Quando as finisterras são onde tudo acaba e de onde tudo foge e não de onde melhor se parte

Continua o desenrolar mais ou menos manipulador da crise europeia e lusitana. Seriam tempos que, se existisse outro tipo de homens, poderiam ser vividos com a inclusão de Cronos mas os tempos modernos pretenderam abolir quer o tempo quer o espaço.

Um dos confrontos mais interessantes é o que se regista entre o ponto de vista anglo-saxónico (e interessantemente também incluindo o asiático) e o estilo indo-europeu continental, o primeiro vive em coabitação desde há dois séculos com a banca e o crédito respaldado nos lucros futuros, o segundo mais afastado da banca e nada crente nos proveitos a vir.

Sextus recomenda um revisitação do desenvolvimento dos bancos na Inglaterra e na Europa do continente durante o século XIX, onde se percebe bem estas diferenças bem traduzidas por uma riqueza similar se comparamos os três estados mais importantes, RU, França e Alemanha nascente mas a profunda desigualdade de depósitos bancários entre os três, com uma enorme quantidade de riqueza escondida e retirada do circuito nos estados continentais em comparação com a crescente alavancagem nos bancos ingleses.

Nestas últimas décadas houve um acumular muito importante de capital que fatalmente pressionou as administrações dos estados para conseguir a maior desacoplagem possível entre ele e o trabalho já que o local onde era acumulado já não tinha capacidade para o aplicar. Claro que este movimento estava inscrito desde o início, o que foi mudando foi a amplitude dessas transferências.

Uma outra consequência dos tempos modernos foi a dificuldade das sociedades em conter a lentidão dos processos de recuperação pós-crise. No século passado com a pequenez e lentidão do movimento de capital, uma crise financeira numa região não se acompanhava de uma fuga importante de capital para regiões não atingidas, hoje tal acontece muito rapidamente. Nem sequer estamos preparados para tolerar a velocidade lenta das recuperações das crises saxónicas de 1892, 1906, 1929 em que o desemprego cinco anos depois da crise tinha mais que triplicado em comparação com o tempo da eclosão da depressão. 

Uma outra dificuldade adicional foi o desenvolvimento das aplicações puramente financeiras que emparelhadas com a informação priveligiada gera maior riqueza para alguns que a aplicação desses recursos financeiros na indústria. De certa forma, Wall Street pode tornar-se quase autista e apenas negociar intra-portas e sobreviver apenas com o jogo de transferência de riqueza lá dentro sem reflexos na “Main Street”.

Uma das condições para a manutenção desta sociedade a viver dos lucros futuros é um permanente crescimento demográfico e uma razoável inflação. Ambas estão em perigo, a primeira de forma definitiva em todo o mundo com a excepção da África e a segunda em travagem acentuada que apenas será interrompida pela pressão sobre o abastecimento de energia e eventualmente de produtos alimentares. Só que já se descobriu há muito tempo, que uma subida de preço dos alimentos gera essenciamente pobreza porque uma grande parte da população sente necesidade de atribuir cada vez maior percentagem dos seus recursos financeiros para a alimentação levando os outros sectores para uma depressão.

Ous seja, há vários indicadores para apoiar a tese de que esta crise é diferente das ocorridas nos últimos cem anos.

A Lusitãnea-cacânea tem reagido a esta involução de acordo com a triste tradição. Apertamos o cinto, fugimos para outras paragens até podermos alargar novamente uns furos sem mudar nada do que tenha mais contribuído para a crise. Faz-se alguma redistribuição dos lugares à mesa mas verdadeiramente o menu continua como sempre. Com o tempo o poder dos terratenentes foi involuindo e o desenvolvimento tecnológico e as necessidades de capital quase que aboliu os capitães de indústria substituindo-os por furrieis de sub-contratantes. Fomos assim criando uma  elite portuguesa-cacânica que  repudia a independência, sonha pesadelos em assumir o controlo real do estado, descansa com o consolo da chegada do professor severo, realizará o ditado resignada com algumas, poucas, reguadas que apanhará por erros na escrita mas esperançada na passagem tangencial do costume.

Outros mais iludidos jogarão a habitual estratégia, fazer quase todo o mal numa vez e presentear o pouco bem fracionadamente, mas desta vez os ensinos de Nicolau não parecem ser os mais necessários e há que lembrar que esse velho amigo acabou bastante mal, os humanos toleram mal a inteligência.

Nada disto pode ser mudado. Ainda teremos que aguentar as reguadas e similares até podermos sair da escola europeia, isto se quisermos medrar. O grande risco é que, também desta vez, a crise lusitana seja diferente, será a última de um país abandonado aos velhos e mais incapazes que já cumpriu a sua função na história humana.

Seremos a finisterra de um continente, não já o patamar para partir para o mundo novo mas sim o sítio de onde se vai para lado nenhum.

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