Sextus propõe uma redução no número das raposas e dos “castrati”

Acabou a “silly season” , continuam os “silly times”.

A incapacidade em lidar com a crise do modelo da sociedade no ocidente é compreensível e segue monotonamente a norma de épocas passadas. As sociedades foram lentamente empurradas para o palácio de cristal e esperam que o estado apresente soluções, ora essa não é nem nunca foi, historicamente, a função do estado. O estado administra a violência ou de forma mais suave, a “pecking order” e lança impostos para a sua manutenção e enriquecimento, se possível, dos ocupantes das primeiras posições da lista. A isto deve-se juntar que as sociedades nunca reconhecem o muro aonde vão ter de inverter o processo e precisamente uma das funções do estado é a ocultação desse muro.

O neosocialista Zizek elaborou uma razoável descrição da sequência das várias fases porque passam certas sociedades ao depararem com a crise, espelhando a procura de sistematização dos tempos presentes. Stendhal discorreu sobre o mesmo tema a nível humano e de micro-sociedade, de uma forma aparentemente mais superficial mas também mais agradável.

De qualquer modo, Sextus partilha da opinião que o sucesso da construção destes teoremas é muito pobre, apenas temos tendência a esforçarmo-nos por neles acreditar e lhes prolongar a vida. Doutra forma, recorremos a uma reinvenção do antigo, os neo- qualquer coisa, sempre amparados pela busca da delimitação do quadrante a atingir, englobante e exclusivo.

Sextus já aqui declarou a sua consciência do maior perigo potencial do cepticismo, quase que lhe é inerente, o primitivismo, enquanto que os neo-qualquer coisa estão sujeitos à atracção dos extremismos de direita e de esquerda. Uma outra classe de pessoas mais dinâmicas e confiantes, embarcam em processos de reificação, o caso actual dos neoliberais.

O neoliberalismo brota realmente muito fora do tempo. Se é certo que apela a muitos princípios a que Sextus adere, parte de um pressuposto avesso a qualquer céptico, a construção do homem novo ou a redescoberta dele que, desgraçadamente, estava debaixo de más influências (os neoliberais são algo semelhantes aos maoistas e mais distantes dos estalinistas, os primeiros acreditavam ou diziam acreditar mais na capacidade de reeducação ou desocultação do bom debaixo da pele do mau – por alguma coisa alguns deles tiveram essa origem). Não é de admirar que o neoliberal esteja tão aderente á realidade como qualquer outro ismo e quando a realidade não cavalga a ideia, ela própria já  (neo)formada pela conceptualização é porque, finalmente, não compreendemos a realidade.

O neoliberal actual acredita nas entidades reguladoras ou de notação apesar do falhanço atrás do falhanço das mesmas, o neoliberal proclama que o estado é ineficaz a gerir mas magistral a vigiar a concessão, o neoliberal leu  Schumpeter mas só aceita a destruição criativa até ao nível do pão quente da esquina, o neoliberal leu Smith mas defende o mercado regulado pelos conglomerados financeiros e industriais que não são a mão invisível mas o sussurro inconfessável. O neoliberal confunde a vantagem competitiva com a informação priveligiada. O neoliberal já espreita o “tittytainement” mas quer aumentar a duração da semana do trabalho. O neoliberal não leu Montaigne, Hamilton, Bagehot, nem a comissão Pecora. O neoliberal não leu, reescreveu.

Esta fase de transição ainda sem qualquer saída viável vai perdurar o máximo possível, talvez ainda duas gerações até que um choque ocorra, o militar, o mais comum quando o império tentar uma afirmação definitiva de domínio, ou civilizacional, talvez resultado duma penúria energética.

Nesta transição, os periféricos são arrastados para a indigência histórica ou vivencial, enfim são concessionados com avaliação pelos tomadores da concessão, obviamente – onde é que nós já vimos isto na monótona e repetitiva Lusitãnea-cacânea, olhem talvez seja uma boa razão para ir ver o último filme de Manoel de Oliveira.

Estas transições são também o tempo das oportunidades, o regabofe das raposas, bastantes destrutivas na sua voracidade, cujos feitos e fundamentos serão celebrados e cantados pelos “castrati” – realmente um coro de cépticos, para além de impossível por definição, soaria átono e disrítmico comparado com a doce tonalidade dos afinadísimos “castrati”.

Enfim, nada de novo, mas Sextus receia que lançar a dízima numa sociedade insolvente e esfomeada para sustentar o actual número de  raposas e cantores pode ser ineficaz e até arriscado, mais ainda quando a dízima já vai na meia. A grande reforma que se pode esperar é a exportação de alguns destes exemplares, garantindo boa música.

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