Portugal, um local de fingidores em permanência ou de convição em convicção até à renúncia final

Na véspera de mais um feriado da abrilina revolução o balanço da história recente confirma os balanços de períodos prévios. Se a narrativa nunca se repete a sua transfiguração é sempre mais pequena do que poderá parecer. Os problemas variam com o tempo, é verdade, mas há como que uma essência que se espalha subjacente, Pareto captou isto e depois talvez tenha exagerado nas cores.

Há trinta e tal anos fingimos que iríamos viver muito melhor sem as terras ultramarinas e em parte tal poderia quase ser verdade, mas só em parte que como sempre trai o todo. De facto, a consciência da dificuldade em garantir a sustentabilidade quando restritos ao território do continente já data de centenas de anos.

Depois fingimos que iríamos conseguir acrescentar qualidade e quantidade após a adesão ao clube dos ricos, que ainda por cima se animaram um pouco ao notar finalmente que tinham vizinhos que se entusiasmavam pela perspectiva de atingir o seu satus quo. A nossa entrada na CE coincidiu com o fim de um período baptizado de euroesclerose. Esta regressou a toda a brida, depois de um interlúdio de meia geração de ilusões. O progresso na quantidade teve a mesma saída que o fontismo, para muito pior em resultado do maior investimento feito à custa de créditos financiados no exterior. A subhalternidade face ao exterior é agora maior do que na bancarrota de 1890.

Como qualquer povo infantilizado, vivenciamos a ilusão de que tudo se irá consertar em breve após mais uma reviravolta nos poderes centrais. A leve descolagem desse sonho vai sendo feita com avanços e recuos, quer proclamando o regresso aos mercados quer, em contraponto, reconhecendo a renegociação da dúvida como inevitável.

Iluidimo-nos com a ideia de que tudo se resume essencialmente às finanças e à economia, que de verdade constituem uma parte e não o todo da história até descobrirmos as consequências de a elas nos limitarmos.

Iludimo-nos ao idear que temos um governo quando beneficiamos apenas de gestores do pouco que há e do muito que temos a pagar mas para o qual já perdemos a capacidade.

Iludimo-nos, alguns, ao acalentar que esta crise vai catalisar uma mudança mais profunda porque necessária, esquecendo que apenas estamos a revisitar, para pior, a segunda metade do século XIX.

Iludimo-nos ao pensar que temos recursos para a cacainização quando apenas dispomos do suficiente para um empobrecimento algo controlado.

Iludimo-nos em persitir na crença que a Europa das formas generosas ainda mexe quando apenas estrebucha no leito da obesa abúlica.

Ainda vamos arrastarmo-nos durante algumas décadas até à curva seguinte da história. Ainda não chegaram os actores, apenas assistimos aos passos sem destino dos que preparam os adereços, enquanto que outros vão ficando com o dinheiro dos bilhetes que se vão vendendo, já prontos para fugir.

Quando na maior potência mundial se atribui dinheiro a Andorra por se pensar que esta fica algures em África e sofre as agruras de uma guerra e nada acontece, verdadeiramente o espectáculo ainda não começou, ou então pior, muito pior, os espectadores já não são homens. Nos tempos de incubação da crise, muitas coisas extraordinárias podem ocorrer.

Neste tempo de deconstrução dos modelos gastos, o palácio de cristal ainda aguenta a entropia dos movimentos brownianos, a fractalidade é a única progressão observável. O estado foi capturado, a sua função reguladora transmutou-se em gestão de enganos, os financeiros concluiram a sua obra de abolição das fronteiras.

Na realidade, nunca como agora se percebe que a aceitação da diferença não vai ao par da indiferença aonde chegámos mas donde vamos saír em breve, se algo restar.

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