Nestes tempos de manipulação dão-se alvíssaras a quem consegue vêr claro ou quando o medo de Ramos se junta à jubilação de Gaspar

É sabido que o raciocínio humano não se apoia fundamentalmente na lógica nem sequer numa digressão iterativa sobre dados que vão sendo coleccionados. Aparentemente tal consiste numa fatalidade da construção do nosso cérebro, para poder funcionar de forma útil trabalhamos não numa enorme rede de matriz puntiforme mas com recurso a grossa fatias. O nosso cérebro para não cair repetidamente em bloqueios recusa o carpaccio, adopta o corte mirandês da posta.

Nestes tempos de acordar da história a competição é feroz pelas melhores esquinas onde se faz a algazarra para manipular e agregar o maior número possível de apoios. Também a capacidade de dizer e fazer acreditar nas maiores bizarrias é valorizada maximamente. Com o advento da multiplicidade de canais, o conteúdo passou a ser ainda menos importante, a forma e o tipo que assumem os primeiros momentos da mensagem é decisiva.

O debate actual na Lusitãnea reflecte isso em vários sectores e torna-se muito difícil perceber se estamos em face a arautos do que quer que seja (são pagos para isso), de preguiçosos que não fazem o trabalho de construir uma boa fundamentação da sua tese, de personalidades dotadas de capacidades muito medianas que não conseguem melhor blindagem para as suas incoerências ou de neos qualquer coisa, vagamente aparentados com anónimos qualquer coisa que nasceram outra vez e que perigosamente parecem acreditar naquilo que dizem e que fazem. Há gente para tudo, são a riqueza da história.

Duas pessoas chamaram a atenção de Sextus nestes últimos dias, Rui Ramos e Vítor Gaspar.

O primeiro parece acreditar que a Europa ainda tem muitos e bons dias na sua forma actual, talvez tenha lido Fukuyama em demasia. A história deste continente nunca foi uma narrativa coerente ao contrário da propaganda das últimas décadas. Há de facto várias Europas com diferenças suficientemente grandes para impedir o nascer do desejo da união. A tese que alguns defendem de uma anemia volitiva que convidaria á agregação amorfa não é validada em vários pontos, a maioria, do continente, começando logo pelos nossos vizinhos e continuando por todo o lado com a excepção provável do par franco-germãnico e do eixo oco do Benelux. Mais decisivo, a reintrodução da escassez de recursos vai abolir o que ainda restva da postura bovina de agregação só porque sim, os malhados vão descofiar dos castanhos, que não gostam dos cinzentos nem dos rosados mais ou menos esbranquiçados. O futuro previsível, se o houver, é de divisão não de submissão a um centro mais ou menos totalizante, seja em matrículas, em diâmetros de fruta ou na colecção de impostos. Aliás, se houver essa tragédia da unicidade europeia será para termos um futuro à altura dessas monotonias, desses sóis perseguidos e ofuscantes, voltaremos à sociedade que se organiza em torno dos costumes e que não tolerará a dissensão. A Europa de que Rui Ramos quer a protecção para evitar que a Lusitãnea seja um país do outro mundo não existe, apenas foi vivenciada nas elites internacionais europeias que se deterioraram tanto e  que de senhores se transformaram em mais ou menos educados capatazes e funcionários ao serviço de um projecto global social-financeiro que só poderá substituir a perda do social com a degradação e animalização do futuro exército de su- empregados, sub- humanos errantes e alucinados, sob férreo controlo. O Portugal de outro mundo que Rui Ramos receia é ultrapassado pela ficção de uma Europa de mundo nenhum.

Vítor Gaspar é um caso mais complexo. Sextus ainda não percebeu se estamos em face de um funcionário diligente que obedece fielmente aos seus patrões da grande banca europeia, se está, ao contrário do que muitos dizem muito mal preparado, ou se é um voluntário neo qualquer coisa a prestar serviço na associação de devedores anónimos que não estão muito seguros da sua reabilitação.

A tese repetida de que estamos no bom caminho e que em consequência disso em breve retomaremos a direcção desejada é difícil de classificar como louca, manipuladora ou própria de quem nada percebeu tal como qualquer bom funcionário que pensa que conhece o seu patrão, mas está enganado.

O problema financeiro português não tem solução neste quadro em que o ocidente se prepara para entrar num período recessivo por muitas e boas razões, a principal sendo a evolução demográfica e o desemprego estrutural moderamente alto nalgumas regiões e muito alto noutras. Esta recessão mandantaria que o país devedor tivesse em conjunto com medidas de austeridade, isto quer dizer essencialmente descida acentuada nas importações, acesso a capital a juros suficientemente parecidos para poder exportar em competição com outros oriundos de regiões mais capitalizadas. A deflacção que alguns economistas agora defendem como solução é verdeiramente espantosa por incoerente e por não passar pelas confrontações várias a começar pelo caso da economia japonesa que patina já há cerca de vinte anos nessa deflacção apesar de ser ajudada pela sua localização na zona do globo que mais cresceu nesse período e principalmente pela dívida japonesa estar nas maãos de nacionais; caso essa dívida tivesse sido comprada por internacionais os nipónicos estariam em sérias dificuldades.

Gaspar nega o que vê e o desastre de 2012, onde sem força política ou sem engenho profissional, se desperdiçou a grande oportunidade da disposição nacional para tentar mudar alguma coisa, não chegou para tentar encontrar outro caminho. Gaspar talvez acredite que baixar os salários e aumentar os impostos dê lugar depois a um período de crescimento mais ou menos sólido preferindo ignorar que tal nunca existiu em nenhuma sociedade e que os poucos exemplos em que tal se fez foi operado em países em desenvolvimento, essencialmente América Latina, que nunca tentaram competir em fronteiras abertas com produtos de capital intensivo mas que apenas tentavam recuperar a sua capacidade de fornecer bens básicos e pouco mais. Talvez seja isso que Gaspar ache possível para a Lusitânea depois de alguns anos a ver passar os comboios em frente à estação de Frankfurt. 

Não há futuro sustentável sem saída do euro e da CE para poder fechar as fronteiras. O que vem aí não é um projecto europeu dinâmico, quando muito vem aí um directório de desconfiados onde quem se senta na melhor parte da mesa se irá desenvencilhar, os outros terão a parte que resta que será servida na cozinha onde não se ouve as conversas da sala.

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