Não se pode confiar nos sistemas, reavaliação sim ou como ultrapassar a desvalorização do método casuístico

A contestação pós-moderna aos sistemas perdeu-se no caminho ao substitui-los indiscriminadamente pela praga do relativismo sem freio. Sextus evita essa armadilha pela suspensão do julgamento complementada pela modelação dessa suspensão por bom senso casuístico.

É sabido que o bom senso é menosprezado depois de séculos de pensamento filosófico muito ambicioso em produzir modelos e métodos, apesar do constante falhanço qualquer que seja o quadrante da actividade humana. A corrente crise financeira manifesta isso mesmo, é certo que influenciada por interesses inconfessáveis. A crise da teoria política ( e da prática) também é outra sinalização desta involutiva sociedade, oscilando entre o máximo e repetido erro quando assertiva e a atónita e cacânica inércia quando se pretende deliberativa ou planificadora. 

Deixando esta discussão para mais tarde, Sextus propõe algumas interrogações e lembranças sobre o sistema de saúde ocidental, terreno onde estas perplexidades são exemplares.

No mundo ocidental a saúde tentou encontrar um modelo de mensuração embora o êxito de tal pretensão pouco ultrapassou a alcançada pelo agrimensor do “Castelo”. Esses parãmetros de avaliação passam pelas taxas de mortalidade (notoriamente a infantil e a das puérperas), longevidade e os QALY.

Há grande variedade de recursos financeiros dispendidos na saúde, oscilando entre os 20% do PIB dos USA, passando pelos 14-15% da Alemanha e do Japão, até aos 9-10% da maioria dos píses da CE a quinze. Sem surpresa, não há nenhuma correlação entre as taxas mencionadas e os QALY com os gastos financeiros, embora o Japão consiga bons resultados mas não diferentes da Itália que gasta muito menos, menos ainda se pensarmos que o PIB italiano pouco ultrapassa os três quartos do nipónico. Na realidade, os resultados da saúde apresentam apenas alguma correlação positiva com o nível sócio-económico.

De seguida, podemos consultar alguns trabalhos dos grupos Cochrane e similares que recentemente avaliaram cerca de três mil tratamentos (Sextus está consciente que a metodologia usada também poderá ser objecto de críticas). De qualquer modo, tal como publicado na “Clinical Evidence”, 51% dos tratamentos são classicados com eficácia desconhecida, 5% muito provavelmente ineficazes, 3% muito provavelmente prejudiciais, 7% com soma nula na avaliação benefício com prejuízo, 23% como provavelmente eficazes e apenas 11% como muito provavelmente eficazes. Dito de outro modo, apenas um terço dos tratamentos provavelmente ou muito provavelmente merecem o investimento e sofrimento inerentes.

Este género de surpresas não se limita á medicina. Ficou célebre a melhor eficácia dos primatas inferiores ou de crianças na obtenção de resultados de investimentos da bolsa.

Não temos capacidade de gerir a catadupa torrencial de informação que se pode gerar sobre qualquer coisa, a nossa decisão tem vindo a assumir um carácter caótico e , aparentemente as melhores decisões tendem a ser as primeiras e nãos as segundas ou outras após reavaliação. (Talvez aquilo que nos permite a primeira decisão seja geralmente a variável mais importante, a segunda decisão deriva da tentativa da ponderação da multiplicidade, mais exposta ao erro de avaliação, a complexidade é procurada, a primeira impressão é-nos imposta).

Não é fácil a saída para esta armadilha em que caímos, mas o bom senso assumirá cada vez maior protagonismo em conjunto com a audácia de interrogar e a inteligência de não recusar sedimentar. Em suma, precisamos de conservadores críticos, de cépticos saídos das trincheiras.

Na saúde também é disso que precisamos, a audácia de relegar para o lugar que merecem os sistemas.

Sextus sempre foi adepto da vida e cozinha mediterrânicas.

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Uma resposta a Não se pode confiar nos sistemas, reavaliação sim ou como ultrapassar a desvalorização do método casuístico

  1. António Vieira Lopes diz:

    “Em suma, precisamos de conservadores críticos, de cépticos saídos das trincheiras.”
    Obrigado, bom Sextus.

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