atinge o ruído desdiferenciado e perturbador. O excesso do recurso à novilíngua está a chegar à fase da anulação do duplipensar – o duplipensar exige o uso intermitente da língua e da novilíngua.

Também dos gregos vem a definição das principais virtudes: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança mas a decadência do ocidente do presente torna impossível o seu exercício, logo a avaliação se alguém está ou não delas dotado.

Um dos obstáculos mais notório deriva do individualismo extremado. Como se pode inferir facilmente as virtudes não se podem verificar fora da sociedade. a definição de liberdade pelo individualismo é redutora, notoriamente aquém da completude da definição por Arendt, a liberdade apenas se pode inscrever na relação entre os indíviduos, a primeira é exclusiva e subtractiva, a última desenha-se por inclusão e adição.

Durante esta semana, muita gente notória emitiu sons, palavras que pos si só podem ser compreendidas mas quando incluídas no tempo deixam de o ser – a actual crise só vive verdadeiramente fora do tempo.

PPC parece não perceber que muito do que irá ser pesado obedecerá a duas virtudes, a prudência e a justiça. O “discurso” produzido por PPC e a sua ministra das finanças sobre a falência do BES  anuncia que depois de alguns pouco meses, não iremos identificar nenhuma das virtudes na resolução desta falência.  Mais ainda, PPC num afã inábil de aparecer à frente dos microfones emite opiniões desastrosas sobre o penoso trajecto que a PT está calcorrear. Também isto irá ser pesado, não por ser directamente responsável, que não o foi, mas pela ameaçadora dúvida na opinião pública (será que ainda existe?) sobre a sabedoria e razoabilidade das vendas de algumas empresas públicas, principalmente pelo falhanço em reduzir a dívida pública – a dúvida sobre a prudência de um governante costuma ser letal.

Ontem, a Sra Lagarde, a grande gaffeur internacional, compartilhou connosco o seu receio da CE reentrar em recessão. Os números da indústria alemã parecem descobrir o regresso do “homem doente” da Europa após uma remissão de escassos anos, ainda por cima após uma magnífica reforma estrutural entretanto copiada por alguns parceiros europeus.

Um pouco antes, tínhamos visto a entrevista de três antigos ministros da saúde e do actual titular. Tudo se poderá resumir à resposta que o incumbente deu à ultima pergunta, são cerca de cem segundos de jargão da gestão, verdadeiramente essa coisa cheia de nada mas de que tudo se apropria.

Torna-se difícil adiantar hipóteses explicativas deste declínio tão profundo da prudência. No passado, quando esta virtude se via escassa o cerimonial elaborado do poder, só possível pelo distanciamento e parcimónia com que se exibia disfarçava essa escassez. No presente, em que agito-me, logo existo, o poder aproximou-se dos representados. A atribuição do voto universal talvez pudesse sobreviver sem graves prejuízos se houvesse uma imprensa livre, mas se alguma vez ela existiu, desapareceu em combate. A imprensa assumiu cada vez mais o seu papel tradicional, um meio do poder para condicionamento dos representados.

Alguns virão dizer que a sabedoria das multidões desmente os nossos receios, pensamento ingénuo, a sabedoria é outorgada pelo poder. Quase todos concordarão que a primeira condição para lidar com um problema é a sua identificação e caracterização o melhor que for possível. Neste momento, a imprensa consegue lançar uma cortina de nevoeiro tão espesso que nem as formas conseguimos adivinhar.

O efeito produzido por estas condições de terrorismo comunicacional tem levado a um severo recuo do grau de intervenção do cidadão, muito aquém dos mágicos tempos de Atenas ou dos vigorosos dias da formação da burguesia comercial europeia. A deriva neoliberal, balizada de forma paradigmática pela frase de Tatcher (espúria?) “there is no such thing as society” acrediat que o imutável é o indivíduo e o contingente a sociedade. um dos paradoxos dos neoconservadores/neoliberais, a revolução social através da sua negação. Meu caro Burke, o seu conterrâneo nem saberia o que era um castelo para nele se refugiar se não estivesse aos ombros de séculos de sedimentação da matriz inglesa.

O problema fatal de PPC pode ser a descrença na sociedade portuguesa derivada da sua escassa prudência, diminutas fortaleza e temperança e atrofiada justiça.

As virtudes antigas evaporam-se no falar pré-morte do ocidente infantilizado / envelhecido. Só o que restar do nacionalismo poderá resgatá-lo deste atoleiro. A última ameaça, fatal se for desenvolvida até ao fim, será o acordo da parceria europa-américa que ameaça levar-nos de volta até ao caos inicial, antes de novo banho de sangue – quando Cronos castrou o pai e a história se iniciou.

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Antígona morreu, a impotência é a sobrevivência, ou como renascer sem nunca morrer

Do tempo em que os homens falavam ficaram algumas obras que quase chegaram a delimitar a vida sem que lhes escapasse o paradoxo, a contradição, a inevitabilidade. Essas histórias contribuíram  para o entesouramento da oralidade e da escrita.  Dito isto, como regra, tudo o que cresce tende a dividir-se e tudo o que é múltiplo pode perder-se por sobrecarga. A maldição da babilónia linguística já tinha chegado antes da infância mágica criadora do mundo helénico, anunciada por Aristófanes, entre muitos outros, na sua descrição dos sofistas. Avançou até aos estádios mais refinados e cristalizados, até ao paradigma da novilíngua.

O papel constituinte e conformador da linguagem no pensamento tem sido debatido em profundidade e variedade e não será pois surpreendente que a novilíngua gerasse o duplipensar, tão inovador como o seu antecessor – parceiro. Chegamos a um ponto em que somos encurralados sem saber do que é que eles estão a falar ou a planear. Vivemos num mundo paralelo, melhor, estamos nele suspensos.

Este duplipensar, ilimitado no seu desdobramento, irreprimível por qualquer padrão atingiu o seu máximo corolário, o escape do tempo. Este casamento da novilíngua com a purga do tempo torna a história impossível, de certo modo, ou então, transfigurou-se num historicismo circular – o dito historiador nipo-americano confundiu o fim com o incansável recomeço.

Um dos paradoxos do presente entronca nesta mancebia entre a TINA e este historicismo circular, círculo vazio de conteúdo, preenchido bastardamente pelo poder incumbente, avançadamente desvitalizado. De facto, a suspensão do tempo veio perturbar o mundo financeiro que não acautelou a sua sobrevivência da teia totalitária que tão pacientemente teceu e que ameaça agrilhoá-lo. O par essencial das finanças é o tempo – tempo é dinheiro, já diziam – e este divórcio, melhor esta viuvez, apenas pode prometer o prolongamento, por inércia, de mais algumas volteios mas já desprovidos do feitiço dos olhos nos olhos.

Nos níveis mais inferiores e intermédios esta ameaça de estasis – segundo o sr. draghi e tutti quanti, a deflação –  tem sido superada com bastante desembaraço e despudor, no fundo qualidades constitutivas de qualquer poder. Este subdivide-se, multiplica-se e depois recolhe como uma mola. Adicionada a destemporalização, amalgamando o passado com o futuro em ordenamentos alternados para tentar construir um presente que verdadeiramente sempre renega.

No exemplo lusitano há ainda outros ingredientes, de natureza radical cacânica – falta criar o partido radical cacãnico para reunir a maioria por aclamação –   a projecção para fora da origem das coisas, do motor de qualquer movimento. É do exterior, do outro, que virão os fundos e os motivos, é do exterior que virão as ordens que nos guiarão no caminho do endividamento imparável, é do exterior que herdamos a inacção, é pelo exterior que alcançamos a impotência.

É no exterior que conseguem a ligação aos blocos que tanto acarinham, garantia do emparedamento para onde queremos fugir, para nos aquietar. Em qualquer ministério isto é aparente mas a visibilidade é mais fácil nos casos da economia e da saúde.

A impotência certificada por Bilhim garante a sobrevivência. A imprensa enroupa as notícias, traduz para a novilíngua a desorientação percepcionada, alimentada pelo duplipensar.

Vivemos e estamos em lado nenhum, fora do tempo, sem passado. Conseguimos renascer sem nunca crescer, sem nunca morrer.

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E agora, algo completamente diferente, a arte de atirar ao lado, o sumo objectivo da representação e da regulação

A infantilização/cacanização do ocidente continua florescente neste jardim à beira-mar plantado. Muito provavelmente este processo já ultrapassou as barreiras do ocidente classicamente entendido mas o oriente é de estudo difícil e mais trabalhosa apreensão.

