O triunfo do Outono ou quando o tempo desacelera, as gorduras pingam ao lume enquanto o kebab vai sendo cortado

Uma das frases mais repetidas afirma a aceleração da história e do tempo, depois de se ter assumido o nonsense do fim da história. É mesmo uma das sentenças mais consensuais, mas como de costume a moeda tem duas faces.

Emprestando a Mandelbrot, a porção terminal pode ser subdividida em múltiplas fracções e no caso da trajectória de um despiste, a última parte antes do embate decorre, ou parece, a velocidade lenta, mais lenta do que durante a fase de trajectória controlada.

Esta fase da crise europeia e mais particularmente da sua face meridional não vai ser caracterizada por uma aceleração, a menos que entre de verdade num modo completamente descontrolado.

Sextus já aqui referiu o enorme interesse e proveito do mundo financeiro no arrastar da situação. Estes últimos três anos possibilitaram sólidos proveitos para a banca e deram tempo para azular, pelo menos parcialmente, as colunas rubras de investimentos quase tresloucados e falidos. Lentamente as imparidades vão decrescendo.

Ao mesmo tempo a narrativa da potencial catástrofe que se afasta pelas medidas tomadas associada ao controverso sucesso / insucesso das mesmas contribui para a desorientação das massas previamente destituídas de querer pela vivência do palácio de cristal. A conveniente oscilação política e a percepção / comunicação da errática qualidade dos utentes do poder fecha a abóbada do impasse. Como é intuitivo não estamos numa fase de besonha de governos cortantes, mas de administrações que saibam fatiar.

No caso particular da Lusitãnea há que lembrar a sua cacanização em curso, o seu fundo de nevoeiro denso, a sua infantilidade saltitante avessa a associações causais mas filha das opções casuais.

O aprisionamento voluntário da Lusitânea sob as ordens da Europa das formas generosas já teve várias fórmulas nos últimos séculos, todas de necessidade e de sucesso esperado, nem mais nem menos na sua magnitude. Os periféricos nunca ganham estatuto de paridade mas podem sempre carregar os seus senhores para paragens que eles melhor conhecem mas que nunca conseguiram dominar.

A continuidade da inclusão da Lusitãnea no corpo em decomposição europeu ainda não se questiona com a dimensão que poderá atingir algo mais adiante. Ainda não se apreendeu que se a culpa é inteiramente nossa, o comportamento irracional dos mercados ajudou para atingir a dimensão que se conhece da desgraça e a perda da moeda torna a recuperação não mais que um pio desejo, próprio de crentes mais ou menos fanatizados e não de homens de acção e do leme. A bizarria da moeda única com um banco emissor e central submisso a vontades compreensivelmente diferentes só se aguenta em tempos de prosperidade, nunca em tempos como os actuais. Uma moeda única com taxas de financiamento tão díspares é um oxímoro.

A certa altura a melhor opção que resta ao periférico é arrancar-se do conjunto que o torna tal. Neste momento a pertença à CE é um fardo, não um alívio, com a excepção daqueles que ainda conservam o poder, aqueles capatazes cujo tempo ainda em jogo não lhes permite acalentar chegar à praia depois do afundar do navio. Assim e tal como acontece muitas vezes ao longo da história a s administrações constituem o travão decisivo antes do embate que impede sempre qualquer mudança séria; quem trava não muda, tenta conservar.

Ainda não chegou o tempo daqueles que nascidos da bomba demográfica que nos vai condenar vão apreender-se como o kebab pingante e sempre fatiado, obviamente de fora para dentro. Ainda não se avista o ferro, mas ele está lá.

O que Sextus ainda não percepciona é se vai haver uma reacção antes do kebab chegar ao ferro ou se vai ser possível consumi-lo quase todo. Como se sabe, nada é eterno, tudo se gasta e tudo se transforma. Mas pedir que se substituam os capatazes por líderes senhoris isso já é uma coisa para além das fases oníricas de Sextus; os vendedores do kebab são isso, são vendedores e cada um conforma-se com a sua natureza.

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