Os gregos não aprenderam nada com Tucídides, os lusitanos não o fizeram com Fernão Lopes, ninguém aprende com ninguém, acumulamos erros e sucessos, tão somente

As situações de grande instabilidade são, por definição, muito mais enriquecidas em diversidade do que aquelas que gozam de grande estabilidade. Claro que a percepção da instabilidade requer uma narrativa da mesma.

Uma tendência dominante que atravessa o discurso dos políticos nestes períodos é a recusa de uma narrativa concordante com a situação, um dos paradoxos interessantes da história humana, quando se poderia exigir maior precisão na descrição da realidade é quando a opção pelo pensamento mágico e discurso  dissociativo se torna mais evidente. A primeira regra consiste na sua negação e ao mesmo tempo proclamar o seu contrário. Certamente que há um grau de tolerância para a dissociação discursiva mas nem sempre se consegue defini-lo. Por outras palavras, à pergunta, podem os “factos” ser mais retorcidos sucede sempre a resposta afirmativa. Na realidade, o comportamente europeu durante esta crise é o mais normalizado possível, o que aparenta ser uma exibição de incompetência decisional nada mais é do que a governância na sua essência, quase sempre junto à quase inexistência – o pensamento zen ou o seu primo mais equilibrado, o taoísmo são muito mais pragmáticos e compreensivos do que os festivos dos anos sessenta pretenderam reinterpretar.

Outro a priori consiste na assunção que perante a divergência de interpretação do que ocorre os agentes em interacção deverão recorrer ao maior grau possível de racionalidade até atingir um ponto de encontro aceitável. A clareza da análise exige pois que se saiba quem é quem está representado nas negociações para se poder antecipar aquilo que pode ou não ser aceitável. Na história humana, a distância que separa os representantes na negociação do grupo de onde emanam é muito variável. Nas últimas décadas, no ocidente, convencionou-se que os negociadores emanam da maioria, mas as convenções valem o que valem, muito ou pouco consoante as circunstâncias. 

As últimas notícias sobre as linhas orientadoras da fase que se segue na crise financeira grega (e europeia) são bastantes interessantes. As negociações aparentemente encerram mas ainda não estão acabadas, de facto. Aquilo a que se chega no dia anterior não é satisfatório para nenhuma parte de modo que o processo continua e o jogo não tem fim. O tamanho daquilo que está em causa atinge uma dimensão que impossibilita perceber o que pode ser um bom resultado.

No século da grande informação dita em tempo real e da grande devassa emerge como nunca a crescente opacidade da cortina separadora do palco da plateia. Quem paga o bilhete tem muita dificuldade em perceber se assiste a uma comédia, a uma farsa, a uma tragédia ou a uma má peça de um incompetente dramaturgo. O que a plateia sabe é que desempenha um papel que não quer, nem  Ajax forte mas repetentista e pouco inteligente, nem Pátroclo impreparado, nem Aquiles fortíssimo mas bloqueado, isolado e suicidário, nem Agamémnom, chefe não plebiscitado e cornudo, todos destinados a morrer com Heitor que cumpre o seu destino e sabe que deverá morrer, ele também.

Todos querem ser Ulisses, mas só até certo ponto.

Nesta peça o argumento tem ainda actos muito desiguais no seu valor e na sua mimetização do real.

O acto sobre o estado social é um fragmento importante. A Lusitãnea acaba o ano com a captura pelo estado de um pouco mais de 50% do PIB, em paralelo com o discurso sobre a necessidade de reformar o estado social. Como seria de esperar nada do que é importante pode ser dito, provavelmente ninguém o quer proferir. As perguntas a fazer deveriam ser colocadas ao estado e aos governados, a um o que planeia fazer para uma aplicação muito mais ajustada dos recursos que captura, aos outros como organizar o sistema de pensões, aceitando que o actual é incompatível com o perfil demográfico corrente e que deverá permanecer a curto e médio prazos.

 Como nota, o PIB dos EUA foi capturado pelo estado num total de 15.5%, que gastou 22.4% do PIB (daqui se depreende o enorme financiamento externo que os EUA atraem). Comparativamente, torna-se absolutamente inaceitável o valor que o estado português gasta apesar das despesas com a educação e a saúde serem iguais à média europeia e aquelas com a justiça e defesa serem só muito ligeiramente superiores.

A pergunta de Gaspar aos portugueses de quanto estão dispostos a pagar deverá ser melhor substituida de quanto tempo o governo necessita para se aproximar dos níveis de eficácia de utilização de recursos que captura.

Um bom exemplo foi avançado hoje pela ministra da Justiça ao comentar as dificuldades na comarca de Chaves, reconhecendo que mesmo depois da reforma que pretende implementar, a cacânica Lusitânea ficaria com um número de tribunais de primeira instância 5x ao existente na Suécia, país com igual número de habitantes e maior área de dispersão da população.

Se os representantes políticos lusitanos estivessem a obedecer primordialmente a critérios de racionalidade o debate do estado social seria feito com alguma inteligência, mas este pedido é em si mesmo quase irracional, algo a que Sextus resiste facilmente.

O milagre que acalenta consiste tão só no cumprimento do desastre de modo a não tornar de forma duradoira a Lusitãnea uma irrelevância ainda maior, ou seja, mais claramente que consigamos evitar a infeliz diluição na Europa onde nunca nada mais seremos que criados e capatazes.  (A congénita malformação do euro talvez seja a ajuda final de que precisamos).

Os que nos representam a eles pertencem mas pode ser que a única boa consequência do acidente inevitável seja a assunção de outros com maior amor à independência e liberdade, já os tivemos, basta reler Fernão Lopes a discorrer sobre a divisão nacional que então ocorreu.

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