O país de servos administrado por funcionários está imune aos colapsos ou Gaspar revisita a ilha da Páscoa

Dizem com alguma frequência a Sextus que o actual governo deixou de poder cumprir a sua missão com o aprofundar do fosso que separa o desejo do vivenciado, com a dúvida instalada pelos fracos resultados do que para alguns já constitui uma austeridade significativa. Sextus discorda, este governo tem cumprido bastante bem a sua função, sua e de qualquer outro governo, o lançar impostos e redistribuir recursos. O episódio infeliz mas ilustrativo das fundações só pode confundir quem não conhece história.

Os que pensam o contrário reclamam pelo cerimonial governativo ausente, pela abstinência missionária em anunciar objectivos, planos, reformas e tutti quanti. Estão provavelmente errados e a idealizar um povo e um governo inexistentes. Não há na história exemplos interessantes de reformas contraccionistas globais, essas mudanças ocorrem de modo mais ou menos suave quando uns são susbstituídos por outros mais adaptados ao novo contexto. Quando a contracção é global como a presente não se vislumbra ninguém com energia e capacidade para liderar, apenas se apercebe a dinâmica da luta pela melhor posição para colher aquilo que ainda de bom resta.

Desde há cerca de cinco séculos que a Lusitãnea tem sido conformada por uma sucessão de derrotas, humilhações e consequente empurrar para uma periferia que nunca deixou de forma consolidada. O resultante mal-estar nacional impregnou um povo de cultura heterogénea mas em grande parte constituida pela amálgama do pessimismo celta e do desestruturado moçárabe.

Um povo assim é extraordinariamente resiliente, termo dos preclaros gestores, já agora que se aproveite alguma pequena coisa do seu incessante e destrutivo labor.

Um povo assim não conhece colapso nem redenção. Um povo assim não se arrepende, confessa-se e esforça-se por enganar-se e evitar a confissão que enganou ao confessar-se.

Um povo assim não se administra nem elege governos, está muito avançado no tempo, recebe instruções dos funcionários superiores e intermediários mas como qualquer servo odeia-os e não acredita neles. Um povo assim não visita o espelho.

Os funcionários realizam-se ao chegar a essa posição e não podem por definição aspirar a mais. Mesmo aqueles que gostam de poder aparentar outra postura mais independente acabam por revelar a sua dimensão quando repetidamente desvalorizam os seus servos, reflexo indirecto da sua insuficiência. Esses funcionários essencialmente revisitam continuadamente os seus colegas do castelo kafkiano, muitos já perderam a memória de quem servem, a outros nunca foi revelado. A um capataz de uma tribo de indigentes e analfabetos resta-lhe a cerveja e a algazarra, resta-lhe Bucareste, a Paris dos Cárpatos.

Num povo diferente, particularmente onde ainda se pudesse encontrar senhores, a discussão actual já teria chegado à conclusão que a melhor alternativa seria a saída do euro e da UE para poder reinstituir as fronteiras. Mas tal como aderiu á UE e ao euro sem saber ler nem escrever também agora não consegue encontrar a porta de saída e se a encontrasse ficava á soleira á espera que alguém lhe desse um pontapé ou pegasse nele e o metesse dentro.

Só um povo de servos é que pensa que os outros o vão ajudar, esses almoços grátis só ocorrem em tempos de vaquinhas muitíssimo obesas que produzem leite e manteiga sem destino. É verdade que ser funcionário superior de um senhor rico é melhor do que sê-lo de um senhor pobre e quando se ambiciona apenas ser duque a visão de um rei mal vestido não entusiasma.

O futuro anunciado da Lusitãnea está muito mais claro que os modelos do ministro Gaspar, a decadência tão decadente que já nem um colapso consegue gerar.

A dúvida é se teremos uma Libéria revisitada na ponta sudoeste da Europa das formas generosas ou uma América andina, pobre, rarefeita e anestesiada, não por cocaína mas pela droga televisiva e afins.

Os limites da realidade são sempre mais largos do que a imaginação tal como terá sentido aquele que abateu a última árvore na ilha da Páscoa.

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