Característica da infantilização é a razoável incapacidade para a memória, logo a impossibilidade da responsabilização e a consequente atrofia profunda da autonomia – as crianças e os muito velhos não conseguem sobreviver sozinhos.

Num grupo de crianças há sempre alguns mais atrevidos, mais inclinados à ruptura, capazes, pelo menos de modo superficial, de erigir modelos e sistemas acompanhados das inevitáveis regras constituintes e configurantes. Mas como são crianças, logo desconhecedoras e muito empobrecidas em ética e moral, constroem uma história sob a definição de Voltaire. é uma mentira sobre a qual chegamos a acordo.

É possível às crianças crescerem até adultos e nos tempos modernos o processo pode sofrer influências consideráveis. Sextus acolhe com prazer o desenvolvimento da epigenética, mais um triunfo à custa do determinismo (nas ciências sociais, o historicismo, numa associação longa). Não basta escrevermos uma carta, há carência em abri-la. Neste magníficos tempos -enfim, não há verdadeiramente tempo na Cacânia- a abertura e a leitura são controladas através da barreira da divulgação (o que não aparece nos meios de comunicação, particularmente a tv, não existe) e do dicionário da novilíngua.

Como ultrapassar este estado de coisas? A pergunta não está bem posta, na história humana não há ultrapassagens, há acreções, uma que resultam e se agregam longamente e outras que se desmoronam com mais ou menos brevidade. Aquela que exibe movimentos de ruína á frente dos nossos olhos e que tal reconhecem é a representação, melhor, a representação da representação levada ad nauseum.

Esta derivação submete-se a uma lógica interna, que parece comportar-se seguindo os modelos do historicismo, mas que revela por debaixo dos seus finos véus, uma procura activa da sua existência e alimentação permitindo a captura do estado por pequenos grupos, como sempre tem ocorrido na história humana – a representação da representação foi a válvula de segurança à universalidade do voto. Mas em regra, há sempre algo de novo a acompanhar um pesado e gigantesco velho processo, neste caso a dimensão do estado – o velho Hegel, o sumo sacerdote do estado máximo, tinha muita razão, a quantidade transforma-se e ganha nova qualidade.

Nos discursos novilinguísticos e classificados por alguns de neo-liberais, clama-se por menos estado e melhor, a já bastante gasta frase da devolução à sociedade civil. A praxis tem mostrado uma outra face, o momento é sempre classificado de inapropriado para baixar a dimensão do estado e o seu alargamento via impostos, taxas e outros mecanismos ainda mais engenhosos. De tal forma isto é que a despesa do estado não pára de aumentar. Esta semana tivemos dois exemplos na montra, um mesmo na frente e que arranjou alguns problemas a PPC ao ter laborado para uma das muitas empresas completamente inúteis para além da  partilha do bolo dos impostos e subsídios, e outro, mais extraordinário e farol do futuro, na proposta do nosso homem do ambiente em passar a pagar uma pequena parte do salário em bilhetes de transportes públicos para os portugueses melhor respirarem. O estado esteve presente e quer ainda ser mais intrusivo no futuro.

A representação da representação tem como paradigma os mega estados, na configuração de federações. Na cacânia-europa temos uma figura ainda mais útil por indefinida, extraodinariamente resiliente seguindo o vocabulário da trupe dos gestores. A CE é quasi o sistema perfeito, cheia de regras e controladores / reguladores mas com o grau de aleatoriedade suficiente para lhe conferir robustez.

Nem sequer se pode dizer que a qualidade da representação nos tempos presentes é inferior à do passado. O que é diferente é a quantidade que os representantes querem capturar e a segurança extrema de que se querem rodear tornando-os eternos na máquina do poder. Os casos da Sra Clinton, do sr. Sarkozy tornam-se claros representantes desta forma refinada de segurança e perpetuação. No meio da ingovernabilidade e da TINA, as personalidades tornam-se imprescindíveis, notável pelo seu paradoxo, quando quase nada parece possível e o guião está escrito, a troca do actor torna-se inexequível. – ou já agora, num nível muito mais caseiro, o incomparável sistema Bilhim.

A tensão entre a inutilidade e a perpetuação da representação é que surge aos olhos de Sextus como irresolúvel a médio prazo.

O regresso à vida adulta já não é possível nesta configuração. A saída de um estado grande para mergulhar numa federação dotada de poderes é inútil e será várias vezes repudiada -Escócia e a curto prazo Catalunha. A vida adulta será reiniciada depois de aceitarmos que a representação deve ser o menor possível, não há, não houve nem haverá razões para nela confiar. A regulação é inútil e perigosa por induzir segurança que não existe, a segurança advém das cinco qualidades nucleares enunciadas no mundo antigo.

A vida é uma luta, a segurança adquire-se na experiência dessa luta e da contenção da mesma. A anulação da luta, o desiderato do Leviatã, não produz uma sociedade, quando muito um jardim infantil.

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O regresso das aulas, vamos para o recreio

A crónica instabilidade política que grassa em vastas partes do mundo, particularmente no continente africano e nas zonas de fronteira euro-asiáticas tem sido lida como um sintoma de estados falhados. A soberba ocidental tem obliterado a visão da falência que se vivencia deste lado. A CE tem vindo a tornar-se na  mais vasta área de estados igualmente falhados.

As razões subjacentes a este colapso são diferentes conforme as regiões e os povos envolvidos mas um padrão pode ser entrevisto, sempre que a intervenção americana se torna mais presente este colapso estatal surge com razoável regularidade. No caso do Iraque o afundamento de estado atribui-se a uma improvada incompetência americana em contribuir para a reconstrução após uma guerra destrutiva do tecido social. Esta aparente inabilidade é na realidade um engano, a falência foi pretendida e procurada, talvez não por todos – há sempre lutas e desacordos na planificação pós-destruição. Alguns poderão ter receado custos exagerados da instauração e perpetuação do colapso mas estes custos reais são imputados a todos enquanto que os lucros, que os há, serão a propriedade de alguns. Para o império é melhor lidar com um grau moderado de caos do que com um interlocutor derrotado mas reorganizado. Talvez que o estado islâmico tenha atingido um custo exorbitante por interferir com os lucros da máquina de guerra e do pós-guerra, mas até ao advento do embrião de uma estrutura fanatizada islâmica o grau moderado de caos foi bem tolerado e só por politicamente inaceitável para as massas amorfas ocidentais não foi mais publicamente aceite. Por definição, o caos moderado e não organizado foi sempre o destino procurado para as fronteiras do império.

No caso da CE a interpretação deve incluir o componente interno. A segunda guerra foi suficientemente traumatizante e enfraquecedora para os sobreviventes se olharem como incapazes da sua regulação. Foi fácil incrustar no espírito dos derrotados, todos incluindo os britânicos, a carência de um poder exterior normativo acompanhado pela colocação no que restava da representação do poder dos estados europeus de elementos que já não queriam governar os seus mas apenas constituir o primeiro elo da cadeia de transmissão de ordens. Os mais renitentes, os países ibéricos que não transportavam os sintomas e sinais de culpa do desastre, resistiram parcialmente, com a recusa inicial da NATO pela Espanha e a cultura de último guardião dos valores ocidentais pelo Estado Novo. Deste modo, a criação da CE nunca foi uma tentativa de criação de um bloco compensador do monopolista poder americano, apara além do pio desejo de evitar guerras subsequentes mas sim uma tentativa, até agora frutífera, de facilitar a transmissão de ordens por redução do número de interlocutores com os quais é necessário negociar, ao mesmo tempo que se enfraquecia a noção de estados independentes. Apenas o euro foi receado pelo potencial de interromper o privilégio inaceitável do dólar, como Giscard referia, receio temperado pelo seu defeito original que atenuava o seu perigo. Para funcionar, o euro teria que levar a uma maior integração e à substituição da política pela mera gestão financeira, uma troca vantajosa para o império.

O referendo que os homens de saias vão levar a efeito amanhã, só poderá terminar pela vitória dos que recusam a independência. Não há trocas de argumentos mas sim o erigir de emoções quase todas derivadas de medo extraído da complexidade da convivência do ser no meio do mundo, o ser com a sua intransmissibilidade mas imerso na corrente da humanidade que tudo leva rio abaixo. O ser que sabe que existe porque se vê ao espelho que lhe devolve já Outro.

