O cisne negro, a corrupção e a incompetência ou a tragédia anunciada do Ocidente

Sextus tem labutado com alguma persistência contra a manipulação da informação, actividade tão antiga quanto a fala e muito mais velha do que a escrita. A manipulação é mesmo própria da natureza do homem, a nossa consciência nasceu gémea do limite da racionalidade e da percepção em grossos fragmentos, os entes entre todos favoritos da manipulação.

Tal como o mundo da inteligência artificial que até agora tem sido ajudado por uma aproximação à reprodução do sistema orgânico, a evolução dos motores de busca na internet assume que a limitação é o melhor aliado da exequibilidade da tarefa e da rapidez aceitável. Os motores de busca quase que reproduzem as pulsões e configuração do cérebro humano em actividade.

O conceito do cisne negro vai beber a essas águas alimentadas por um sistema de rios com autonomia parcial embora interdependentes. Como se sabe, basta a visualização de um cisne negro para terminar com o postulado que todos os cisnes são brancos.

Esta semana da eleição do presidente americano reavivou o debate sobre os seus desequilíbrios público e privado. Há muito exagero nalguns comentários, o que aconteceu aos USA é habitual com todos os estados dominantes ao longo da história, mas como é usual, nada se repete verdadeiramente.

Esta semana foi também notícia que o estado do Rajastan solicitou aos seus habitantes, em particular aos residentes na grande área de Jaipur, para restringirem o alívio das suas necessidades fisiológicas ao perímetro doméstico e intra-muros. Em paralelo com esta realidade, o Rajastan, não sendo um dos estados mais dinâmicos da Índia, possui várias universidades competentes, com milhares de jovens com capacidades profissionais algo similares à dos americanos. Isto é uma novidade que entre sociedades tão diferentes possa haver alguma interacção sem ser através da guerra militar e o que estamos a vivenciar é o fim do sonho, vendido com má fé por quem o construiu, que podia haver este tipo de conexão – outros têm preferido nomeá-la como globalização, termo algo enganador e desajustado na opinião de Sextus – sem conflito. Há guerra, embora de outro tipo, mas até mais destrutiva como fim a perseguir do que noutras onde apenas se tem comoobjectivo a contenção do inimigo, fazendo-o recuar, temeroso mas salvando a face.

O debate sobre o défice americano leva muita gente a olhar para o seu vizinho do norte e descobrir que lá , por exemplo, o rácio da dívida pública sobre o PIB anda à volta dos 26-27%. O Canadá, se alguma diferença apresenta no que respeita ao estado social por comparação com os USA, é ser maior do lado norte do rio S. Lourenço. Este número é o cisne negro do argumentário mais simplista que a crise ocidental é o resultado do estado social, falácia conveniente.

O estado social tal como está irá obviamente falir com a geração que nasceu na década de 50 e 60 do século passado, ou seja, nos próximos vinte anos, mas não nesta altura. Nalguns países particularmente bem geridos e com uma sociedade ainda estável e não suicida como a dos países meridionais que apresentam graves défice de renovação geracional, até poderá ser adiada esta falência. A criação do estado social foi feita primeiro, por estadistas que viveram um século XIX rico em progressos e optimista no progresso mas também abundante em eventos militares, logo disruptivos das sociedades mas depois, como é natural a criação escapa sempre ao criador,  foi apropriado pelo mundo financeiro que inteligentemente nele viu o seu aliado natural para a sociedade do crédito. A ironia da evolução histórica é que na altura em que cada vez mais o mundo financeiro controla a sociedade e muito disso através precisamente do crédito, os potenciais devedores estão, compreensivelmente, cada vez mais refractários a contrair créditos no futuro e sofrem pesadelos com os negociados no passado, ou o cirrótico que quer beber mas o seu fígado já não o deixa ingerir as abundantes quantidades que no pretérito lhe permitia generosamente, já não metaboliza o álcool, nada é como dantes.

A crise neste momento ainda não é o resultado do estado social, ainda não é o resultado da crise da sociedade do palácio de cristal, este ainda aguenta mais algum tempo, é mais uma crise do jardim infantil com meninos e meninas travessos e por vezes bastante cruéis e que foram escapando à aprendizagem da consequência das suas decisões, não tomaram conhecimento do risco moral.

A crise actual é o resultado de uma mistura de incompetência e corrupção com o desbaratar de recursos financeiros com baixíssima taxa de renumeração incompatíveis com aquela que o mundo financeiro ainda exige – por exemplo, a falácia de que o crédito do empréstimo da troika é muito bom quando esse país não apresenta claramente condições para obter renumerações equivalentes, a dívida auto-alimenta-se.

A incompetência é-nos difícil aceitar neste grau. Continuamos a querer acreditar que “eles” não são incompetentes, têm uma estratégia, atribuímos-lhe planos de desenho complexo e ilegíveis para os amadores menos íntimos dos corredores da governação. Infelizmente é a confusão habitualmente gerada pelo “whisful thinking”.

Por amor à verdade, Sextus vai transcrever um pequeno trecho do grande  W.Hazlitt escrito por volta de 1825, contemporâneo do fim da primeira fase do nascente controlo do sistema financeiro:

“Talk of mobs! Is there any body of people that has this character in a more consummate degree than the House of Commons? Is there any set of men that determines more by acclamation, and less by deliberation and individual conviction? – that is moved more en masse, in its aggregate capacity, as brute force and physical number? – that judges with more Midas ears, blind and sordid, without discrimination of right and wrong? The great test of courage I can conceive, is to speak truth in the House of Commons.”

Bom fim de semana, encontramo-nos junto ao Muro das Lamentações onde verdadeiramente ninguém aprende.

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