O estouro da cobertura do palácio de cristal ou quando Sextus presta homenagem aos gatos

Lenta mas consistentemente o mundo ocidental avança para mais uma curva da história, que surpresa das surpresas vai ocorrer também na Lusitânea-Cacânea – parece uma impossibilidade teórica – onde essa inflexão ainda vai ser mais pronunciada. É verdade que os lusos quase nunca enjoam e possuem a vantagem de que aquilo que vão descobrir ao virar da esquina é-lhe por de mais familiar, a apagada e vil tristeza.  Além disso, também nunca ficam tontos, dançam incansavelmente os mais apressados e estonteantes  viras, de mãos ao ar para mais enfaticamente aplaudir de modo intermitente, como pede  a música.

Os lusos não estranharam nada perder a independência, têm até a franqueza de reconhecer que tal é da sua responsabilidade, nem todos como seria óbvio, mas muito provavelmente em percentagem ainda assim superior ao que Sextus supõe ao registado noutras nações em situação similar. A nossa costela celta estará subjacente a este triste assumir, a nossa indolência meridional impede-nos de aproximar da eficácia da reacção dos primos setentrionais da lira. Uns afogam a tristeza no fado, outros em versos temperados por Guiness.

Este estalar e desmoronar da cobertura do palácio de cristal para onde entrámos há algumas décadas com a mesma precipitação e manipulação dos que fizeram a corrida do Kondlike vai mostrando algumas coisas que sabíamos mas de que nos tínhamos esquecido. As ventanias que agora penetram no recinto levantam agora alguns panos, derrubam algumas tábuas com regras enquanto que outras sustêm o abalo.

Enquanto que alguns descobrem que afinal não há vida para além do défice, outros recuperam a lei de que quem paga manda, ou melhor ainda, quem tem acesso ao segredo do cofre também, mesmo que não seja o dono do seu conteúdo. Nestes tempos últimos, são mais importantes os sabedores do segredo, porque poucos, do que os donos do cofre, porque muitos – também aqui o número conta mas de forma inversa, quanto mais os agentes a ouvir mais ineficaz se torna a sua voz ou a sua vontade, ou quando 2010,  desde que há registos foi o ano em que mais volumosas compensações foram distribuídas pelos bancos aos seus directores.

O estalar da cobertura expôs grande parte do palácio às intempéries, poucos lugares ou cantos estão protegidos. Onde antigamente era possível placidamente jogar os mais convenientes jogos de cartas, agora tudo esvoaça, cartas desaparecem, bridges têm de ser interrompidos, contas impossíveis de ajustar.

Os mais inteligentes, com mais rápida adaptação à nova e exigente condição mudaram-se para outros lugares, seguindo o exemplo dos gatos, animais que estão dotados da capacidade de descobrir algum conforto nos lugares mais hostis e mais desprovidos de condições.

Nessa sala grande de jogo, as partidas mais importantes que são levadas até ao fim desenrolam-se assisadamente junto dos domésticos felinos, debaixo da mesa. Por cima do pano nervoso, cartas abandonadas rolam, caem da mesa, dispersas pelo movimento contínuo dos que ainda não descobriram os melhores lugares, outras mesas ainda continuam ocupadas pelos figurantes pagos para compôr a sala.

Nada do que se vê entusiasma ou têm valor, tudo o que ainda importa e diverte encontra-se debaixo. Pareto tinha dezassete gatos, aprendeu alguma coisa com eles.

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