Para que serve um governo: para os governados o controlarem

PPC deu uma entrevista este fim de semana e afirma, e bem, que as actuais dificuldades são da nossa responsabilidade e não têm origem exógena. Excelente, embora seja sempre útil ser sempre um pouco mais claro.

Os erros que cometemos foram feitos a vários níveis mas alguns são mais importantes que outros.

Primeiro erro, o comportamento tipicamente de manada dos bancos que consistiu na aplicação de fundos e empréstimos no que tinha menos risco e mais lucro, com o habitual leque de fenómenos desviantes. Financiar auto-estradas entre aldeias e vilas pode ser bom durante algum tempo, mas não muito. Financiar compra de posições dominantes de empresas que são sobre-valorizadas por esse apetite que induzem pode ser bom se houver capital próprio para financiar actividades futuras dessas empresas mas pode ser muito mau se não o houver. Financiar a construção de casas durante algumas décadas pode ser bom se os salários forem sólidos e a taxa de emprego baixa, pode ser péssimo no oposto e mais ainda com ofertas tolamente deslocadas da procura.

O que deveria acontecer se fóssemos realmente liberais, incluindo os que de tal se reclamam, é que os bancos que cometeram essa imprudência deveriam abrir falência e fossem substituídos por outros novos ou que não tinham sucumbido ao comportamento da manada. O maior risco sistémico não é a falência mas o desvio de impostos dos contribuintes para resgatar o que deve deixar de existir.

Uma das fraquezas da teoria liberal económica é que recorrentemente apela à mobilização de recursos para minorar os eventuais prejuízos dos caminhos desastrados escolhidos pela manada. Se há “animal spirits” que o seja para quem o quer e não imposto a quem não o quer. Sextus acredita no risco moral e na destruição criadora, a história é uma colectânea disso até que apareceram os liberais das finanças que apenas partilham essa crença de forma descontínua.

Acreditar descontinuadamente numa teoria pode constituir uma vantagem competitiva formidável, particularmente se a assembleia for desatenta ou desprovida de qualquer poder de impôr as leis que tinham sido acordadas no início do jogo. Obviamente, pensar que poderemos chegar a um estadio em que as regras acordadas vão ser sempre seguidas deriva da crença e não da experiência.

O segundo maior erro radica numa união demasiado estreita entre os governos lusos e o mundo financeiro, permitindo spreads generosos que já há décadas motivam a gargalhada geral dos banqueiros congéneres europeus (e a satisfaçaõ dos empreiteiros que decoram a granito, madeiras e mármores a mais insignificante agência do mais recente banco) e lançando concuros sem qualquer ou reduzido risco sempre atribuível aos contribuintes, para não falar nas parcerias público-privadas em que só pensar que o estado irá vigiar o cumprimento do acordado daria a mais irresolúvel insónia a qualquer indivíduo agraciado com uma dose residual de senso.

O terceiro maior erro radica na nossa tristemente conhecida incapacidade para gerir, ordenar por prioridades, antecipar, ver um pouco para além do dia de depois de amanhã.

O quarto maior erro também emerge da reduzida postura de serviço, seja a nível da função pública seja a nível privado. Infelizmente, o ditado de pobres mas honrados está por provar, pelo contrário o nosso carácter de povo do sul, colectivista e deresponabilizado tolera bastante bem o engano daquele que não vê – Sextus não partilha da crença que os anglosaxónicos ou os germânicos, como dizia Tácito, sejam povos mais honrados, isso foi uma inteligente construção dos interessados e se há diferença só o será para os povos escandinavos, talvez por milénios de vida em perigo a reclamar comportamentos de reciprocidade e fiáveis de grupo (basta ter lido Swift para perceber o que Sextus escreve).

Sendo assim, os vários governos falharam quer pelo que fizeram, quer pelo que permitiram e estimularam. Será que nos vamos emendar?

Claro que não. Sextus não acredita que o risco moral seja reposto, que Schumpeter seja mesmo levado a sério. Aquilo que nos resta de eficaz é a imposição aos governos de menor captação dos recursos voltando aos níveis de há cinquenta anos em que os orçamentos públicos dos países avançados do ocidente andavam por volta dos 20% do PIB.

A esperança de Sextus é que com a diminuição das benesses do estado social os governados se interroguem para que servem os governos: para serem controlados.

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Uma resposta a Para que serve um governo: para os governados o controlarem

  1. Jorge G. Pereira diz:

    Muito bem Sextus! Depois do colectivismo Comunista, depois do Socialismo e Social-Democracia mais ou menos liberais só nos resta….um a mandar e os outros a obedecerem!

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