Já não há naufrágios ao som da música, as galinhas tontas a correr no convés ocuparam todo o espaço

O cerimonial, de preferência o sagrado associado ao exercício do poder foi durante milénios o melhor que o homem desenhou para colmatar as suas tremendas insuficiências. Nas sociedades ocidentais modernas o cerimonial foi substituído por quase nada a não ser algumas tíbias propostas de entronização primeiro da individualidade depois da auto-regularização do mercado, a mão invisível de Smith.

Como Sextus tinha escrito há alguns meses atrás, o melhor que se pode dizer de Smith é que se tratava de um perigoso optimista. O seu conceito de mercado também vem ligado ao dualismo de direitos e deveres que bastariam quase para a obtenção dos bons resultados. Não é verdade, falta a responsabilidade e a sustentabilidade que Smith admite como dados e aí reside o seu optimismo perigoso.

É preocupante onde chegámos. A discussão sobre a crise ocidental e as respostas que alguns tentam avançar revelam a desorientação e a negação do doente. Tal como o cirrótico que quer continuar a beber os que governam afirmam querer continuar a crescer.

Na Lusitânia-Cacânea os problemas estão majorados por quinze (ou até talvez mais) terríveis anos de completa irresponsabilidade e insustentabilidade. Muita gente acha que não foi só incompetência e irresponsabilidade, Sextus concorda mas nem vale a pena ir por aí. Algumas soluções avançadas são claramente ineficazes, umas vezes por desconhecimento, muitas vezes para assegurar interesses inconfessáveis. A proposta da abolição da TSU constitui um excelente exemplo de atirar ao lado, não matando o coelho mas estragando de passagem as árvores por baixo das quais o coelho corre. É extraordinário falar na TSU e não realçar que qualquer alteração da mesma é menor comparativamente com os cancros dos atrasos de pagamento, a começar pelo estado e continuando até aos mais irrelvantes actores da economia dita civil e pela quase absoluta ineficácia dos tribunais para resolverem quebras de contrato. Mais uma vez o cirrótico propõe como alternativa a deixar de beber fazer ginástica de manutenção.

Sem a contribuição do cerimonial, o poder no ocidente foi empurrado para formas várias de socialismo, na sua última versão uma trágica combinação de abolição do risco moral e de um paternalismo exclusivo. A abolição do risco moral tem contribuído para que o cirrótico queira continuar a beber, ao fim e ao cabo por cada hemorragia quase fatal acabam por lhe fornecer gratuitamente transfusões e quando entra em delirium todos terminam por lhe fornecer o álcool de que precisa para regressar ao seu estado de equilíbrio e evitar que ele provoque ainda mais estragos durante a sua agitação – o nervosismo dos mercados. A proposta de Obama a ser apresentada amanhã pertence ao grupo das transfusões.

O paternalismo socialista traduz-se na proposta de redução da presença do estado para valores ainda acima dos quarenta por cento do PIB, é extraordinário o que se pode dizer quando se está completamente condicionado intelectualmente e se ignora que na maior parte do mundo esse valor está bem abaixo dos trinta por cento apesar de serem sociedades menos desenvolvidas, logo mais frágeis, mais teoricamentes carentes de cimento estatal para transfigurar a atomização.

Como é que vamos conseguir aguentar esses níveis de presença estatal a não ser por uma pesada e desresponsabilizante carga fiscal, agravada por uma migração das poupanças e lucros para locais de crescimento mais acelerado, logo com mais potencial de gerar dividendos, logo com juros mais altos naqueles que persistirem em recorrer ao mercado de capitais  de forma significativa. Nada disto encaixa.

Como é que o ocidente quer pagar empréstimos a juros superiores ao seu crescimento, que crescimento será possível com a taxa de desemprego que irá persistir nos próximos anos. Ainda não  percebeu que o nível de emprego durante as décadas mais recentes só foi possível por redundância clara nos postos de trabalho com funções de coisa nenhuma, desde gestores e conselheiros de administração a engenheiros e economistas e auditores e de técnicos de “coaching” (uma das coisas que mais diverte Sextus e que acha mais iluminante, o socialismo ocidental levou-nos para a infantilização absoluta, precisamos de ajuda para tudo e mais alguma coisa, ajuda fornecida por quem mais está incapaz de a disponibilizar para além de conversas vazias – eh pa, hoje Sextus está insuportavelmente velho e politicamente incorrecto ) administrativos e auxiliares de inacção, terminando em glória no topo com os reguladores de tudo e coisa nenhuma.

Tal como a galinha encurralada não pára de piar e ziguezaguear, os governos actuais falam a toda a hora, dizendo tudo e o seu contrário, alguns deles ainda portadores dos velhos conhecimentos cerimoniais vestindo uma segurança que não vivenciam.

Já não temos espírito para pôr a orquestra a tocar, cambaleamos ébriamente no convés discursando de forma incontinente.

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