Miscelânea: da Esfinge, via Stendhal até Wolf, Porter e Crato até chegar a Bollywood ou como inovar no penteado após o corte de cabelo

A Lusitânea continua impávida e serena, pronta para discutir tudo aquilo que não importa, percorrendo a estrada até deparar com a Esfinge. Não será fácil encontrar povo tão leve, tão omnívoro, tão despaladado, tão gargantuesco.

É verdade que a ambiência de curva da história se instala por todo o ocidente, mas há que lembrar que a maior mudança que o ocidente sofreu desenrolou-se durante séculos, esta será mais rápida mas perdurará certamente por décadas – sem dar demasiado crédito, Sextus tem que citar O. Spengler que predizia a mudança para o século XXII.

O Independent de ontem reflectia sobre o enorme descrédito em que se afundava o regime parlamentar britânico, isto num jornal e num povo pouco dados a ciclos de euforias e depressões e mestre na arte da publicidade ao que fazem. Só em Portugal, o mais leve e cacânico dos países – ou será o mais avançado no caminho orwelliano – não se dá qualquer relevância ao problema LIBOR/Barclays/Banco Inglaterra, como entidade reguladora (Sextus recusa-se nestes tempos a empregar a palavra escândalo e vai reflectir sobre a melhor alternativa para nomear “entidade reguladora”).

Wolf do FT veio dizer uma parte da verdade, mas só uma pequena parte, a crise europeia não é o resultado da dívida soberana mas da crise financeira. Não será bem assim, a crise depende da evolução da história da relação oeste-oriente, muito apimentada pelos fogosos banqueiros que não deixam de tentar fazer dinheiro com o que quer que seja, já que asseguraram que as “entidades reguladoras” lhes permitem o jogo de azar e lhes franqueiam mais as fronteiras que às ondas hertzianas, como há pouco se dizia.

Ontem Porter veio a Lisboa e disse algumas coisas interessantes – é pena que não lhe tivessem dado ouvidos há vinte anos, mas um povo leve não lê relatórios, ouve sopros ao ouvido. Uma delas, talvez a mais importante, foi lembrar que conseguida a realização do pacote de austeridade fica por fazer muita coisa e que salários baixos não são sinal de competitividade mas do seu contrário.

Chegámos agora a Crato – há um ministro neste governo e ele não faz comentários sobre os seus colegas porque não os tem. Os resultados das provas de avaliação do ensino secundário motivou-o para o único comentário acertado e já conseguiu que pouca gente o conteste.

Durante um tempo parecia que tínhamos outro ministro, de nome Gaspar, mas não temos. Vamor perceber que este homem é um realizador de cinema, da escola de Bollywood. Quando em Setembro-Outubro for impossível negar o rotundo fracasso da execução governamental, apesar dos cortes sofridos por alguns (no que a Sextus respeita, conjugando cortes e aumentos de impostos, o dito corte de cabelo está entre 35 e 40%), mas sem que nenhuma reforma tivesse sido feita a não ser aos olhos dos funcionários troikianos e seus chefes, chega a hora de projectar a barata produção de Bollywood. Vai ser cantada  e dançada a excelente música de que fizemos tudo, que o público gosta de nós e que vai ajudar estes artistas em apuros. Aparecerão críticos musicais e de cinema a louvar tamanha película musical e a ditosa pátria (que pátria, se já não é minimamente independente)  pedirá bis alarvemente à espera do qual será o novo penteado a aplicar à rala cabeça.

Como diria Stendhal, nas monarquias absolutas corre-se o risco de depender das intrigas das criadas de quarto, nas repúblicas democráticas torna-se necessário perder o dia a falar com lojistas e corre-se o risco de ficar tão estúpido quanto eles – sem ofensa aos lojistas, mas com a vénia devida ao escritor.

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