À segunda-feira podemos pensar, a novilíngua foi expulsa durante uma hora

À segunda-feira à noite há um programa de televisão que parece pouca gente vê e que quase nunca desperta qualquer sequela. Chegámos a um tempo em que o essencial, o claro e cristalino é varrido para o inconsciente enquanto que nos querem ocupar o consciente com pensamentos e análises inconscientes , logo inconsequentes. Continuando o tom, a novilíngia torna-nos dementes.

Claro que qualquer análise lúcida raramente é totalizante, fica habitualmente muita coisa de fora. Medina Carreira, aindaque prejudicado por uma postura facial que o desvaloriza consegue levar-nos para territórios onde a inteligência vigia e guia. Hoje cometeu dois erros de análise sobre a decadência do ocidente.

Primeiro, o drama principal do ocidente está sustentado pela perda de avanço tecnológico que mantinha há três séculos e que no tempo presente foi empurrado para as áreas limite de superioridade militar que ainda rendem boa vantagem na antecipação da reunião de informação crítica – ninguém quer discutir o super-programa de espionagem mundial partilhado pelos EUA, Reino Unido e Austrália, o Echelon -e para as possibilidades últimas de aniquilação total, realmente de pouco valor geoestratégico ao contrário do que alguns pensaram na década de oitenta do século passado.

A perda da superioridade tecnológica trouxe para a dianteira do palco os inconvenientes da maximização da eficiência e eficácia que estão a aniquilar o bem estar das classes inferiores e da metade inferior da classe média. Os pais fundadores dos EUA tinham certamente um vislumbre dos perigos do desenvolvimento industrial desregulado que leva quase sempre à criação de monopólios ou de ganhadores que ficam com tudo. A superioridade tecnológica dava margem para o sustentáculo de ineficiências que iam ao par com a manutenção de largos estratos da população no pleno emprego. Ao competir com povos de mão de obra quase infinita e com tecnologia a aproximar-se do padrão ocidental o efeito boomerang no ocidente está à vista.

A perda do controlo do acesso às fontes de energia, evidente a partir da guerra israelo-árabe de 1973, jogou um papel acelerador mas não determinante. Basta olhar para o Reino Unido, ainda um dos principais produtores de petróleo para perceber isso. O petróleo do Mar do Norte apenas tem habilitado o Reino Unido a percorrer um trajecto com mais suave declínio de decadência, mesmo assim mais severo que o Alemão e o Francês com contas mais desequilibradas mas com maior sector industrial (e já agora privados da ajuda do mundo financeiro que também ampara o seu criador).

O segundo erro de análise de Medina Carreira torna-se evidente na afirmação quase verdadeira de que não há dinheiro. De facto o que não há é dinheiro suficiente para escorar as construções financeiras que criaram uma quantidade de dinheiro virtual muito superior ao que é realizável. Muitos tem beneficiado com valorizações de património que se afastam demasiado do que é realizável em caso de alienação ou de transformação na altura dos períodos de maturação.

Dito isto comparar estes erros, ainda que importantes, com a inércia exuberante dos CEO dos Estados, náufragos num desorientado esbracejar é esclarecedor.

Até ao fim do euro ainda vamos despender muita energia a bater na água sem sair do sítio e tal como disse Medina Carreira, no fim poderemos perceber que fomos atirados para umas terras realmente inóspitas.

Pequena nota de rodapé para sublinhar a pobreza da governância que nós escolhemos: como explicar que o sobrevalorizado número de dois milhões de utentes no SNS, conhecido há anos seja companheiro de vários ministros da saúde sem nenhuma consequência a não ser o enervante cacarejar que há falta de médicos de família pelo que se abriu centenas de vagas para médicos dessa especialidade no concurso que agora vai chegar à meta final?

Explica-se facilmente num palácio de cristal dum ocidente decadente e prisioneiro das falácias narrativas.

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