Os estados europeus seguem o curso para estados falhados. Os que superficialmente por ele lutam apoiam-se no medo e na sua filha TINA. Os actuais homens de saias vão dizer não ansiando pela contínua violação de que não podem queixar-se às autoridades, a sua complacência foi evidente.

Não regressamos ao trabalho, tal como as crianças mais jovens mas estouvadas que não querem aprender, fomos directos para o recreio esperando que a campainha nunca toque.

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Das abelhas zangadas à invisibilidade da culpa ou como Mandeville e Tocqueville tornam Adam Smith dispensável e iluminam o erro de Passos e Pacheco

Adam Smith é consensualmente descrito como um recatado, estudioso e recto homem, escocês celibatário e na opinião de Sextus, um optimista. Lamentava a lentidão do desenvolvimento da riqueza das nações a que atribuia múltiplas causas mas de que relevava a qualidade dos homens, particularmente a sua entrega ao trabalho e a capacidade de administrar e organizar. Smith tinha como certo e seguro que bastava o preenchimento de três condições para que uma sociedade que não fosse notoriamente desfavorecida pela natureza pudesse acelerar o desenvolvimento da sua riqueza e bem-estar, a tríade da paz, impostos baixos e uma administração da justiça razoável.

Smith desenvolveu teses anteriores de outros autores de uma forma muito demonstrativa, logo mais eficaz e duradouro. Uma das mais conhecidas é na realidade um empréstimo do conceito “vícios privados, públicas virtudes”, ilustrada pela conhecida frase de Smith que não devemos o nosso jantar à bondade do padeiro, do talhante e do cervejeiro mas à satisfação dos seus interesses individuais. Este conceito, emprestado e clarificado pelo escocês, é talvez o mais fracturante mas constitui um indicador indirecto do pouco rigor da “dismal science” inaugurada por Smith já que a autoria está manifestamente mal atribuída.

Mandeville e a sua extraordinária fábula das abelhas zangadas, escrita cinquenta anos antes, foi leitura de Smith. Esta narrativa também deve ter despertado em Smith a noçao que o braço indispensável para a sua mão invisível era a justiça. Aqui o optimismo do nosso homem fica bem realçado, as expectativas de Smith – diga-se as expectativas afirmadas, mas que Smith também assinalava como longe de estarem realizadas – elevavam-se estratosfericamente em comparação com o voo rasante e rasteiro da justiça de Swift, seu compatriota e quase contemporâneo, que a via desprovida das quantidades desejáveis de prudência, de razoabilidade, de proporcionalidade e equidade. Nos tempos presentes, Smith teria reflectido sobre a qualidade de outra variante da justiça, a regulação e Sextus receia, talvez injustamente, que Smith tivesse novamente dificuldade em acordar que a administração das várias formas de regulação evidenciam o seu carácter aleatório, abstracto, desligado da realidade operativa e do seu desenho inicial. Talvez então Smith reconhecesse que os nossos pios desejos não se podem confundir com a realidade que é vivida a branco -o resultado de todas as cores-, a vermelho quente e animal, a frio preto. faltou ao carácter religioso de Smith aceitar plenamente que a liberdade e a concorrência são o resultado de disputas vivas cujo resultado regulam a disposição das forças e as estabilizam por um intervalo de tempo mais ou menos longo, as abelhas zangadas são produtivas porque estão aquém ou além da regulação e a qualidade da arbitragem é definida e limitada pelo dominante.

Independentemente da apreciação de Smith sobre a administração da justiça inglesa ser uma ingenuidade, um voto de um homem pio, ou outra manifestação de algo que desconhecemos, logo nas primeiras linhas da sua “Riqueza das Nações” é avançado outro conceito que sendo original e que viria a ser muito usado, contém ainda assim outra falácia de natureza também ingénua, o PIB anual, algo até então não conceptualizado ou trabalhado. Smith leva a novidade até ao extremo da perdição porque acaba por associar ao PIB anual de forma subliminar o perigoso conceito do eterno recomeço. Esta artificialidade de restringir o balanço ao ano, conscientemente excluindo os activos e passivos de entrada, levaram Smith a cometr erros de confusão entre o modelo abstracto que propunha e a realidade, confusões que o levou a tomar posturas contraditórias no seu diálogo com Hume compreensíveis porque Smith não se deixou obnubilar completamente pelo artfício que criou. O que Sextus quer dizer é que o PIB anual não reflecte de modo nenhum a riqueza da nação, é o conjunto dos PIB anuais que o determinam sendo necessário um recuo de muitos anos, por vezes séculos para o perceber. Isto torna-se óbvio se pensarmos que o factor predominante nessa riqueza é a qualidade do trabalho dessa nação, como Smith bastas vezes refere e essa qualidade tem raízes deitadas á terra há anos, séculos.

No absoluto, o mercado livre só existe fora do espaço e do tempo mas nem os mais exaltados entusiasmos dos modernos gestores os transportaria para o nível quântico. A probabilidade apoia-se solidamente nas certezas múltiplas e mutantes.

Noutro registo mas também que para aqui interessa, o teólogo Kuhn gosta de repetir que as normas à margem das situações concretas são vazias enquanto que as situações sem normas são cegas.

No caso da Lusitânea-cacãnea temos uma multiplicidade de falhanços ou obstáculos ao desenvolvimento da sua riqueza. Tirando a paz social, filha da emigração, constante ao longo da sua história, os impostos são altos e a vontade para os descer desapareceu se é que aquilo que nunca nasceu pode desvanecer e para muitos, a enorme maioria a levar em conta incontáveis inquéritos de opinião, a administração da justiça / regulação não é feita de forma razoável. A isto se pode juntar a apatia das abelhas após décadas numa colmeia democrática e de cristal, de tal modo que os seus vícios privados já não se sublimam em públicas virtudes. Na colmeia já não há zangas, pelo menos filhas da razão alterada, só se ouve resmungos tontos, sobrinhos da repetição senil.

Este pretenso viver democrático leva, tal como Tocqueville tinha antecipado – tal como John Adams tinha escrito – a uma profunda infantilização, procurada e desenvolvida por quem realmente controla ainda o poder, ao estadio da morte da culpa, consequência lógica da falência da administração da justiça. Passos e Pacheco, em trincheiras diferentes, estão errados, o que resta como sinal é o medo profundo e paralisante que torna possível a publicidade da recusa – taxas de aprovação dos políticos e dos juízes em torno dos 15 a 20% – e a famosa TINA. Diga-se em descarga da Lusitânea que esta cacanização é universal neste ocidente cansado, decadente, apenas sobressaltado pelos estragos dos ataques das raposas. Torna-se mesmo difícil identificar onde estão os resíduos de Pareto para além do carácter predatório do mundo financeiro que não pertencia ao quadro que ele desenhou.

Perante o PREC da exuberante involução demográfica, negação incontornável do modus operandi de capital apoiado na dívida e na especulação de melhores tempos que justifiquem esse contraír de dívida – é extraordinária a falácia que nos têm vendido do mistério da coabitação entre gargantuescos alívios quantitativos e inflação baixa e até deflação – a luta mais visível e interessante vai ser entre Lee e Tao, entre Singapura e a velha China do ditado “as montanhas são altas e o imperador está longe”. No intervalo, celebremos a baixa dos juros, os mercados na sua imensa sabedoria já reconheceram que ninguém lhe pode pagar mais.

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Onde Sextus regressado mostra o certo futuro certificado por auditoria e autorizado pelo regulador, o divino Janus

Já aqui se tem reconhecida a grande dificuldade em distinguir entre algo de novo a mover-se debaixo do sol do tudo como dantes, por outras palavras, a discriminação entre a miragem e a cegueira sempre mereceu ser premiada e muitas vezes erradamente a recebeu ou lhe foi negada. Também é verdade que o clamor da nudez do rei já não alarma ninguém porque a surdez resultante do barulho cacânico misturado com o duplidiscurso é praticamente completa. Mas, enfim, nada é absoluto e se não somos filhos do espírito santo somos da linhagem de Janus, o divino da dupla cara.

Os eventos que nos vão sendo desvelados sobre o defunto BES transportam vários sinais e sintomas, como diria um médico.

