O referendo grego ou a recusa de Calvino e de Marshall

A abortada proposta de referendo sobre a presença da Grécia no euro tem muitas leituras, a mais interessante é a que enquadra a ruptura, temida por quase todos, o que é uma manifestação de bom senso cuja necessidade nunca foi mais premente mas cuja insuficiência raramente foi mais gritante.

Um dado que falta ou que pelo menos não é reportado pela imprensa internacional é qual o grau de vontade percepecionada da população para se pronunciar directamente, dito de outro modo, o referendo era quase uma inevitabilidade ou foi uma personagem introduzida no teatro grego pelo autores políticos?

As leituras ao nível do consciente mais racional dirão que –

1. Papandreou procurava o respaldo de uma votação popular antes da continuação da descida aos infernos;

2.  pretendia provocar eleições antecipadas e forçar um governo de coligação nacional;

3.  preparava a fuga;

4.  desejava condicionar a vontade de intervir do exército grego.

Uma leitura a um nível mais pré-consciente é mais interessante. Perante o desatre que vem sendo relatado e aquilo que ainda vai piorar na sociedade grega com a mistura trágica de recessão, desemprego crescente e dívida incontrolada, lembre-se que após este pacote acordado na semana passada a dívida pública desceria para perto dos 120% do PIB por altura de 2020, instalou-se um clima de tripla negação profunda nos gregos, negação da realidade que lhes parece insuportável, negação da escolha para enfrentar o problema e mais importante, negação de pertença a um projecto político cada vez mais alienígena. Esta tripla recusa pode induzir um desejo de um recomeçar , mas em individualidade, percebida como escolha mas certamente também sentida como castigo-consequência da opção, mas muito mais como consequência. Não é o castigo como expiação, é a tragédia como os trabalhos impostos aos humanos pelos deuses, aos humanos livres, não aos escravos, esses sim apenas objecto de punição.

Conforme ao sentir ocidental, particularmente europeu, parece que não se compreende que durante a dificuldade mais grave e o sacrifício mais duro muitos desejam a solidão e não o acompanhamento, a solidariedade nestes momentos chega a ser ofensiva porque menorizante. A bondade do plano Marshall tem sido muito exagerada assim como a procura calvinista do castigo tem sido muito sobrevalorizada. Calvino apareceu já muito tarde na história humana e na realidade, o plano Marshall constitui uma manifestação lateral do espírito da infantilização e irresponsabilização em curso no ocidente desde há quatro gerações, é certo que miscigenado com questões ditas de geo-estratégia. 

Sextus não duvida das dificuldades e imprevistos tremendos no trilhar deste caminho a sós e percebe que o bom senso recomendaria que fosse recusado, mas o seu cepticismo também lhe faz apercber que a alternativa acordada não tem consistência para medrar. Os responsáveis nos vários países sabem que todo o modelo social e económico repousa em pressupostos que já não estão presentes nem voltarão rapidamente.

O voto beato do Sr. Obama no novo crescimento, presidente de um país com défice de 13 triliões de dólares, equivalente a quatro anos de impostos, com um défice externo importantíssimo e um desemprego de 10% é tão bom como o desejo de ser como o super-homem. O desejo de crescimento na Europa tem igual resultado, embora Sextus reconheça que haverá certamente algum depois de um recuo bastante maior, a táctica dos portões da dor que tanto nos serve no dia a dia.

O referendo que não chegou a ser serve para este questionar. Quando não se sabe a consequência da resposta é que pode aparecer a vontade de perguntar.

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