Quando o grupo dominante não se renova e não consegue re-ordenar a república segue a crise até chegar César ou a história não se repete, muda a narrativa mas mantém o género

O caminho para o falhanço em melhorar algo com a crise vai sendo calcorreado tal como seria de esperar. O frustrante é sabermos isso de antemão tão claramente. Está criada uma mistura explosiva de não reconhecimento dos problemas ou da desastrada classificação de prioridades, ausência de sabedoria e força para enfrentar forças de bloqueio e repetição ad nauseum de ideias que começam a ficar perigosamente desajustadas da realidade em mudança.

O caminho para a mensagem que a crise que se vai aprofundando pode em parte ser atribuída a termos ido para além da troika, agora ainda mais potenciada pelas dúvidas que a troika vem reconhecendo sobre o caminho traçado para a Grécia lá se vai fazendo – há que lamentar a forma como alguns responsáveis europeus analisam o falhanço grego, primeiro porque obviamente tinha que ir até à renegociação, segundo porque quando o desvio sobre um plano é muito importante torna-se impossível validar ou desqualificar esse plano.

O meu amigo JPLN escreveu no balsfémias um excelente e inteligente comentário sobre o aquém e além da troika e acertadamente identifica que quem votou na actual maioria estava a acalentar que se fosse além da dita enquanto que quem defendesse o senhor engenheiro ansiaria pelo cumprimento e sub-cumprimento do acordo.

Sextus olha de outro lado e avisa sobre quão perigosa é esta equivocada controvérisa. Aqui, na Lusitãnea-Cacânea a tradiçao ainda é o que era e ficamos significativamente aquém da troika, se a troika não percebe isto, ou não quer perceber, fujamos. Toda a reforma necessária para corrigir problemas estruturais da nossa economia estão por fazer. Há uma considerável quantidade de sub-emprego, há uma má gestão, como se depreenderia da anterior afirmação, há uma justiça inqualificável, há uma medíocre competência de muitos sectores industriais e de serviços (quem não se confrontou com as incapacidades de um picheleiro, de um electricista, de um carpinteiro, de um vidreiro, de um pintor, de um informático) e continua a captura financeira pelo estado e grandes grupos finaceiros-industriais que promovem uma colecta de impostos gigantesca para financiar obras de má eficiência e eficácia baseadas em análises e projecções em que a desonestidade e a incompetência se misturam em doses de difícil doseamento – Sextus gosta de voltar a lembrar que o estado português paga desde 1970 um gabinete para projectar a substituição do aeroporto da Portela, já lá vão 42 anos risonhos.

As reformas administrativa e judicial não só continuam por fazer como já há sinais de descontrolo preocupante traduzido por comissões que vão sendo criadas para assessorar vários ministérios que espelham a má organização estatal, a desleixada forma de garantir a boa administração dos dinheiros públicos entregando tal tarefa a quem sofre de graves conflitos de interesse.

O necessário espectáculo político corre o risco de ser claramente insuficiente para uma recessão que já dura há mais de dez anos – a falácia de termos crescido cerca de 0.5% ao ano nesa década é facilmente verificável se nos lembrarmos que no cálculo desse PIB entra, como seria de esperar, a despesa do estado que numa fatia muito substancial foi engolida por um sector demasiado estreito da sociedade para lhe permitir percepcionar qualquer crescimento.

De certa forma, a Lusitãnea-Cacânea já prefigura  o futuro, a ausência do crescimento mas falta-lhe a parte mais substancial, a capaciade de se sustentar numa época de estagnação, enquanto que temos que continuar a ouvir a lenga-lenga do crescimento, enfim haja resignação, estamos na Quaresma.

Uma interrogação pode reaparecer como sempre o vem fazendo há milénios: qual é a capacidade de um grupo dominante se renovar e regenerar. Tito Lívio acreditava que qualquer sociedade só pode perdurar se conseguuir reordenar-se e se conseguir manter um ambiente de tensão equilibrada entre os grupos que lutam entre si pela dominância.

Neste momento, em todo o ocidente não se vê tal (veja-sa a completa ausência de mudança no funcionamento do mundo financeiro, por exemplo) e em vez da tensão observa-se essencialmente a resignação. O barco é muito grande, optamos pelas manobras erradas uma milha antes de sairmos do porto, só nos resta bater. Há sempre marinheiros que tentam, também eles fazem parte do desastre.

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