A regulação voltou a falhar em identificar a incompetência perigosa e isto é o primordial. Sextus prefere julgar a equipa de administradores do BES como essencialmente incompetentes e só em segundo tempo como incumpridores da lei. Salgado já tinha afirmado que o capitalismo era amoral porque apenas se preocupava com os resultados mas isto constitui, mais do que um aviso, uma frase infeliz. Quando um jogador se encontra numa posição vantajosa pretende jogar da forma mais aceitadora das regras que no fundo lhe consolidam a sua vantagem que só pode ser como tal classificada quando a leitura obedece a um cãnone. Uma vez adoptada uma postura de recusa das regras, a posição de vantagem pode ser subvertida de forma inesperada numa desvantagem – uma armadura será uma boa ideia para jogar uma justa mas será uma péssima ideia para entrar numa guerra de submarinos. Quando a incompetência começa a acumular perdas e desvantagens cada vez mais inultrapassáveis recorre-se à ocultação, ao disfarce, ao engano e à batota. A arte de Salgado terá sido conseguir ganhar um quinhão final nas últimas semanas. O maior sucesso do império tem sido em falaciosamente coincidir o livre mercado com a regulação que é controlada por ele.

A falência do papel regulador era uma garantia, o curioso tem sido a capacidade de vender a sua nulidade em todo o mundo. Desde o início que as várias regulações falharam em toda a parte e mesmo o sector que as admitia com mais boa vontade, os primeiros neoliberais do século XX, desconfiaram dela, G. Siegliz (não confundir com J.Stiegliz), um dos filhos de Friedman, aceitou que os reguladores acabam presa daqueles que seriam regulados. Aliás, a forma como Costa tem vindo a escolher revela até algum descuido, já sabe que não há meninos da rua e as autoridades mandaram fechar as janelas, coisa feita prontamente pelos jornalistas, a escolha da PWC para fazer auditorias ao defunto BES, participar na administração do Novo Banco e terminar na auditoria da PT mostra que o xerife controlou o saloon, o jogo pode continuar com as cartas já muito marcadas, coitadas, com escritos e furadas, mal se distingue um quatro do cinco, um oito de um nove e muitas vezes tem que ser o xerife a decidir qual a verdadeira face.

Também ficamos a saber que o escritório do regulador tem telefones, faxes e provavelmente correios electrónicos. Só ainda não descobrimos se Salgado foi mais esperto que os rapazitos da Goldman em Portugal ou se houve uma aliança entre os ditos e Salgado. O que sabemos é que o informado banco de investimentos entrou no aumento de capital do BES e saíu uma semana antes do super Mário ter cortado o crédito. Cá estão as duas caras, dirão outros, depois da dádiva da pipa de massa vinda da CE lá veio a contrapartida da fuga de um barril da mesma reclamada pelo BCE, a ser entregue três dias depois da reclamação, em frente á sede do dito, na estação de comboios de Francoforte, onde Constâncio estaria para a receber, feliz, ele que tanto gosta de ver os comboios a passar. Vai brevemente ter a concorrência de Costa, é melhor cada um especializar-se em diferentes máquinas de caminho de ferro. A governação do dinheiro é das coisas menos reguladas que possa haver, Platão bem o percebeu e tentou avançar com sugestões algo pueris.

Como se disse acima, todo este desfile se desenrola já sem a presença da criança delatora da nudez soberana, não porque as crianças estejam a ser sujeitas a rapto sistemàtico, mas porque as mulheres passaram a procriar com muita mais parcimónia. As da lusa cacânia são das mais contidas, desta vez acompanhadas das teutónicas, talvez para dar razão a um amigo de Sextus que identificou nos teutões o gosto pela austeridade. Por aqui se vê a quase futilidade da governação, sabedoria já dominada pela trupe dos gestores que disfarça este potente segredo pela agitação browniana, constante por definição e certeira por configuração. Os povos resolvem realmente o problema do desemprego o verdadeiro centro do problema, a dívida é a falta de capital para empregar pessoas e estas, na sua maioria, votam com os pés e abstêm-se. Sobram alguns jovens, provavelmente aqueles que são ensinados nas escolas de verão partidárias que votam e que logo e por força, não se abstêm.

Talvez seja facílimo prever o futuro da luso cacânea, a versão mais pobretana e mais deprimente da terra-mãe querida de Musil. Vamos servir peixe grelhado com algas e mostrar habilidades com cortiça, os nossos primos tolamente avançam com salsichas e choucroute mas dão música e pôe os cavalinhos á andar á roda e aos saltinhos, nós vamos encerrar o convívio com natinhas e eles desforram-se com a sachertorte e a apfelstrudell.

Para quê governantes, contratem mestres pasteleiros e ponham os reguladores a pesar a massa; os que sobrarem ponham-nos na ópera ou no coreto.

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A encruzilhada da globalização e dos blocos de influência!

Em tempos, já remotos, existiam vários blocos ou zonas de influência, a saber, EUA, China, Japão, Europa e países sob influência da USRR.
Após a II guerra Mundial os EUA começaram, através da sua maligna influência, e redistribuir a geoestratégia de influência com a abordagem e subjugação da Europa (através dos planos Marshall), já que, após o término da guerra, o Japão já estava sob a sua influência.
No momento presente, o que assistimos é a uma Europa subjugada aos interesses Americanos (com espionagem aos “ditos” aliados e com a Inglaterra a não destoar do seu papel), com a intromissão na área de influência da Rússia (através da abordagem de influência europeia na Ucrânia).
Resumindo o que os EUA pretendem é a existência de apenas 2 blocos: os EUA e os Chineses.
Espero ardentemente por uma de duas coisas: ou um conflito aberto na Ucrânia ou que o bloco Chinês, através da economia e da vantagem do seu número, escavaque os EUA e os reduza à sua dimensão.
Aliás, e para início de festa, seria para Portugal importante, assumir uma posição: já que vendemos a EDP e a REN aos chineses, que tal estabelecer um acordo com eles na base das Lages? Ou, para além desta proposta, obter uma aliança com Espanha, e estes correrem com os Ingleses de Gibraltar e “alugarem” as instalações aos chineses?
Neste tipo de propostas, aparentemente absurdo, revejo os países da Península Ibérica a revisiteram a sua tradição histórica, dando novos mundos ao Mundo!

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O século XVI revisitado nega o terceiro excluído ou de bem com os homens por amor a d’El Rei e de bem com El Rei por amor com os homens

A pró-comunicação do presente apoia-se no essencial no pilar emocional – o medo do desconhecido que parece poder assumir-se muito diferente do que é conhecido, uma probabilidade ínfima, diga-se desde já – e no pilar novilinguístico. Quando este par entra em dificuldades socorre-se sempre da multi-informação, antecãmara do desinteresse desorientado.

O pilar emocional apela-se sempre ao consenso, hipotético chegar do caminho até à descoberta da verdade verdadeira. A ciência, de preferência tecnológica constituiria o veículo mais seguro, logo a transformação das ciências do foro social em edifícios também erguidos sobre factos e regras científicas tem sido activamente perseguida.

A economia, uma das últimas ciências sociais a nascer, mais juvenilmente corre atrás desta configuração. Os chamados liberais, agora também apelidados de neoliberais, parecem acreditar que conseguem ler umas leis que mesmo não estando escritas em tábuas divinas seriam em contrapartida tão naturais como as leis da física. São os inconvenientes parceiros historicistas dos seus primos liberais na filosofia – seria curioso perceber a resposta de Popper á mistura daquilo com que concordava, a ausência do contexto, com aquilo que negava, o historicismo, mas talvez o encontrássemos junto de muitos outros dessa área na citada revisita do século XVI.

Sabemos bem que as leis não nos são dadas, somos nós que as construímos. Este processo elaborativo é sujeito provavelmente a regras que não percebemos na sua totalidade, por várias limitações, talvez a maior delas o vocabulário que fomos construindo. Este processo é de uma complexidade irredutível e permitiu uma variedade de resoluções absolutamente esmagadora, mais ainda suspeitando que centenas de línguas terão desaparecido sem deixar vestígio evidente.

A construção desse vocabulário influencia de forma variável o pensamento e está dotado de liberdades que não eram antecipáveis, a mais notória a ausência da atribuição do azul como cor frequente sob que aparece o mar nas histórias gregas, já bem perto do nosso tempo.

Sextus partilha com todos os outros pirrónicos o desgosto da limitação, para já parecendo cristalizada, do vocabulário sobre o pensamento, o exemplo paradigmático está no terceiro excluído.

