Quando o segredo é irrelevante e o cerimonial já não atrai espectadores a desagregação não está já instalada porque o palácio de cristal não o permite

Nas últimas semanas fomos brindados com dois momentos bastante interessantes de revelação de segredos. Primeiro tivemos acesso à confidência do ministro das finanças alemão ao seu congénere luso manifestando-lhe a disponibilidade de mais ajuda caso as coisas na Europa corressem bem  e a Lusitânia prosseguisse o plano de reformas.

Depois tivemos a promessa de Obama a Medvedev de propôr um plano mais flexível de redução de mísseis depois da sua reeleição, que seria a última.

Vários comentários podem ser agregados a estes segredos. O primeiro é que são irrelevantes o que não costuma ser a característica formadora de um segredo.

A promessa de apoio continuado a Portugal não resolve nenhuma das disfuncionalidades lusas nem o plano alemão resolve nada de relevante a médio prazo na Europa das formas generosas. O problema europeu não é liquidez, o que temos vindo a fazer é adiar a confrontação da especulação financeira com o seu erro através de uma significativa deslocação de dinheiro dos contribuintes (os fundos do BCE) para o mundo financeiro (os bancos que lá vão buscar crédito a juros invisíveis).

O problema europeu é o sobre-endividamento até agora sustentado na crença no mito do crescimento contínuo que permitiu rolar a despesa. Com o desemprego elevado e sem possibilidades de reverter, a espiral de recessão é absolutamente inevitável. A recessão só não é maior porque não pagamos as nossas dívidas – Alemanha incluída embora a um nível menos dramático.

Malthus enganou-se no factor limitante, não é a sobrepopulação – esta apenas tornou possível um crescimento tão longo, de séculos -o limitador são os postos de trabalho, algo que já foi alvo de reflexão há cerca de vinte anos. Alguns negacionistas ainda vão apelando para um crescimento demográfico como gerador de novos consumidores, saída irreal pelo desemprego ainda maior com que se associaria.

No caso de Obama é interessante pensar que a norma da possibilidade de uma só reeleição gera contradições talvez piores que a não limitação da reeleição ou a impossibilidade da mesma. Além disso há que convir que qualquer problema com mísseis é razoavelmente irrelevante dada a grande redundância de armas de destruição disponíveis para todos aqueles que podem ter a pretenção de fazer guerras alargadas.

Os segredos estão remetidos a irrelevâncias, pelo menos no ocidente. Por outro lado, os grandes cerimoniais já atingiram há algum tempo essa qualidade, os discursos apresentam necessariamente um afastamento dissociativo da realidade percepcionada pela classe média – praticamente o único sector da sociedade que frequentava tais cerimoniais.

Estes sinais de irrelevância / cacainização e dissociação poderia marcar o instalar da desagregação, mas não. O palácio de cristal não o permite, contém a desagregação em movimentos aleatórios de pouca amplitude e limitada repercussão até ao seu limite.

O drama da Lusitânea é que este movimento browniano das grandes esferas no palácio pode aprisioná-la num espaço cada vez mais exíguo.

Nestas alturas, uma raposa audaz que tenha comido um pouquito para reagrupar algumas das suas minoradas forças consegue encontrar uma saída satisfatória, se for uma raposa desorientada, confundindo em demasia o desejo com a realidade, muitas aves vão morrer para tão pouco proveito e no seu desmando pode perder o tempo necessário para o leão chegar. Aí a luta tem sempre o mesmo desfecho.

Meu caro amigo AVL, tem você um coração de leão?

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Uma resposta a Quando o segredo é irrelevante e o cerimonial já não atrai espectadores a desagregação não está já instalada porque o palácio de cristal não o permite

  1. António Vieira Lopes diz:

    Caro Gerardo, não há dia em que não faça a mim mesmo a mesmíssima pergunta. Bem, admito que haja uns dias em que a pergunta não me ocorre.

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