A redundância ou quando a biologia dá uma mão à política

Alguém que partilhe com Sextus a formação médica está capacitado para apreender as virtudes e necessidades da redundância. O modus operandi dos organismos vivos assenta promordialmente no bipédio da redundância e da escassez. Pode até especular-se que a redundância foi essencial para a evolução (não a selecção natural) que sempre foi confrontada com um dos efeitos laterais, o agravamento da raridade. A escola da selecção natural, apesar de todos os seus méritos, radica nos “whisful thinkings” habituais nos anglo-saxónicos, que inerentemente suscitam adesão independente de não resistirem a perguntas mais duras: a selecção natural desde o início dos tempos implica a parceria de determinantes ambientais selectivas fortes, algo de todo improvável na fase sincrética e inicial, essa sim promotora por definição de redundância.

Uma célula oscila continuamente entre estes dois extremos. As sociedades também e talvez tenha ficado demasiado removido para o segundo plano o papel constitutivo da redundância na construção de alguma liberdade – a liberdade absoluta é um contra-senso, quer no plano conceptual quer no domínio operativo

A organização política das sociedades deriva de algo muito essencial e logo opaco e obscuro, o desejo de agregação, que causa sempre redundância. Qualquer que seja o sistema, se as condições e regras operativas forem estáveis e os nutrientes suficientes, ele perdura, caso contrário adapta-se ou morre – um grupo de biólogos muito produtivo cunhou a frase modelo de funcionário público para os sistemas celulares que morrem quer por competição para os nutrientes quer por falta de interacção com outros sistemas, a morte por negligência ou abandono.

A organição social e económica ao longo destes séculos também se pautou por níveis elevados de redundância que possibilitaram graus apreciáveis de liberdade. O contra-ponto da redundância é o centralismo político ou industrial, teoricamente avesso à redundância.

Uma das manifestações mais exuberantes da redundância foi a emergência do sector dos serviços. Nem todos mas uma grande fatia desses serviços constituem bens da absoluta discricionaridade, facilmente eliminados em situações de raridade. O discurso sobre o futuro da sociedade dos serviços é outro “whisful thinking”, também anglo-saxónico como de costume e naturalmente já que foi esse mundo que melhor aproveitou recursos naturais e avanços tecnológicos, muitos feitos localmente, outros ainda por aquisição de modelos ainda no início e sem capacidade de crescimento autónomo. O melhor exemplo dos recursos naturais data de há cinquenta anos quando as “Cinco Irmãs” controlavam 80% das reservas mundiais petrolíferas.

A organização financeira ocidental também se apoia na redundância e nos ganhos derivados da antecipação da raridade – também beneficária da já referida pulsão para a agregação, com o maior dotado de superior atractividade que o mais pequeno.

Convém voltar atrás e exteriorizar o que está implícito na vantagem da redundância – a superior segurança e maior capacidade em evitar o aniquilamento.

Quando uma sociedade percepciona que o preço a apagar pela redundância é incomportável pelas restriçoes derivadas da escassez entra numa fase de grande instabilidade. As células contornaram em parte os gastos da redundância via autofagia de constituintes que iriam de outro modo ser eliminados e que passam a ser reutilizados. 

A Europa está a chegar a uma dessas fases. A competição com sistemas centralizados, com uma redundância muito diferente está a ser fatal para parte dessa Europa. Mesmo as zonas mais ricas e mais produtivas – e que em boa verdade merecem em grande parte a situação em que se encontram, com a ressalva que a actividade de empréstimo sempre constituiu uma activiade de risco, logo o antecipável é que sofram as perdas de quem pouco tino teve em emprestar – devem rapidamente perder a ilusão sobre o que as espera. Não havendo dinheiro para Mercedes e Míeles haverá para coisas parecidas oriundas de Hanói, Xangai ou Bangalore.

O estado não podendo satisfazer os múltiplos convivas da mesa só tem uma alternativa, a diminuição apropriada do que taxa. As associações que se vão mostrar incapazes de conferir maior segurança só tem a dissolução como destino.

Esta crise pode ser a melhor oportunidade para o desmatelamento dos vários conglomerados de tudo e mais alguma coisa, construídos sob a égide da vantagem da redundância, mas incapazes de limitarem a sua gula, não a conseguiram emparelhar com a raridade.

(É uma pena a contaminação das teses do Tea Party pelos habituais extremistas dos movimentos primitivistas a quem, convenientemente, a imprensa dá imenso relevo, chegando-se a pensar se são ultra-puristas ou infiltrados, que não pelo Silva Carvalho).

A autofagia devia sensatamente derivar para uma norma: os estados não podem ser autorizados a contraír dívida junto de estrangeiros, só aos nacionais.

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