É verdade que sistemas binários têm sido muito úteis no que se chama de progresso humano mas é paradoxal o seu sucesso debaixo da influência das probabilidades e da auto-referência, verdadeiro inimigo mortal do terceiro excluído, que acabou por falecer aos poucos em companhia da agonia do iluminismo.

As ciências sociais ficaram deste modo em suspensão, se praticadas por um pirrónico, ou avançaram atrevidamente empurradas pelo medo e pelo engano. Nunca como agora foram mais úteis, nunca como agora nada querem o que dizem, nunca como agora fogem da contradição proibida na novilíngua. As ciência sociais, reinventadas como tecnológicas, só poderiam misturar o medo e o engano com a magia da negação do terceiro excluído.

Para se alocar este texto aos dias de hoje, recusando o jovem pensamento dominante no século XVI, pense-se nas narrativas sobre o BES, a nóvel CE, o crecimento luso, a evolução demográfica e o desempenho de ministro da saúde – já não há contradições, tudo é permitido, mas como estamos acima do equador, sempre sob o medo e o engano, as duas muletas de quem ocupa os lugares sem nada querer ou saber fazer.

Oh Dr. Bilhim, que pena, estava a fazer um trabalho tão consistente de confirmar os incapazes, têm que os promover – ala que se faz tarde.

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O falso debate da falsa ciência como o ponto de chegada e de partida de um falso país ou quando se quer brincar todo o tempo

Nos últimos dias fomos avisados do lançamento de mais um documento salvífico para o país elaborado por um pequeno grupo de economistas de esquerda. Trata-se de mais um dos paradoxos numa sociedade de tal forma desajustada que só se vivencia no mundo das impossibilidades, de volta ao pensamento mágico. Tem sido quase uma constante, as melhores análises demonstrativas das causalidades da crise ocidental encontram-se junto dos pensadores de esquerda ou dos nacionalistas, as melhores propostas terapêuticas são avançadas pelas correntes liberais, mas estas ficam prejudicadas de modo fatal por ou um enquadramento falso ou uma contextualização mágica ao pretender que o tratamento de per si resolve a situação quando só pode aspirar a encontrar um ponto de reequilíbrio que autorize desenvolvimentos primordiais.
Como lateralidade reveladora e acusatória deste raciocínio liberal e globalisante, note-se nas recentes suspeitas de espionagem na pequena Alemanha feita por interesse norte-americano e o cavalgar chinês, na altura da visita de Merckel (a sétima nos últimos oito anos) afirmando que mais do que agente, também eles são vítimas do principal esquema de espionagem mundial montado pelo consórcio anglo-americano com a ajuda dos primos da Oceania, que perceberam bem que a globalisação que propõe é realmente uma nova sectorização do mundo, apenas desta vez em blocos mais alargados mas não menos diferentes – dito de outro modo, estes países ditos crentes na auto-regulação dos mercados acabam por revelar que a informação total não está contida nele como pretende a escola de Chicago, mas que o mercado, pelo contrário, repousa quase sempre na assimetria de informação.

Voltemos ao núcleo e ao manifesto anunciado. O pressuposto parte de dois princípios, um provavelmente verdadeiro, outro falso como facilmente se demonstra. O verdadeiro repousa na verificação do não pagamento da dívida nos termos em que está negociada, ou seja com os juros a determinar pelo mercado das dívidas soberanas e o pagamento em euros ou em dólares, conforme a última venda. Um amigo de Sextus chamou a atenção para o novilinguísmo de “venda de dívida”. Não se vende nada, negoceia-se sim a permissão de contraír mais dívida, o liberalismo do presente viciou-se na dívida – Sextus foi ontem a um banco e verificou maravilhado que a actividade bancária está novamente a regressar aos bons dias pré-2007, ao ler uma interessante proposta de financiamento para o IRS em doze parcelas de modo a que o nóvel devedor pudesse gozar de merecidas férias. Os juros actuais da dívida pública ascendem a cerca de 7.5% do OE e Sextus bem gostaria de saber a quanto montam os juros das dívidas privadas nos orçamentos respectivos. Querer fazer acreditar que isto é sustentável num país a envelhecer de forma muito significativa e que já não cresce a taxas superiores a 4% (condição necessária para acomodar de modo tranquilo tal carga de juros) há mais de vinte anos anos é próprio de mentes infantis propensas aos raciocínios mágicos. Uma ciência que tal propõe não pode citar Hayek ou Friedman mas antes e espera-se com algum proveito, Rabelais. É verdade que há boas razões para suspeitar que Friedman não percebeu o mundo em que viveu, quando citava Hong-Kong como o paradigma da bondade do mercado livre devia andar a ler alternadamente o sapatinho vermelho e Alice. Dito isto, as formas de resolução para esta dívida agrilhoante não são fáceis de encontrar mas nunca podem fugir à história milenar, vão ser prejudicados os credores e os devedores.

O falso pressuposto também é de fácil verificação. A renegociação da dívida iria permitir libertar capital para outros investimentos, talvez permitisse um redireccionamento de cerca de 3% do PIB para o investimento – Sextus dá de barato que os distintos economistas não vão sugerir a atribuição desse capital para pagamento de pensões e ordenados. Também o uso do termo capital em vez de recursos financeiros é propositado, recorrendo ao significado que Smith lhe atribuía, capital como algo que permitia ter alguém a trabalhar. Nos tempos actuais, mais do que trabalho seria certamente o investimento por posto de trabalho – o rácio entre capital investido por posto de trabalho que já era perigosamente baixo em Portugal comparativamente com os países mais afluentes ainda mais se afundou e algumas estatísticas já falam em um décimo do que ocorre nalguns estados alemães. Infelizmente, nem essa correcção garantiria o sucesso, a menos que a qualidade de administração melhorasse consideravelmente, algo de que se desconfia, veja-se o exemplo que apresentamos sobre o banco visitado por Sextus há dois dias. Mais ainda, mesmo com essa desejada melhoria de gestão o sucesso seria dificilmente atingível porque as vantagens comparativas da maior parte dos nossos competidores tal tornariam. Chega-se aqui à falácia mais decisiva e que acorrenta os mais pequenos, os mercados ditos livres só são bons quando quem os propõe adquiriu a vantagem decisiva ou tem os meios para a garantir – eu espio-te e se não bastar tenho aqui uns dronezitos que estão na ociosidade, desejosos de espalhar a liberdade comercial e todas as outras amplas liberdades bem redigidas no grande acordo comercial trans-atlântico para maior felicidade dos nossos povos, que submetidos á dieta do grande libertador McDonald e das pipocas deverão ser servidos em abundância de capitosas mulheres pneumáticas de Huxley.

Ao contrário daquilo que o “mainstream” economês vem contando, a liberdade dos mercados nunca existiu, o alargamento dos mercados exigiu sim sempre um forte controlo do poder do estado, os mercados mais desregulados levaram à dependência, à irrelevância e à infantilidade de quem foi forçado a seguir tal terapêutica. Claro que o proteccionismo não constitui uma bala de prata mas estas só se encontram nos livros infantis. Dito de outro modo, a libertação de 3 a 4% de capital para investimento em Portugal seria certamente irrelvante e o preço a pagar por tal provavelmente tornaria a operação com resultado negativo.

Neste momento temos na mesa das ideias da elite ainda dominante em Portugal o confronto entre o impossível mágico daquilo que nunca existiu, o liberalismo e a discronia e distopia da esquerda pós terceira via.
O que está em cima da mesa como trabalho de casa é a competição não só pelo capital mas também pelo emprego num mundo que apenas tem lidado com a vertente da oferta numa curva da história em que apareceu muito mudada a vertente da procura. A monótona terapêutica vendida pelos dominantes anglo-saxões é preocupante e decepcionante – Sextus termina a recomendar vivamente um OP-ed do NYT de hoje sobre o problema francês assim como os comentários.
Pode ser que o futuro radioso que nos prometem nunca ocorra, pode ser que o individualismo uma vez chegado à idade adulta reaprenda o essencial do local e do tempo, pode ser que perceba o que sustenta o “terroir”. O problema será qual é a solução preparada pela elite dominante anglo-saxónica para a relativa raridade do “terroir”, os centro comerciais não servem mas lá encontram-se muitas mulheres pneumáticas, é verdade. Patética evolução desde o ginásio onde se exercitava o rei de Platão.

