A natureza do devedor-produtor, a expansão é tudo até o projecto ficar esgotado ou como se vai de Cecil até Oswald

Com monotonia quinzenal somos informados sobre o insucesso da venda de dívida pública, o rotineiro pacote de mil ME é colocado com juros à volta de 5%, ontem pela primeira vez desde o resgate acima desse valor. Para um povo que cresce à média de 1% ao ano nos últimos dez anos e decresce a cerca de 2% nos anos 2010 a 2012/3, este juros de empréstimos são o pano da bandeira branca da rendição.

Insidiosamente, ou pelo menos assim o queremos crer, a Itália vai deslizando para uma posição perigosamente afim da lusitana, evolução que desmentiremos sempre até ao limite do sustentável. A velha costela laciana de Sextus impele-o a achar tal impossível, não há tempestades perfeitas em todos os séculos mas há que lembrar que a última já decorreu há mais de duas gerações.

Como Sextus tem vindo a lamentar, a discussão sobre este tumulto financeiro tem sido pobre e bastante enviesada. Quase que parece que quase ninguém é capaz de localizar a origem desta desconfiança contumaz dos mercados e a centragem excessiva nas dívidas soberanas acabou por embaciar o olhar. Depois o jargão sectorial acaba por conseguir confundir quase todos fazendo passar por doutos, raciocínios que nada disso enformam.

Em termos muito simples, desde há alguns séculos que a sociedade evoluiu para a figura do devedor-produtor que por inerência acabar por necessitar de um devir expansionista constante. A grande expansão dessa figura económica deu-se com a Sereníssima, com a sua rival, Génova e algum tempo depois com os reinos ibéricos. Enquanto que a dívida gerava juros que facilmente eram reembolsados, era permissível a sua progressão desde que uma análise rápida (e não muito elaborada e complexa como os novos consultores se esforçam por nos fazer crer) alimentasse a expectativa de ganhos futuros com riscos aceitáveis.

O que se verificou no início da crise em 2008, mas já com avisos feitos dois anos antes, pelo menos e de forma muito directa, foi a descoberta que a expectativa de ganhos futuros estava francamente sobreavalida repousando em cenários por de mais inverosímeis. Isto junto a uma disparatada política de crédito fácil a juros a tanger o inexistente – a extraordinária incompetência dos banqueiros centrais foi algo disseminada, tivemos na nossa Cacânia o inenarrável Constâncio mas os norte-americanos não quiseram ficar atrás e dependeram dum Sr. Greenspan cuja inabilidade se apoiava no mais forte sustentáculo para tal, a auto-inibição do pensamento alternativo por uma crença, como todas as outras cega, mas eficaz até um certo ponto.

O que se passou foi um monumental erro no juízo que decidiu a aplicação do capital junto com a incapacidade de perceber que o aprofundamento da globalização com grandes ganhos implicava, como condição decisiva para um crescimento sustentado, que a variável demográfica tivesse um comportamento como tinha tido até aí, o que não aconteceu.

Sextus lembra uma sala do Peterhof nos arredores de São Petersburgo, toda decorada a papel de prata que na época, início do século dezoito, era uma preciosidade que só os mais loucos no esbanjamento poderiam ousar; três séculos depois, as colunas revestidas a papel de prata a várias cores provocam-nos algum constrangimento, é um tipo de investimento que não aguentou o passar do tempo.

Os investimentos que fomos fazendo, a aplicação de capitais guiada pelo desleixo de quem só possui uma pequeníssima parte, governantes ou CEO de gigantescas empresas de multidões de accionistas teve a mesma qualidade da opção de Pedro, o Grande.

A expansão iniciada há seiscentos anos esgota-se com a variável demográfica globalizada – não há empregos para todos, não há salários bons para muitos, lucros minimizados e  juros baixos são incompatíveis com o aforro para a parte final da vida.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s