Sextus presta tributo a Barzun e junta-o a Janus depois de passar em breve por Hazlitt ou como seria grande conseguirmos “fazer parecer”

Morreu ontem Jacques Barzun aos 104 anos de idade, um dos grandes historiadores deste tempo. Sextus conhece mal a sua obra mas leu um dos seus últimos trabalhos onde o declínio do ocidente neste últimos quinhentos anos é revisitado. O livro é excelente e recomendável o mais possível.

A tese de Barzun é francamente diferente da de Spengler, os dois homens gozaram vivências tão diferentes que se tivessem produzido argumentos similares seria realmente muito interessante.

No caso de Barzun, o declínio do ocidente não seria explicado pelas derivações do cientismo ou do absolutismo mas por uma crise interna da própria civilização que terminava na celebração do niilismo e da rebelião.

Sextus não partilha desta opinião. O niilismo está presente há muito mais séculos do que comumente é considerado, a sua importância embora inegável tem sido bastante exagerada. O papel da rebelião na história é ainda muito menor, há muita confusão entre pequenas descontinuidades sociais e económicas e o conceito de rebelião. Verdadeiramente, talvez tenha havido muito poucas rebeliões e quase todas estão associadas a credos religiosos. A muito citada rebelião francesa não o foi e por isso os seus resultados foram rapida e facilmente integrados, a soviética foi-o e como não triunfou viu todos os seus objectivos apagados com a sua derrota. As rebeliões quando triunfam mudam de forma prolongada várias características da organização humana.

O declínio do ocidente tal como Sextus o vê é provavelmente muito mais profundo e  mais delimitante de uma fronteira na história humana do que se possa pensar.

O que está a ser posto em causa como sustentação do edifício civilizacional é o “fazer parecer” de Hazlitt que tinha conseguido repelir para a penumbra a diferença mais ou menos acompanhada de qualquer superioridade fragmentária ou o também muito ocidental “como se” profano, não sagrado, abafado pelo palácio de cristal onde predomina o eco da razão cínica de Sloterdijk.

Estas duas praxis, no fundo as duas faces da moeda comunicacional, estão a ser afogadas pela incontrolável maré da globalização que está a produzir muito mais efeitos do que os que foram avançados pelas pessoas do sector económico. É curioso que esses economistas, quase todos liberais e encartadamente críticos da abordagem marxista acabam por se comportar mais marxistas que o próprio – será que isso explica um pouco o comportamento totalitário social-financeiro dessa classe de economistas, sempre acobertados por uma declaração de amor ao liberalismo, Hayek, Schumpeter e colegas mas repudiando-os o mais vincadamente possível depois de terem descoberto que o mundo viveu a sua primeira aurora há muito, muito tempo e nunca mais lá irá voltar, e nisso mostram ser mais atentos que os seus relamados mestres.

O derivado mais importante da globalização é a desumanização de vários pilares civilizacionais, não se torna já possível lidar com as influências e sinais que a crescente rede consegue gerar. Estamos em face a uma monumental fadiga em face das solicitações de valores, regras comportamentais, produtos múltiplos anunciados por uma informação à beira da catástrofe e do colapso.

Seria como uma animação cinematográfica da queda de roma onde os seus cidadãos assistiriam à queda em dominó de todos os deuses para onde se recolhiam em corrida apressada.

O desafio da globalização é superior à capacidade racional humana, apenas é compatível com ela desde que forçando a padronização e o estreitamento da sua exteriorização. A globalização é a irmã gémea do totalitarismo, mais atraente, mais rica exteriormente mas muito mais oca no interior.

A globalização é a bolha civilizacional.

O grande perigo destes momentos de crise profunda é o surgimento das raposas em grande número, capazes de enganar, prontas a tudo estragar para devorar o que lhes faz falta e apetece, sabedoras que o que ficar não lhe diz respeito.

A globalização emparelhada com a habitual voracidade humana e temperada com a incompetência secular na administração pode produzir um desastre de amplitude dificilmente antecipável.

Se recuperarmos o “como se” temos que apostar na compartimentalização humanizante da sociedade, da economia e da distribuição dos estados. Sextus não pretende cristalizar o que sabe ser temporário, afinal a organização política da Europa, da América e da Ásia tem sofrido variações consideráveis ao longo de períodos até curtos, basta recordar as mudanças verificadas nos dois últimos séculos, um breve momento histórico, mas a promessa / ameaça da união tem tudo para constituir uma tragédia.

Fosse a Lusitãnea uma nação com um passado de orgulho e liderança adequados e este era uma bom momento para assisademente recuarmos nalgumas opções e voltar a trilhar caminhos que já conhecemos. A liberdade de nos governar não devia ter preço.

Mas este “como se” também está tragicamente vetado. Mas nada mais nos resta de digno de continuar até talvez chegar a conseguir “fazer parecer”.

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