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Onde se prova que está tudo ligado ou que a história realmente nunca se repete mas a verdade é que varia pouco

Apesar de ser muito difícil conseguir ler notícias que sejam retratos razoavelmente compreensivos e credíveis de ocorrências lá conseguimos pescar três e a partir derivar para algumas considerações.

A primeira chamada vai para os textos sobre mergulho no desconhecido pelo grupo BES. A segunda, para a contínua subida da dívida pública, agora um pouco superior a 134% do PIB. A terceira, para as perspectivas da evolução demográfica em Portugal. A derivação a comentar, nestes caso são duas embora pareçam ser primas, os textos de HM e HM no Expresso e Observador. O caule que integra, Arendt, o bouquet resultante, Sloterdijk.

A crise no grupo BES foi inesperada para quem não pertencesse aos íntimos do mesmo. Não se percebia bem como, mas parecia que o grupo tinha-se protegido de grandes problemas porque tinha apostado no pote de ouro, as parcerias público-privadas lusas, verdadeiro garante de calma e longa vida e no empréstimo para habitação a particulares, um dos mais resistentes a entrar em falência de pagamento. Era público que tinha feito vários negócios em Espanha e na América Latina e de fora, pelo menos, não parecia haver nada de muito volátil. A própria natureza desses investimentos não era de carácter altamente especulativo, logo algo distante quer de colossais ganhos quer de letais perdas. Enganamo-nos. Ainda está por fazer o relato sério sobre esta falência, provavelmente nunca o será mas a linha de base só pode encontrar-se muito mais na incompetência e ou no roubo do que no risco inerente ás apostas feitas. A evolução para uma caricatura da tendência do capitalismo de acasalar dívida com crescimento tornou-se ainda mais rabelaisiana com o gigantismo das empresas financeiras do presente, que, mais do que cumprir o aforismo de serem demasiado grandes para falir, tornaram-se demasiado pesadas para triunfar. Os ganhos tomaram uma aparência totalmente burlesca. Tratamos aqui de um sucedâneo de um sistema de irrigação em que o lucro provém das perdas do sistema, colectado diligentemente e pela calada pelos gestores do sistema, mais do que dos efeitos pretendidos e projectados dessa instalação. Não é aquilo que o sistema permite ganhar, o lucro está nas perdas do sistema, não são as estradas que desenvolvem o país, são as comissões que vivificam muito a economia de alguns.

Ligamos á dívida pública, agora que chegou aos 134%, valor claramente acima do muito citado mas já caído no olvido, patamar de conflitualidade com o crescimento de R-R, 90%, lembram-se? PPC bem se esforça por demonstrar o impossível, que esta dívida é pagável sem interferir de forma demasiado brutal com o futuro do país. Ainda está por provar se PPC é apenas um representante dos credores, papel que todos os governantes dos países endividados têm desempenhado, ou se está paralisado pelo medo dos credores subirem os juros (algo que é mais do que provável comparativamente aos valores do presente, pagamos menos do que os nossos calmos antípodas, os neozelandeses são cobrados entre 4 a 4.5%) ou pior, depois de descobrirem que a principal receita, a privatisação barata de algumas empresas, pouco já há num país da dimensão de uma grande cidade. Realmente, o nosso tributo está a ser feito por alguns juros e essencialmente via mão de obra, cerca de oitenta mil almas por ano, vá lá, uma quinta com dimensão czarista.
O risco de sermos arrastados na enxurrada que poderá varrer outros sítios ainda dotados de riquezas consideráveis não será irrelevante. No entretanto, o império já multou fortemente um banco francês, faz tenção de alargar o confisco ao outras instituições europeias, começando pelas gordinhas teutónicas, depois das multas que caíaram sobre o JPM e o GS americanos andar á volta de um quinto da imputada aos gauleses – há quem tenha alguma dificuldade em perceber que o capital tem sempre um lado nacional, é isto, muito visível quando a nação em causa se identifica com o poder, menos aparente qunado se trata de um protectorado, condição a que se chega após ter caido na dívida e com que depois se procria e nasce.

Chegamos á questão demográfica, até PPC falou nela no debate sobre o estado da nação e assegurou-nos que vai constituir uma comissão de estudo sobre tal – Sextus até pensava que a anterior ainda meditava sobre este dilema, foi pena dá-la por extinta, como se vê é mais do que necessária.

Aqui é que surge a pequena diferença introduzida pela história, para não se aborrecer e dar prova de que afinal ainda não tinha acabado – É verdade que um dos mais importantes amigos do nipo-americano, o anterior vice-presidente do império já avisou as massas numa entrevista esta semana á Fox que coisas piores do que o 11 de Setembro podem estar na forja, outro sinal de que a dita ainda não feneceu mas que graças á feliz PPP entre o estado americano e a as empresas de segurança, uma das quais, a mais importante, por feliz acaso, é admiravelmente gerida pelo tal vice, esse importante combate pode ser travado com o apoio espiritual e material, já agora, de todo o povo americano, que assim, mais uma vez faz história.

O excesso demográfico sempre foi recorrente, sempre assustou e não apenas Malthus. O excesso demográfico, sem a ajuda dos actuais métodos de contracepção mas parcialmente domado pela mortalidade infantil foi contornado pela exportação da ralé, no conceito arendtiano, para as terras desconhecidas, para as terras a conquistar. Este escape territorial também aliviava a fadiga emocional dessa nação, foi muito útil à europa no século xix. O excesso demográfico europeu do século xx foi atenuado pela mortalidade nas duas guerras e principalmente, pela destruição material que nalguns locais atingiu proporções autenticamente bíblicas, a antiga europa do leste, a alemanha e partes mais restritas da bélgica e da holanda.

O excesso demográfico que reapareceu timidamente nos últimos anos, que alguns tontos disfarçam dizendo que a a europa precisa de emigração para ser sustentável, discurso filial da parelha dívida-crescimento, já não é atenuado pela exportação da ralé mas tem-no sido pelo seu emprego em locais de trabalho de fazem de conta, ramos da enorme burocracia que o estado moderno criou. Mais do que o problema das pensões, que sendo real é de muito menor monta do que o referido no discurso oficial incorporado na TINA (realmente muito mais do que there is no alternative isto devia ser identificado como this is not accurate), o problema é o emprego, particularmente em condições de mobilidade total do capital que finalmente tem à sua disposição dois mil milhões de almas (eh pá, isto nem Catarina a Grande teve) capazes e não os castiços bizarros indus e chinos do século passado.

O excesso é um dos pais da fadiga, esta é irmã do cinismo, a queda da criatura que quis abandonar o cepticismo e abraçar o iluminismo. A treta weber-calvinista trouxe-nos agora aqui, os protestantes foram-se, eram umas crianças com bibes e carrapitos e de tanto cantarem salmos eprderamse nessas correrias, só se vêm sicilianos e judeus triunfantes. Oscilamos entre Diógenes e Dionísio. Snifamos e masturbámo-nos e no intervalo afirmamos que ganhámos.

Ser tudo correr bem voltamos às cidades, se tudo correr mal conforme está por agora traçado e desejado pelos arautos da CE que temem o perigo dos estados nações e propagandeiam as bondades da quietude dos cemitérios das vontades, das diferenças e a alegria globalização – o acordo a celebrar entre a CE e os USA parece ser dos mais sinistros que se possa imaginar, pouco nos restará a fugir para a montanha, lá não haverá ppp ou patentes a defender, espera-se.

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A trabalhosa transição para o admirável mundo novo ou a verdade é grande mas do ponto de vista prático o silêncio é maior e antes da perfeição instale-se a cacofonia

Este fim de semana trouxe de volta e em toda a força a nossa querida Lusitãnia-cacânia, vá lá, podemos não ter os bourbons que dizem nunca esquecer, aqui ninguém se lembra. Para lembrar é preciso integrar e para ser ainda mais sólido, gostar ou repudiar, a emoção é fundamental em todos os processos cognitivos, mas emoções são mais caras e menos disponíveis do que por vezes se crê.

O caso do BES é mais um dos muitos afectados por amnésia contumaz. Quando é necessário alguém reconstituir bocados importantes do passado a incapacidade para tal está quase sempre garantida. Fica-se a perceber que a gestão de topo roça quase sempre o limiar da demência, seja senil ou de alzheimer. No entanto, as alternativas do quadro clínico nada perturbam a cotação das acções, ou seja, a expectativa de lucros no futuro continua grande, o que se compreende já que a dimensão do banco e do grupo garante solidamente a socialização dos prejuízos, caso inesperadamente seja esta a evolução.

