O mito de Sísifo escrito pelo FMI e PPC e revisitado por Sextus que avança um epílogo ainda desconhecido, aleluia

Na última semana Sextus encontrou pelo menos duas referências ao mito de Sísifo o que pode traduzir um estado de espírito partilhado por alguns. Acontece que muito maior que Sísifo é Janus, tal teria que ser sendo um humano e outro deus.

Peçamos ajuda ao divino deus das duas faces e façamos mais do que uma leitura do mito.

Uma, talvez a primeira que os cacânicos lusitanos estarão a fazer, espelha a angústia de executar uma tarefa sem fim, de infernal recomeço, de nula progressão – o homem do ocidente, mesmo o cacânico está possuído pelo gene da progressão, espalhado como nunca desde que uma fêmea insaciável coabitou com uma manada de touros. Lendo o sumário do relatório do FMI, sem segundas leituras, também deparamos com outro texto, cheio de letras pequeninas, habituais nos ditados dos credores, onde se antecipa uma eventual repetição do processo ao afirmar que os erros de alocação de recursos do passado podem muito bem repetir-se no futuro logo que o financiamento volte a processar-se a juros menos usurários – aqui Sextus realça que a apreciação feita pelo FMI de que os juros do empréstimo são baixos é muito elucidativa da posição que o capital financeiro conquistou nas últimas décadas, agora o lucro deixou de estar associado ao risco, o lucro está ligado ao poder. O risco do empréstimo do FMI é quase nulo já que controla completamente a aplicação do mesmo, incluindo a aquisição dos montantes dos juros que definiu, ainda por cima confortado por estar a emprestar a um país que não emite moeda, enquanto que o mercado secundário corre o risco de ter de acreditar no FMI, risco bastante grande tendo em conta o histórico da instituição – diga-se desde já que os documentos do FMI têm uma tal riqueza de contradições que parecem ser ditados por Janus, embora a subtileza seja indigna do divino duas caras.

A segunda leitura da lenda que Sextus propõe acaba por ser um derivado da que Camus avançou há mais de setenta anos. Os deuses definiram a tarefa daquele modo não só para prolongar a punição de Sísifo mas também para o proteger. Se lhe fosse possível terminar a tarefa, Sísifo sofreria uma dura surpresa, depois do cimo da montanha não há nada de diferente e o lado poente desce de forma abrupta até à linha de base, ou seja, os deuses nada tinham a oferecer excepto o cenário da ilusão – o espectáculo sempre acalmou Cronos que só tinha um olho.

Chegamos a PPC, personalidade que Sextus ainda não enquadrou minimamente, há que reconhecê-lo. Quando PPC afirma que o orçamento da CE é inaceitável acredita no que tem de dizer e não percebeu que se vai aproximando de uma curva histórica – é verdade que não será ele a fazê-la, se o fosse refundava não o estado social mas o estado, enfim acabemos com estes delírios que ficam inaceitáveis em escrito, apenas se toleram em tertúlias vivas – ou vai cumprindo fielmente e sem falhas o seu papel de administrador- delegado de uma nação em significativo processo de ajustamento até aquilo que os outros idealizam como o nosso devir, com justiça, recuperando o desempenho das últimas décadas?

Sextus vê como muito pouco provável o surgimento de uma elite lusitana revigorada e principalmente adulta. A actual, depois de frequentar o décimo segundo ano do secundário cacãnico e iniciado a licenciatura na universidade de cristal do mesmo palácio e que engloba, mas não só, a classe política, já escolheu o modelo, o seu objectivo consiste na manutenção de algum poder derivado da posição de mandantes do centro europeu, que será sempre á volta do Reno, já não ambiciona a propriedade, condição necessária para a liberdade, apenas procura o ordenado e os prémios.

No fundo, a visão que constrói um mundo muito global, com três a quatro centros de poder, megaestados cuja propriedade foi capturada pelo mundo financeiro, de forma directa ou indirecta, com uma super-elite de muito ricos, onde alguns políticos conseguirão filiar-se, outra elite de altos funcionários, onde estarão quase todos os restantes políticos, uma massa de 10-20% com alguma ocupação razoavelmente renumerada e os restantes, depois de algumas décadas de estupidificação crescente, componentes da grande plateia do tittytainement, anafados, esclerosados, com diferentes tempos de latência para o riso, para o vómito e para a morte.

A elite que seria necessária teria que saber que para escapar à periferia um país pequeno como a Lusitãnea só o pode fazer negando o núcleo, tarefa mais premente quando se antecipa que o grupo cimentado sobre esse núcleo se vai desagregando e os outros fora deste sistema deixam de percepcionar como mais-valia a pertença a esse conjunto. Isto será talvez um período curto, depois da primeira onda separatista o núcleo irá reclamar a sua força dominante e poderá ter sucesso durante as décadas que restam a este mundo tal como o conhecemos.

Depois da destruição, talvez tudo se repita, com algumas diferenças.

Seria o epílogo nunca escrito de Sísifo. Um dia em que os deuses estavam adormecidos por tanta monotonia absurda,  o homem conseguiu empurrar a pedra até lá cima, de onde viu o deserto e pouco mais, igual ao que habitava. Surpreso, a pedra escapou-lhe das mãos e caíu estrondosamente no vazio, desfazendo-se em mil pedaços. O barulho acordou os deuses, que furiosos, logo ordenaram a Sísifo que juntasse todas os fragmentos da pedra – desta vez, sempre que Sísifo estava prestes a concluir a reconstrução, ela desfazia-se sob o seu peso, o cimento usado para a agregação era fornecido pelos deuses.

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