A racionalidade não consegue acompanhar o desenvolvimento em matriz fractal ou porque a análise crítica da situação actual não consegue ultrapassar a caricatura

Qualquer crise deveria trazer uma dose razoável de humildade numa sociedade adulta que se visse como causa inteligível e ainda acreditasse na liberdade de escolha. Cobrir-nos com as vestes da incompletude e de aprendiz quando os parceiros distantes, antes alunos atentos e mais ou menos acríticos, finalmente atingem ritmos de desenvolvimento económico superior – parece que no meio do desânimo esquecemos o óbvio, há sempre um tempo em que o que fica para trás recupera pelo menos alguma parte do seu atraso – constituiu sempre uma tarefa mal desempenhada ao longo da história.

Para ajuntar maior complexidade, desde há séculos que existe de forma alternadamente consciente ou subconsciente a apreensão sobre o nível da livre escolha, herdeira do grande debate sobre o Mal na Idade Média, mas que vestiu roupagens mais plebeias e quotidianas, como a versão da Mão Invisível de Smith até aos níveis algo mais duros sobre a duração do desígnio nos estados, relembre-se a decadência do ocidente de Spengler e mais modernamente o palácio de cristal de Sloterdijk, passando pela discusão de estados modernos e pós-modernos discutidos por Kagan em “Power and Weakness” .

Nesta crise económica não tem sido possível, nem tal seria de esperar, conseguir uma leitura do vector dominante, nem a sociedade do presente está particularmente receptiva a tentar descortiná-lo, ou o velho dilema, ver para crer, crer para ver.

Nesta pastosa matriz social ainda é possível, pelo menos, evitar uma grande desorientação, que aparece, quer de forma antecipável pela dificuldade, quer provocada por sectores que tentam chegar a posições vantajosas, ou quem tem um olho pode ser rei numa terra de cegos ou que chegam atrasados.

Sextus deixa aqui algumas notas de cautela que serão, assim o espera, aceites por quase todos.

Primeiro, o começo desta crise não é imediatamente compreensível, logo se não sabemos bem a sua origem vamos ter dificuldade em domá-la.  Ao contrário de alguns falsos consensos, muita gente sabe que o subprime americano não tinha o poder de desencadear a actual crise, onde o lugar do desígnio dos estados e o desenrolar das várias forças matriciais da economia ainda não foi atribuído e só o será retrospectivamente quando este presente for reescrito pelos vencedores. Sabemos sim que a contabilidade criativa disseminou-se e gerou nas últimas décadas derivados explosivos que têm servido para acumular colossais receitas a alguns à custa da impreparação da quase totalidade que aceita sentar-se na mesa de jogo, algo muito velho na história.

Segundo, uma particularidade constitutiva da crise mas que se repetiu noutras crises é a desvantagem demográfica das zonas em dificuldades, sendo que a percepção desta inferioridade é vista como dado persistente a longo prazo, ou seja, não se acredita que o ocidente volte a ter taxas significativas de progressão populacional e daqui pode vir a causa determinante, a não existência da diluição dos encargos do presente nos aumentos futuros populacionais que não serão observados.

Terceiro, foi o mito que a globalização poderia ir ao par com o crescimento geral desde o início do processo, tal não é possível, embora em fases mais maduras dessa evolução tal seja exequível. Esta voluntária incompreensão do factor tempo tem sido trágica mas foi facilitada pelo espírito do presente, da satisfação imediata dos anseios e da repulsa pelos recuos, nunca a frase um passo atrás antes de dois à frente foi mais rejeitada na sociedade, mesmo as de extracção calvinista – a taxa de poupança dos agregados familiares atinge os valores mais baixos nos EUA e Reino Unido.

Quarto, o mito do crescimento contínuo sustentável, que alguns espíritos desatentos remetem pelo menos para a esfera privada, reconhecendo que quando no domínio público tal é mais difícil. O crescimento contínuo não existe e tudo leva a crer que não existirá a curto e a médio prazos. O mito da eficácia do sector privado nasceu em épocas de grande abundância quando foi fácil espoliar os bolsos dos contribuintes para financiar projectos inviáveis, o exemplo mais interessante e infeliz está ligado á construção de periferias das cidades que exigiram meios de acesso, urbanização, transportes, etc, todos financiados com os impostos, doutra maneira tal teria sido impossível e, oh que bom tal fracasso teria sido – a tragédia das parcerias público-privadas foi a última transfiguração deste engano doloroso para os contribuintes, delicioso para algumas empresas. Com este fracasso veio agarrado a falência quase extravagante das entidades ditas de regulação, desde a injustamente célebre SEC americana passando por todos os similares europeus e britânicos, tão merecedores do sorriso como as brilhantes comparsa lusas.

Quinto, o mito do PIB que quase sempre esquece que grande parte dele vem do investimento público que dificilmente gera retorno, acompanhado do muito deficiente cálculo das taxas de inflação e de desemprego, sabe-se que a real taxa de inflação é significativamente superior à anunciada o que implica que muito do propalado crescimento é falso porque entra em conta com uma inflação sub-avaliada.

Sexto, a dificuldade em trazer para a discussão as repercussões da entrada maciça da mulher no mercado de trabalho, pretendida quer pelas próprias quer pela necessidade de crescimento contínuo só possível com um movimento paralelo no consumo.

Sétimo, chega sempre nos casos mais desgraçados uma altura em que é preciso reconhecer a falência da empresa e tal é o caso de Portugal, da Espanha, da Itália, da Grécia. O empurrar da falência para tempos mais distantes apenas traduz uma pouco aceitável espoliação dos contribuintes para conforto de apostadores que agora não querem reconhecer o risco e que no dilatar do prazo são ressarcidos por juros mais altos, compreensivelmente

Oitavo, que realmente vai se verificar um retrocesso major nestes países tal como se verifica após uma falência.

Nono, para a Lusitânia-cacãnia o mais determinante será a capacidade de retenção da maioria dos quadros jovens e o seguimento de uma estratégia de muito maior satisfação das suas necessidades internamente e tal exige uma diferente política no governo. Há várias maneiras legais aos olhos da Europa de dificultar aquilo que vem do exterior e facilitar aquilo que aqui fica ou que sai, para isso é mandatória toda uma nova política de taxação, sempre com a orientação de voltar a captura da riqueza do estado para níveis compatíveis com aquilo que ele dá e pode dar, provavelmente algo entre 25 e 30%, conforme se pode especular pela consulta do que se verifica em países com o grau de desenvolvimento idêntico ao nosso, temperado pela terrível inevitabilidade demográfica lusa.

A equiparação desta crise com a de 1929 ou a tentativa de alguns economistas de carregar na tecla do investimento público pode talvez estar adequada para capturas pelo estado de 25% da riqueza, caso dos EUA, não na Europa das formas generosas e gordurosas.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s