A atitude do regulador, neste caso o BP, também não poderia deixar de ser objecto dos encómios habituais, sempre foi mais fácil encontrar aduladores do que cassandras. O grande economista Constâncio rumou a Francoforte mas os bons hábitos nunca mudam. O sol põe-se ás 21 horas, o presidente do BP vem afoitamente avisar-nos de tal por volta das 23 horas. Assim se constroem grandes reputações e não menores amizades.

Depois tivemos uma notável entrevista do ministro das energias e sei lá que mais. Primeiro que tudo, ficámos confortados com a abolição das rendas em excesso, ainda bem. Depois, ficámos mais tranquilos com a magia do trajecto do défice tarifário. Vale bem a pena ler esse bocado de boa informação. Em resumo, algo que já vai em valores superiores a quatro mil milhões de euros vai começar a diminuir de forma drástica a partir de 2016, sem que tal forçe aumentar os preços da electricidade para além de pequenos ajustamentos à volta de 2%. Este tipo de contas é que deve ser aplicado sem demoras ao défice público e já agora ao privado de modo que lá para 2020, temos os livros novamente limpos e no azul. Tudo tão fácil e tão bem explicado pelo jornalista de um semanário de referência, que mais adulto nos impele para o diferimento da gratificação, caso contrário, era para já, como no maravilhoso tempo do admirável mundo novo que aí vem – os mais avançados já lá chegaram.

Finalmente tivemos um sobresalto, nem tudo pode correr bem, convenhamos. Ninguém estaria á espera que uma das instituições de saúde mais bem governadas – não digo a melhor por algum pudor, de que careço – passasse para as páginas dos jornais com notícias alarmistas. É verdade que este sector é dado a algumas surpresas, a saúde é imprevisível mas também objecto de milagres. Só para nos lembrar a maravilhosa cadeia de surpresas, revelações e milagres – Sextus está afectado desta mania, diria doença bourbónica, há muito tempo – temos um médico eleito o melhor gestor por um colégio de gestores ( não é só Ilich que desconfia da escola). Temos um ministro que redige reformas quase todos os dias para salvar o SNS moribundo, que três meses depois está declarado em coma muito avançado, ceratmente pelo mesmo governante não ter diligentemente acelerado as reformas para um ritmo horário. Temos uma instituição de saúde exemplar e de repente, mais de sessenta dos seus mais magníficos directores intermédios descobrem-na à beira da ruptura de recursos humanos, dotada de aparelhos em desfalecimento e não fiáveis, tonta entre a apreciação de recursos a mais quando em conversa com Carreira, ou de recursos a menos quando em charla com colaboradores de carreira – tem dias, tal como a memoria a apagar-se. Todo este drama está contado como deve ser pelos melhores jornais e seus melhores jornalistas, alguns com carreira já longa na área sanitária. Todo este evento tragicómico devidamente encimado pelos louvores a quem se expõe para defender os doentes.

Oh doce país avançado, exemplo para todos na perseguição da terminal Cacânia, já não se trata de homens sem qualidades, trata-se mais de mulheres da viúva Atenas, já não têm gosto ou vontades, têm medo apenas. O medo poderia gerar memória, mas a repulsa da perda antecipada impede tal feitura.

A verdade é grande mas maior, muito maior do ponto de vista prático é o silêncio, como dizia Huxley. Antes do silêncio, estadio de perfeição, há a repetição ad nauseum. Imediatamente antes, há a cacofonia. O desiderato final, pós-silêncio, a cacanização. No percorrer deste duro e tortuoso caminho resta seguir os mais orientados recorrendo á dica do costume, mas enfim, ajournée: “follow the money, follow the woman, whatever”. Boa sorte.

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O QE versão do BCE ajusta-se a quem manda, o centro em detrimento da periferia ou o presente nada mais do que um infinitamente pequeno ponto da chegada do passado em permanente revisita a preceder um futuro em inevitável fuga

Na semana passada foram publicadas algumas notícias com quantidades de dinheiro bastante incomuns.

Primeiro soubemos da tomada de posse do novo responsável do SNS inglês que vai gerir um orçamento anual de 95,6 mil M de libras. Se fizermos uma contas rápidas mas fiáveis chegamos à conclusão que o gasto per capita com o SNS inglês é superior a 200% àquele que é atribuído em Portugal.

Daqui decorre facilmente que pretender diminuir mais a despesa com a saúde já só será possível com a recusa de vários actos terapêuticos. É verdade que o SNS inglês inclui no seu orçamento despesas com a investigação básica e clínica de montantes que nem de perto são realizadas aqui. O Reino Unido está ciente da importância da sua indústria farmacêutica, pouco mais lhe resta para além da que brota do sector petro-químico alargado e da militar depois da delirante opção nos anos 70 do século passado, de se transformar num país de serviços, deixando morrer as indústrias do automóvel, dos electrodomésticos, da nascente dos computadores, da aeronáutica, dos pneus e de outras de média tecnologia.

Esta indústria farmacêutica há anos que parasita o orçamento do estado inglês, atribuindo cada vez menos verbas próprias para a investigação ao mesmo tempo que canaliza os seus lucros quer para a aquisição de outras companhias quer para a recompra de acções próprias – mais de 70% dos seus lucros.
No vivamente recomendável livro “the entrepreneurial state” M Manzucato chama a atenção para a decrescente contribuição da inovação desta indústria na síntese de novas moléculas terapêuticas, menos de 40% das últimas dezenas de inovações, pelo contrário, elas procuram refúgio na produção das “me-too drugs” enquanto que o risco da investigação é atirado para o sistema público. Manzucato sustentadamente sinaliza que as “Big Pharma” recusam o risco puro, já só toleram o cálculo das probabilidades.

A outra notícia foi produzida pelo anúncio do montante que o BCE irá disponibilizar a partir de Setembro próximo, cerca de 400 mil M de euros a juros quase zero para bancos desde que estes não apresentem garantias baseadas em dívida pública. Esta notícia é muito interessante e permite várias derivações.

A primeira pode ser a desmaterialização do dinheiro que se tornou total, logo completamente dependente de acordos e nada mais. Não é que ele exista, apenas se concordou que pode mesmo estar lá. Note-se que mesmo desmaterializado, o dinheiro também se abriga sob o conceito de propriedade e isto leva-nos a pensar no desvio desde a sua definição pelo direito romano. Já não se trata aqui de uma relação entre o homem e uma coisa, trata-se sim de um acordo entre os homens sobre uma coisa.

Este anúncio do acordo pelo BCE – aqui a outra pergunta fundamental é quem é que está à mesa da conferência que gerou esse acordo e qual é a sua agenda – teve este tempo e não outro, agora que a maior parte dos grandes bancos do centro europeu se desfez da dívida pública dos países da periferia mas ainda luta com os casos italiano e francês.

No que refere a Lusitãnea-cacãnea as informações não são completamente claras. Aparentemente o BPI vendeu parte da dívida portuguesa com considerável prejuízo. O que fizeram os outros bancos portugueses não sabemos. Se realmente for verdade que a maior parte da dívida portuguesa está em mãos nacionais, incluindo os fundos de pensões, a incoerência passou a ser demasiado gritante. Neste caso, o controlo do valor da moeda é de todo necessário e não pode ser entregue a uma entidade alienígena, como é o caso do BCE. Manter tal situação revela ou incapacidade voluntária ou induzida de ver o óbvio ou confundir uma vontade revolucionária de um pequeno grupo de burocratas / capatazes com a aspiração de um grupo nacional.

A semana termina com a publicação em fascículos de um novo manifesto conservador americano, para Sextus um bom avanço, recusando a armadilha dos valores morais, produtos de uma cultura que está sempre muita para lá de qualquer vontade política – veja-se a curiosa evolução chinesa com o retorno lento mas forte do budismo e do confucionismo. Num resumo pre-preliminar, estes conservadores percebem que a fronteira entre pensamento conservador e liberal vale a pena ser desenhada, no primeiro a descentralização em matrimónio com o movimento centrípeto da responsabilização é talvez a forma mais responsável e brilhante de evitar o caos da globalização dita liberal, que apenas poderá em consciência prometer a formação de legiões de órfãos do grande irmão, sem capacidade de se responsabilizar por coisa nenhuma, sem liberdade nenhuma a não ser a dos oligopólios, quando não monopólios que persistem na ocultação da total falência do estado como regulador, a única função que lhe querem aparentemente atribuir, à vista de todos – o caso recente do BESA é apenas caricatural, mas o articulado do IRS americano não o é menos, espalhado por 74 mil páginas.

