Tchekhov deveria reescrever a peça ou o tempo das novas gaivotas

A gaivota de Tcekhov é um texto ambivalente, catalogado quer como comédia quer como tragédia. Sextus olha-a mais como uma descrição de dois movimentos falhados, um de ascensão a terminar em suicídio e outro de involução, própria do envelhecimento e apagamento da mãe do protagonista. Nesta peça, a gaivota desempenha uma fugaz função simbólica de anúncio do desenlace trágico, logo, a gaivota abatida é também uma imagem de fragilidade.

Na verdade as gaivotas têm tudo menos de frágeis, quer por suportarem ambientes francamente hostis, quer por se adaptarem a condições francamente diversas, desde a costa até ao interior, são omnívoras e necrófagas, logo bastante destruidoras no seu sustento e pouco eficazes do ponto de vista calórico. Adaptam-se às condições adversas mas pouco modulam o seu gasto, o que é bastante característico dos necrófagos.

No Porto, as gaivotas apresentam estas capacidades de modo muitíssimo ilustrativo. Seguem a costa, embrenham-se no interior com o rio e depois acabam mesmo por se afastar dele. Sextus que vive numa das zonas mais altas da cidade, vê-las logo de manhã junto á porta dos cafés em disputa desigual com as pombas e reencontra-las nos telhados do hospital onde trabalha, junto aos refeitórios. A capacidade de transmutação e o oportunismo das gaivotas são quase humanos.

Nos últimos cinquenta anos, uma classe vem tentando simular um comportamento afim destas aves, os gestores do mundo financeiro, simulacro parcial, nada se repete.

A captação do PIB pelo mundo financeiro subiu de 2.8% em 1950 para 8.4% em 2010, valores para os EUA e continua a aumentar. Se parte desta riqueza acaba por sustentar a economia restante ao criar uma massa de consumidores, por outro lado isto mostra o esforço que a economia dita real tem que fazer para assegurar um lucro suficiente para si e para o mundo financeiro.

Há uma multitude de razões subjacentes, Sextus tem lembrado com frequência o risco moral, outra foi a capacidade que os gestores tiveram de passar a mensagem que o seu brilhantismo é raro, logo merece ser muito premiado, embora os candidatos â classificação de brilhantes são mais que muitos – aqui muito diferente das gaivotas em que Fernão Capelo só havia um. Por outro lado, os gestores sustentam que é compreensível que apesar do seu brilhantismo não consigam prever os fenómenos do risco de cauda e, também diferentemente das gaivotas, quando o voo é muito arriscado exigem rede, a imagem é tão simpática como imaginar rever Fernão Capelo a virotear e looppear entre as falésias alcochoadas e ligadas por rede.

Esta tragicomédia têm assistentes interessados e espectadores convenientemente condicionados para ver maravilhas de multiplicação onde só há redistribuição. Quando esta redistribuição é mais incómoda, os revisores prometem que tudo se resolverá com mais entradas na plateia para aplaudir os novos arriscados números de voo.

A continuarmos esta tendência rapidamente não vai haver lugares sentados, o ar será irrespirável e como já não há doces ou rebuçados para distribuir nos intervalos, resta-nos lembrar que também nós, como a gaivota, somos necrófagos e aproveitar a carne dos que primeiro são vencidos pela pestilência pode ser uma tentação.

Infelizmente e tal como é de esperar quando se ingere o antigénio, quase nunca há resposta protectora, tal requer a pele ou o sangue.

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