Para que serve um governo ou quando Sextus contesta Barzun: mudam-se os tempos, mudam as centralidades

Sextus recomenda a leitura de um excelente livro escrito por J Barzun, “Da alvorada à decadência”, que AVL lhe tinha recomendado. No melhor pano cai a nódoa e Barzun, depois de quase oitocentas páginas de letra miúda e enormíssima qualidade termina da forma mais desastrada, absolutamente impossível de prever. Adivinhar o futuro só não constitui melhor reservatório de anedotas já que na maior parte das vezes o afastamento da realidade é demasiado largo para o riso (ou insuficiente para o sorriso da surpresa da delirante associação). De qualquer modo, sempre se nota que Barzun acaba por revelar também uma mentalidade consolidada no ambiente socializante do palácio de cristal, o que daria a oportunidade a uma réplica póstuma de Spengler a Barzun. Se Barzun acusa apropriadamente Spengler de conferir alma à história, Spengler poderia retorquir sobre as incoveniências para o espírito da emigração que tudo parece permitir e nada impossibilitar.

Na já pouco cristalina Lusitânia, mas ensonada como há centúrias nos habituou, algum movimento irá processar-se, inevitavelmente. Demasiadas telhas reclamadas pelos credores vão ter que ser removidas da cristalina abóbada por pagar, de modo que algum vento da história acabará por, desordenadamente, redispôr a mobília restante do palácio.

Até agora, ainda sob protecção a inércia permanece, apenas se fazem algumas reduções, muito exigidas, da ementa, resta ainda leitão (javali extinto há algum tempo) muito do agrado dos orientais pela superficial semelhança com o pato e porco lacados, ainda se serve algum champanhe, cortou-se ao espumante, ao vinho frisante e ao pacote das batatas.

 Entretanto, o cozinheiro já não tem a incumbência de reduzir às gorduras, escondidas ou esquecidas nuns casos, noutros revistas nos magníficos espelhos das feiras e comícios populares.

As reformas estruturais na Lusitãnea aguardam pela chegada de alguém com estrutura, por exemplo alguém como Barzun, mas menos dado a entusiasmos, mas a pequena elite lusa continua a insitir em alguém demasiado igual á média das massas, cautela tola, as massas já não querem espectáculos da feira popular, querem elas ser o própio espectáculo e para isso ou as deixamos à solta num recinto apropriado ou recorremos a alguém capaz de evitar o desastre da cacofonia grupal, sem cultura nem recursos para uma cacainização apresentável.

Sextus, para correr os mesmos riscos de Barzun também vai especular com o futuro, que como é de costume chega muito devagar, aos soluços e incertezas. Quando tem de vir em momentos de contracção, o futuro costuma apelar ao que o passado de mais consistente pode apresentar. Nos povos que sobrevivem para contar o passado do seu futuro, uma das mais robustas e repetidas lembranças é melhor dita em francês, até por atenção à natalidade de Barzun: on n’est mieux servi que par soi-même.

Transferido para aqui (uma pequena ironia de Sextus com a grande ideia do passado recente, a ciência de translacção), dos vários erros de desenvolvimento da Lusitânea, um dos mais graves foi o projecto da criação de um núcleo que atraísse investimentos físicos e grupos de alta qualificação a Lisboa, única candidata, diziam, a poder competir nessa primeira divisão de cidades do futuro. Tudo isso falhou, a capital apenas assiste à translacção – recuo de recursos para outra centralidade mais cerca do núcleo europeu, Madrid. O investimento feito em Lisboa é responsável por uma fatia muitíssimo importante do nosso descontrolo financeiro, habitada por uma clientela que se julga merecedora de rendimentos que não sustenta e que continua a exigir farinha e ovos sem limite para confeccionar as suas maravilhas pasteleiras.

No futuro da Lusitânea, vai talvez constar um passado de desagregação do norte e de metade do centro do resto do país. A nação portuguesa, por completa descrença no futuro vai querer reescrever um passado recente, o seu cimento é muito menos sólido do que se pensa, o seu passado demasiado rarefeito.  Outros caminhos podem ser trilhados, mas são difíceis de encontrar quando vários emplastros em frente á câmara nos tolhem os passos, balbuciando sons ininteligíveis e repetitivos, rasgando risos desmemoriados.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s