A não previsibilidade combinada com a ausência do risco moral tornam perigoso o palácio de cristal ou quando a novilíngua sofre a prova mais exigente

Será sensato assumir um risco moral maior quando a frequência prevista para a ocorrência do evento indesejado é muito baixa e / ou quando as consequências são menos gravosas e duradouras.

Ao longo dos últimos dois séculos o progressivo apagamento do risco moral tem ido ao par com o desmentido do pressuposto acima, particularmente o estabelecimento de relações muito alargadas acarreta um grande prejuízo quando apesar da desejada segurança conferida pela matriz esta desmorona.

Alguns poderão dizer que este desmentido do enunciado no princípio vale por si, ou seja a proposição está irreversivelmente errada, como diria Poper foi falsificada, outros como Sextus e o seu amigo Pareto apenas se resignarão a deduzir que a racionalidade está pouco presente na actividade humana.

O risco moral no presente envolve muito maior risco que no passado, mais imediatamente no que diz respeito à administração das sociedades e dos estados mas não só,  mesmo para o mundo dos valores comportamentais o risco moral agigantou-se desmesuradamente com a instantaneidade de parte da informação – não é verdade que a informação global esteja disponível, pelo contrário o mundo moderno descobriu que a melhor forma de a aprisionar não é a guarda a sete chaves é a imersão na abundância do caos fractal de informação, a abundância prende, a escassez liberta ou a novilíngua corrigida por zen.

A abolição do risco moral financeiro constituiu a causa principal da crise ocidental, pelo menos ao nível do consciente, embora Sextus sinta sempre dificuldade na análise dos mercados financeiros que se comportam como que desprovidos de qualquer racionalidade, algo difícil de conceptualizar. Chega a ser muito estranho lidar com a facilidade com que a teoria económica trata isto, assumindo como natural que quem se senta ao volante de um carro carregue no acelerador de modo incontido, o facto de não se vislumbrar perigo deve, pelo menos, ser acompanhado com a dúvida sobre a reserva de combustível, ou os teóricos economistas crêem que quando alguém vê um carro adivinha uma refinadora de hidrocarbonetos debaixo do chassis?

Mais importante, desde o início da crise nenhuma medida foi tomada para reposicionar o risco moral na actividade financeira, ou outra versão da fractalidade oclusiva, alguém se lembra de ter sido chamada á colação o relatório da comissão Peckora onde tanto esclarecimento iluminante se pode obter?

O risco moral comportamental envolve ainda maiores testes à sociedade mesmo cristalizada no seu palácio momentâneo. O risco moral comportamental é maior na sociedade lusa que nas outras congéneres deste hemisfério porque deixa acumular um grande passivo que, na aparência volta ao zero com a confissão.

A falência completa e não é exagero em classificar como completa salvaguardando que a absoluta plenitude é inatingível na actividade humana, do sistema judicial acarreta terríveis consequências. A falência do sistema judicial tem sempre como base outra falha, a do sistema de valores.

A carta de ontem da associação dos oficiais do exército e a não resposta do ministro tutelar constitui uma manifestação deste desastre.

A crise do início do século XXI ameaça devolver-nos para outra ordem numerológica, a do século XIX mas só por má análise podemos inferir tal. O que vivenciamos é como que um regresso ainda mais fundo, ao século XVIII mas o que temos é uma emergência de Voltaire embotado.

Já não temos a arte da leviandade no meio da delisquecência, aguardamos o devir. Tal como Spengler que via a história como um animal com o seu espírito a dirigir a progressão, recolhemo-nos medrosos na expectativa do seu ataque.

A ausência do risco moral produziu crianças que não constituem os melhores receptores para a novilíngua que com o seu falhanço vai destapar um enorme vazio. Atacado pelo vazio interior, o palácio de cristal só pode implodir.

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s