Na curva da história e por definição os governos falham cumprindo a sua natureza ou quando Sextus envelhece Swift

Se Emerson tivesse razão seria fácil recuar e perceber a origem das nações e dos governos, mas neste ponto ele não tem. No fundo ele não se apercebeu de uma contradição major no seu pensamento, o eu totalizante não consegue ocultar a influência do contexto, coisa que ele aliás reconhece mas não deriva a plenitude das inerentes consequências.

Por razões que nos escapam mas que provavelmente são muito recentes na evolução animal, temos tendência para o agrupamento e por outras ainda mais obscuras, quando pretendemos uma coisa queremos sempre mais, neste caso o desejo de agrupamento busca sempre a maior reunião possível de indivíduos. Tem sido fácil vender a ideia que quanto maior melhor, muitas vezes associada ao caminhar para a unidade. Desde criança somos induzidos a sonhar com o governo universal, todas as religiões fundam-se nesse desejo e refinaram-se com a a eliminação da paternidade múltipla pelas religiões monoteístas. Nos últimos anos, foi-nos vendido o sonho europeu embelezado pelo estado social e como socialistas que somos, apesar de não o pensarmos ou conscientemente ratificar, abençoámos esse objectivo.

Algures nesta evolução milenar surgiu o governo.

Ao contrário dos tratados mais citados, devido à influência redutora anglo-saxónica que nunca conseguiu construir, praticamente, nenhuma teoria sistemática, com a excepção mal sucedida de Russell, que além disso era irlandês, logo celta mas criado nos primos do lado, o governo não assenta na procura do bem comum mas na tradução da força de alguém ou de alguns. A transferência de poder da nação para o governo não segue os trilhos escritos no Leviatã, segue as forças animais da força e da superioridade da inteligência. A força impõe-se e depois refina-se e como diria soberbamente um pai de um amigo meu a política consiste primordialmente na arte de fazer o outro obedecer.

A principal vantagem do governante, diria mesmo função, é a criação de taxas para a sua manutenção pessoal e do grupo que quer para seu sustentáculo e legitimação.

Com o desenvolvimento das sociedades a justificação para a criação de taxas foi sendo alargada e o governo foi citando em seu apoio a busca da coesão social. Com a criação do estado social observámos dois fenómenos muito relevantes, a desresponsabilização das massas, prometendo-lhe o aconchego em situações limite e a emergência do governo como empresa.

Estas alterações foram-se desenvolvendo com a maturação e invasão do mundo financeiro em todo o sector produtivo, depois governamental. A criação do estado social permitiu outra derivação muito imprevista, a associação de um maior consumo com a perda da percentagem dos salários no produto final, mais clara desde o fim dos anos setenta no ocidente, especialmento nos EUA. O estado social permitia não pensar no futuro e manter o crescimento sem um movimento paralelo dos salários. O mundo financeiro tinha completado o círculo, capturou primeiro o comércio marítimo, depois a grande produção industrial, finalmente os diferentes estratos da classe média e no fim o lúmpen (que depois foi compactado com a classe média nos célebres produtos financeiros). O “big brother” passou a ter mais uma máscara para além da referida por Orwell, o cartão de crédito que acasalou com o mito necessário do crescimento contínuo.

Nesta evolução fomos lentamente interiorizando que ao estado cabe quase tudo, o crescimento, o controlo e menorização das catástrofes, a resolução dos solavancos da viagem do mundo.

No início da curva a que vimos chegando percebemos com horror que nem a força desse tigre estatal consegue atenuar a força centrífuga da história. Desde o falhanço no controlo dos desastres naturais, vide Katrina e inundações na Rússia, incapacidade para fazer a guerra, lembre-se o recurso a mercenários pelos EUA para as sucessivas guerras nos últimos anos, a incapacidade na justiça com o recurso a escritórios de advogados para tudo e mais alguma coisa, passando pelo falhanço clamoroso de qualquer entidade supervisora, as principais funções que imputávamos ao estado estão á beira da grande erosão e colapso, não de forma verdadeira mas apenas cumprindo o seu devir e por isso, o discurso da incapacidade do estado vai ao par com o aumento dos impostos sempre sem fim e sempre com a promessa de descida no futuro próximo, logo que as condições estejam reunidas.

Aquilo que os governos nunca reconhecerão é que nunca na história aquele que causou o problema foi capaz de o resolver e se para muitos (infelizmente menos do que seria de esperar se a actividade humana obedecesse primeiramente à racionalidade) aquilo com que deparamos, mais do que a falência de um modelo trata-se antes de tudo de incompetência misturada com ganância, para outros e particularmente para quem detém o poder não é essa a questão nem nunca poderia ser.

Para se resolver com a maior eficácia e desperdício a actual crise ocidental era necessário negar certos pressupostos que constituem, hélàs, o cimento do grupo que controla a situação.

Esperar que o estado saia ordeiramente da maior parte da actividade económica, que faça a reforma da justiça e do mundo financeiro é esperar o impossível.

Só a brutal necessidade poderá mudar este estado de coisas mas ainda não chegamos aí, ainda há pão e circo e os espectadores já estão a ser treinados para serem eles os actores.

Não há leões, comam-se uns aos outros, diria um Swift romanizado.

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