Tempos difíceis, além de não se saber (poder) o que fazer também não se sabe o que dizer, ou quando a ausência de governância, a forma natural da história, se torna embaraçante no virar no leito de Clio

A preocupação com o bom uso da palavra é contemporânea do nascimento da mesma e a complexidade do vocabulário só a veio tornar mais exigente. Como em toda a actividade humana, o mau emprego de um método, abastardando-o, pode conferir uma apreciável vantagem competitiva. Na realidade, todos estamos conscientes que a violação da regra é uma contrapartida e um risco corrido por quem ambiciona destacar-se.

Quando percebemos que trilhamos narrativas muito frequentadas e abundantes em saídas interpretativas tentamos capturar a leitura de quem nos vai ler. Um dos tratados mais controversos sobre política, o Leviatã, Hobbes, nas primeiras dezenas de páginas esforça-se por ensinar-nos sobre a leitura das palavras mais importantes numa tentativa (sempre frustada entre os homens) de delimitação dos significantes.

No tempo actual da novilíngua tal cuidado foi abandonado por impossível. Nas curvas da história, por definição, o discurso está profundamente dissociado da experiência, quer de forma involuntária por incapacidade de realinhamento com o desconhecido, quer de forma voluntária como modo de ganhar tempo pelos representantes (que não verdadeiramente ocupantes ou obliterantes) do poder.

Apesar da extensa lista de Hobbes não consta lá austeridade nem crescimento, os dois sons mais acefalamente repetidos pelos vários oficiais dos governos da generosa Europa.

Honra seja feita ao Sr. Rajoy que ontem foi quase convenientemente preciso. Austeridade não tem nada a ver com o viver com aquilo que se tem, este modo de vida apenas poderá reflectir a boa dose de sensatez e de rigor que deveriam ser inseparáveis de quem administra algo, mais ainda estados, especialmente em situações onde estão ausentes ajudas dos próximos e nem se vislumbram apostas de certo retorno para chamar outros muito distantes. Austeridade é sinónimo de rigor frugal ou adesão estreita a disciplina, que na maior parte das situações deverá gerar ou um bom superavit ou pelo menos um modestíssimo saldo positivo.

Crescimento também não foi definido por Hobbes mas certamente ele não o entenderia como a reacção de uma organização produtiva após uma variável diminuição da sua capacidade, a isto se chama uma recuperação que pode ser mais ou menos parcial e que em casos felizes consegue uma hipercorrecção pós contracção. A triste repetição sobre injectar dinheiro para as redes transeuropeias de comunicação, sobre as energias renováveis e sobre a qualificação dos recursos humanos ignora olimpicamente que os capitais (neste modo liberal de passar fronteiras) se dirigem para os lugares mais rentáveis, nenhum deles personificados por essas escolhas. Começa-se a perceber o entusiasmo que a menina Ângela nutria pelo nosso engenheiro.

Não há a menor hipótese de crescimento para os países europeus com excepção daqueles que ainda consigam relações preferenciais e vantajosas com países em crescimento fora da europa. As trocas intra-ocidente nunca poderão escorar uma retoma fatalmente comprometida por um desemprego muito alto e por uma constante perda da percentagem salarial do PIB. O crescimento para o emprego é realmente uma frase patética quando se percebe de que é que se está a falar.

Mas tudo tem um preço e qualquer económico liberal deve perceber que se um conjunto de países passa a privilegiar trocas económicas fora desse agrupamento as forças que o cimentam terão que ser razoavelmente sólidas, dito de outro modo, culturais.

A pergunta que se faz é qual é a similaridade e património cultural comum entre um alemão e um português, entre um sueco e um espanhol, entre um francês e um grego. A história e a cultura mostram-nos cristalinamente quais são as potenciais associações transnacionais na Europa e Portugal não é candidato a nenhuma.   

A hora da Europa está a chegar ao seu fim e tal é um bem, será a única via ainda compatível com a dignidade humana, a alternativa mais antecipável parece, sombriamente, a divisão pelos três agrupamentos orwellianos.

No que Portugal diz respeito, seria inteligente que PPC e os seus ajudantes falassem o menos possível e tentassem (Sextus sabe que é muito difícil) realizar algumas das reais reformas que são importantes. Se se ativerem ao documento troikiano, praticamente nada de importante será conseguido, basta ver a nulidade quase perfeita das inúmeras medidas que os jornais anunciam mensalmente como cumpridas. O plano A troikiano só é viável durante pouco tempo. O plano B tem que estar preparado para voltarmos a trilhar a continuidade dos caminhos que desenhámos.

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Uma resposta a Tempos difíceis, além de não se saber (poder) o que fazer também não se sabe o que dizer, ou quando a ausência de governância, a forma natural da história, se torna embaraçante no virar no leito de Clio

  1. Ana diz:

    Ainda acredito na Europa.
    A austeridade e o crescimento podem ser incompatíveis. Porém, o desenvolvimento necessário ao crescimento, no atual contexto, requererá uma profunda catarse cultural, uma radical mudança de paradigma, que encontrará terreno fértil na adversidade.
    Não é por acaso, que ás guerras têm sucedido períodos de crescimento económico. Esperemos que a nossa consciência coletiva impeça esta ameaça a uma escala maior. Ainda assim, travamos uma guerra económica, contra inimigos invisíveis, que são os mercados e que é feita por todos nós. É feita pela descrença em nós próprios e pela descrença dessa Europa com fundos nacionalistas. Bastaria uma vontade e uma palavra em uníssono e todos os problemas da Europa estariam resolvidos. Essa palavra mágica chama-se federalismo!
    Naturalmente, que seria necessário reformular a orientação da produtividade ou em alternativa baixar o custo do trabalho nos países menos competitivos, como Krugman defende. Urge compensar de alguma forma a impossibilidade da desvalorização cambial.
    Na minha modesta opinião parece haver sinais neste sentido. Os salários na Alemanha já aumentaram cerca de 6,5% e os nossos pelo contrário continuam a descer. Se os germânicos tolerarem alguma inflação interna, o caminho provavelmente será menos penoso para os países em dificuldades.
    A subida da taxa de desemprego, sendo uma catástrofe, a curto prazo levará á descida do preço do trabalho menos diferenciado. Em consequência o emprego subirá e a produção tornar-se-á mais competitiva. A seguir virá o crescimento…assim não haja inflação!

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