No palácio de cristal não há falências segundo os seus directores do momento, Bouvard e Pécuchet

Nos discursos cacofónicos, cacânicos e por vezes novilinguísticos, próprios da sala onde são proferidos, o anfiteatro do palácio de cristal, o texto conforma-se ao orador e à audiência e arrepia-se da situação.

O orador procura quer retirar benefícios (ou atenuar prejuízos) quer continuar a enganar-se, invertendo Molière, passando do doente imaginário para o saudável imaginário.

A audiência é a habitual, negacionista e preservadora da estufa cristalizada até aos limites mais extremos.

A situação, tal como é de hábito, só se circunscreve ex post.

Com alguma complexidade própria das situações individuais essencialmente dependentes da posição ocupada pela nação na “pecking order” das nações, a crise ocidental na sua generalidade não passa de um acerto do pêndulo da história que iniciou há alguns anos o inevitável e vital movimento de retorno – seria bom que alguns politólogos, para abrilhantamento do seu discurso consultassem as restrições que governam a construção dos motores ou até se virassem para o desenho das velhas catapultas romanas, coisa que até il maestro Silvio esqueceu, o movimento pretendido e impulsionado do pistão do motor tem de ser equilibrado pelo movimento oposto.

A segunda característica da crise tem a sua marca de água no sobre-aquecimento das economias, não sustentado em crescimento real, com governos a pedir emprestado em demasia, com reguladores que permitiram que bancos tratassem as obrigações como desprovidas de risco e investidores que trataram países diferentes como um só.

Esta ausência de risco moral é tanto mais inaceitável quando parece subscrita por sectores que se reclamam de liberais e que gostam de citar a destruição criativa como um dos principais factores da eficiência do capital norte-americano.

Perante a difícil situação, mais ainda quando a sociedade do palácio de cristal não está já preparada para climas recessivos de 3 a 4 anos de duração, quer tudo mais ou menos instantâneo e de solidez arenosa, os tristes políticos que lhes coube a sorte de lidar com as vacas magras não sabem estar calados, falam sem parar, falham também sem parar.

Continuam sem conseguir explicar o impossível, pagar dívidas importantes com recessões concomitantes, posturas keynesianas que falharam há três anos, austeridades que falharam este ano. Falham? Não, apenas ocupam o seu lugar no cortejo das actividades humanas. Aliás o principal problema nem é a dívida, nem o crescimento que nunca pode ser um problema mas tão só um resultado, mas sim o desemprego.

O discurso incompetente e impenitente dos que nos governam de Vancouver até Varsóvia parece saído dos melhores momentos de Bouvard e Pécuchet.

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