Os conservadores têm a oferecer a responsabilidade, logo a escolha, os liberais deram-nos a TINA, como sempre, paradoxal. Os conservadores ainda acreditam na liberdade e responsabilidade de decidir como lançar impostos, os liberais querem crescimento, querem dívida, querem rendas, querem o controlo absoluto.
A linha divisória da liberdade humana não se vai jogar nos próximos anos entre orientais e ocidentais, entre islão e cristianismo, entre fanatismos e regimes seculares. A liberdade vai travar-se dentro do mundo da chamada ética protestante e como sempre, o mais difícil é destrinçar as falsas promessas anunciadas pelos burocratas / capatazes que já vislumbraram o futuro. Sextus mais modesto, reclama que miremos o passado para vivermos o presente.

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Hoje fui recordar os meus avoengos a Fafe!

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Médicos Cubanos como mão de obra escrava!

Estava aqui posto em sossego, no meu refúgio de fim de semana quando, repentinamente, ouço a notícia, referindo médicos Cubanos que vêm trabalhar em missão para Portugal, a auferir cerca de mil euros mensais, com retribuição para o governo Cubano, de cerca de quatro mil euros mensais, vigiados, de rédea curta, por um “controleiro” dos irmãos Castro!
E isto tudo pago com o dinheiro dos meus impostos!
Sendo eu um assistente graduado sénior (vulgo chefe de serviço) que aufere dois mil e setecentos euros mensais, fico perplexo com a narrativa!
Neste processo estão envolvidos, naturalmente, o governo Português e o governo Cubano!
Julgo que também estarão envolvidas, personalidades ligadas ao ensino, nas Faculdades de Medicina Portuguesas!
Mas o que é isto meus senhores?
É, exactamente, uma VERGONHA!!!!
A classe médica terá que ser capaz de, em praça apropriada, julgar estes senhores, médicos, com responsabilidades universitárias ou não, com responsabilidades em cargos do Ministério da Saúde ou outras, deverão, após averiguação de responsabilidades, ser BANIDOS da classe médica e da Medicina!!!
Esqueceram tudo que vem escrito nos manuais de Ética e Deontologia Médicas!
Espero pelas posições da minha Ordem e dos Sindicatos!

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Onde Sextus aplica o mercado na análise das eleições e do encontro de Sintra do BCE ou “no value for money” ou Popper enganou-se, a morte do contexto acompanha o funeral da falsificabilidade

Os últimos resultados eleitorais podiam muito bem ser antecipados, vá lá talvez com a única excepção do bablbuciante partido justicialista mascarado como MPT. Tanto assim foi que Sextus, muito deficiente nas suas previsões como qualquer céptico encartado, voltou a ganhar mais um repasto à custa de alguém que se reclama como conservador. Mesmo as abstenções acabaram por caír dentro do intervalo mais previsível, ou seja, com a correcção aproximada devida ao deficiente caderno eleitoral, ainda mais afastado da realidade com o número de emigrantes nos últimos anos, cerca de 45% dos residentes deram-se ao trabalho de votar. Desta massa, cerca de dez por cento optaram pelos votos em branco ou nulos, logo 35% encontraram terreno suficiente para a escolha. Continuando estas contas muito elementares, cerca de 11% dos lusos foram exprimir o seu apoio ao maior partido da oposição e cerca de 9% exprimiram o seu apoio ao governo.

Vamos ser bondosos e considerar que metade dos que votaram estavam bem informados para fundamentar a sua escolha, temos então 5% de apoiantes sólidos dos socialistas e 4.5% de apoiantes firmes da Aliança Portugal. Já agora, temos 2% de comunistas em Portugal.

Podemos comentar estes números de variadas maneiras mas a falência da democracia representativa é por demais evidente. É razoável o argumento churchilliano, os britânicos sempre souberam misturar bem uma vontade de mais fazer com a aceitação de nada mais obter. Os gauleses, geralmente mais dados a grandes sonhos, logo, por vezes, a grandes asneiras, apresentam maior dificuldade em lidar com esta insuficiência da realidade. Fizeram a sua revolução já no estertor do regime feudal, mas os britânicos tinham feito duas, cem anos mais cedo. Os gauleses dotaram o seu projecto revolucionário de um texto afirmativo, os britãnicos produziram um texto defensivo e têm lidado melhor com a falência do sistema representativo. Dito isto, para perceber bem os limites do actual regime político torna-se fundamental ler dois gauleses, Constant e Tocqueville, separados por cerca de trinta anos. Sem ponta de exagero, nada mais há a dizer, mais ainda depois da verificação dos resultados do enorme esforço conceptual e legislativo de Hamilton e Madison. O espírito federalista protestante confundiu a sua vontade com a realidade.

Uma das coisas que o discurso TINA não apreendeu sobre o perigo do seu uso desmedido é que não se deve confundir a ausência de jogo novo com a persistência de velhas cartas. Estes quatro, cinco milénios da história humana que é minimamente rastreável não produziram muitas novidades e os jogos de cartas da sociedade não mudaram tanto quanto se pensa, logo não irão mudar tanto quanto se possa ficcionar. Mesmo assim, a história também está abarrotada de convulsões na mesa, não porque se exija deveras um novo jogo, mas tão somente porque se reivindica novo baralho. O que está em uso padece de vários defeitos constrangedores. número elevado de cartas marcadas, cartas tão sebentas que aparecem coladas em duplas e triplas que quase anulam o baralhar antecedente, ou conforme outros dizem, o elevador social está avariado – o discurso do país das oportunidades está a tornar-se na aldeia de cada vez menos das ditas e se o regedor morre sem varões, venham as filhas donzelas, que também servem. Estas sebentas cartas já nem sequer exigem a sorte do jogo, demandam apenas o segurar da posição de quem as dá. O saber foi recolocado lá para trás da ordem das competências e este recuo só será facilmente suportável numa sociedade cava vez mais estupidificada deliberadamente.

Derivando este raciocínio, a representatividade que se apoiava no número e na especificidade de saber apenas passou a apoiar-se no número. O saber não desempenha grande lugar, os técnicos, os grandes gestores sabem da sua imagem e escolhem bem o seu acasalamento. As grandes reuniões consistem no papaguear de frases desconexas, ligadas por um pensamento mágico, enroupadas em fatos brilhantes engalanados por gravatas de qualidade. A máscara, essa é sempre a mesma, um sorriso discreto a interromper a monotonia sisuda que parece espelhar mais um entupimento de onde nada sai e nada pode entrar. A pressa aparente faz o resto, própria de quem muito tem a fazer e nenhum tempo a responder.

A nova pedra chave da abóboda é a falência da imprensa que Tocqueville achava condição necessária para a democracia representativa não degenerar rapidamente. Falar sobre a imprensa de hoje é analisar um mundo dividido mas que não consegue responder ao princípio da influência da má moeda. Diga-se desde já que a coerência deste sistema é muito grande, a falência da representatividade alimenta a má qualidade dos representantes, sustentada pela queda da imprensa.

Já aqui se evocou Kafka por vezes repetidas e o “Castelo” é também um livro sobre política. Aí a falência da representatividade apoiava-se na feudal distância, no Ocidente do presente, o sistema definitivamente carcomido e arruinado repousa sobre a multidão dos “factos”, dos canais de comunicação, na pós-modernidade do contexto. Num volte face paradoxal, a multidão e o contexto suicidaram-se para coroar a TINA, não britânica mas germânica. O oxímoro que Popper não previu foi o matrimónio entre o fim do contexto e a impossibilidade da falsificação.

Quando daqui a mais alguns, poucos, anos, o telhado do palácio de cristal se apresentar com falhas cada vez maiores porque o centro da europa de formas cada vez menos generosas se deslocou ainda mais para leste, o sentar nas mesas desprotegidas para o café cada vez mais curto e mais queimado vai ser lido de forma clara como “no value for money”. Até lá, vendem-se os sonhos da reparação do telhado com painéis de vidro ainda mais resistente e até se fala em alargar o palácio – há que justificar os impostos.

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