Um pouco de racionalidade e uma descida ao pormenor, completamente inúteis numa sociedade que apenas quer surfar, não quer ir a parte nenhuma

Segundo a imprensa, tão atenta ao pormenor inútil, há 20 anos foi enviada a primeira mensagem sms e tal teria marcado de forma mais clara o início do mundo da simplificação, da repetição, da anulação do que se chama comunicação. Diz-se tudo, se Sextus disso fosse adepto complementaria o texto em qualquer facebook ou similar para informar que tinha “postado”.  

As dificuldades por que passam o sul mais atrasado da Europa, a Lusitânia incluída, só raramente têm induzido reflexões globais e propostas interessantes, compreensível à luz quer dos que erraram e que continuam a controlar a governação, seja aqui seja noutras regiões da Europa ou do mundo e como era inevitável, quer à luz do saltitar satisfeito e atolado da geração sms que já nem consegue prestar atenção àquilo que lhe diz respeito porque na sociedade do palácio de cristal a cacanização aproxima-se da completude.

O fio condutor da paupérima análise que nos é servida é que gastámos demais mas seria muito interessante tentar perceber bem em que foi gastado, o que é que esse excesso beneficiou e prejudicou, que problemas mais determinantes se vão levantar depois de começarmos a gastar menos.

Depois de décadas a ouvir críticas contra a abordagem tecnocrata da gestão, compreensíveis pela mediocridade da mesma que a fez objecto de uma crítica fácil contrabalançadas pela exaltação da importância da política na gestão da causa pública, há uma considerável dificuldade em perceber que, como seria aliás óbvio, mas o óbvio é sempre o mais difícil de ver, que muito do que criou a crise radica na má qualidade dos referidos tecnocratas da gestão que tem sido cronicamente trasvestida de opções políticas. Os exemplos são muito mais que as cerejas, mas enfim lembrando os que vieram à baila neste último fim de semana, a incompetência dos banqueiros que emprestaram mais de mil milhões de euros a um construtor civil para criar uma cadeia de hóteis ou os doutos parecers técnicos de políticos confortados pelos inescapáveis bancos para financiar auto-estradas do interior que seriam excelentes decisões financeiras desde que aos contribuintes lhes extorquissem mais de 50 euros por cada carro que lá passasse.

A esta mediocridade de gestão juntaram-se dois parceiros que garantiram a adesão da sociedade, mesmo daqueles que mais contribuiam com os seus impostos, a quase empregabilidade a 100% da população e a criação de uma sociedade a crédito que alimentava essa empregabilidade e que se apoiava no estado social que dispensava a necessidade do aforro. Ou seja, foi este tipo de desenvolvimento que permitiu que o excesso de capital gerado tivesse fácil re-aplicação com bom retorno, na realidade a venda de gato por lebre continuou a ser rentável para toda a gente, enfim com a excepção daqueles a quem mais era tirado para ir suportando este estado de coisas.

Contemporânea desta fase foi a transformação cada vez mais clara do estado numa empresa de serviços financiada pela classe média, que obviamente também dela retirava benefícios mas por definição não em proporção com os recursos que por força era obrigada a atribuir. Os outros beneficários mais relevantes encontravam-se entre os prestadores de serviços à empresa estado, que como seria antecipável, pagava liberalmente a esses fornecedores exteriores. Por sua vez, e num perfeito círculo, os fornecedores exteriores ocuparam todo o estado.

De certo modo, recorrendo à natureza como retrato, o estado transformou-se num rio que irrigava de forma grosseira e com muito despedício terrenos que uns tinham muito potencial para a agricultura, outros nunca produziriam nada por mais água que lá chegasse e outros estavam cronicamente alodaçados em excesso de água.

Como tudo que é vivo muda, o rio não é agora alimentado por uma nascente com débito suficiente para irrigar os agricultures neófitos que têm chegado sempre apoiados por maravilhosos pareceres técinios a confortar a bondade das decisões de alargamento ad infinitum da área de regadio. O engenheiro hidrogáfico diz-nos que vai diminuir a área da irrigação mas para fazer tal bem feito, precisa de mais água que a classe média vai ter que ir buscar ao balde da chuva que tem no quintal (entretanto a queda de chuva vai rarear…).

Na realidade ficamos com vários problemas nas mãos, os dois principais a falta de recursos no absoluto e o desemprego que se gera quando não há capital.

Num mundo mais racional os primeiros esforços dirigir-se-iam para garantir o acesso aos recursos de capital necessários para não encerrar a empresa de imediato seguidos por um plano de imediatíssima implementação de optimização da gestão desses recursos.

Mas nada disto está a acontecer porque como já se disse, para mudar de rumo é preciso bater no muro e ainda não lá chegamos, como diz Gaspar, há ainda espaço para aumentar os impostos.

A classe média vai ser reduzida a uma ínfima expressão porque não consegue parar este processo de transferência de capital. Não consegue fazer ganhar a ideia que impostos acima de 15% provavelmente nunca se justificam do ponto de vista histórico, esse valor chega e sobra para manter a coesão social imprescindível. Durante séculos os estados capturam 10% e isto numa sociedade com baixíssima eficácia produtiva. Este tipo de impostos seria universal para qualquer um ou qualquer actividade, pessoal, empresarial, financeira, qualquer, concebendo-se apenas uma distinção para os primeiros anos de vida de uma empresa – a mão invisível do mercado já não funciona, o pensamento de Smith já não aguenta as terríveis vantagens das empresas incumbentes sobre as outras, têm-se confundido as excepções com a regra porque o debate tem sido apoiado pelos dominantes instalados, como seria natural já que o acesso para o mundo da informação está perfeitamente desregulado pelos instalados.

A classe média tem quase nulas hipóteses de fazer vingar a sua defesa e menos ainda em ambiente de conglomerado como a CE ou um grande país como os EUA. A saída da CE e do euro constitui neste momento a altenaticva com mais hipóteses de sucesso para a classe média, mas com toda a probabilidade tal não será permitido, a intoxicação dos média disso se encarregará e a governância está capturada a 100% pelo capital financeiro que vai continuar a achar que pode sempre fazer maior desvio do caudal. Mais ainda, no mundo sms, mais do que nunca a classe média já tem medo de deixar o palácio de cristal e está disposta a quase tudo para não ter que crescer e saír do palácio arruinado. Ora e que melhor “piece of cake” do que uma criança receosa e iludida.

Radica aqui uma das muitas incertezas sobre o futuro, uma sociedade orwelliana quanto tempo é viável, a substituição da estatificação social com tudo o que se arrasta – a gestão das expectativas, a projecção no futuro dos esforços feitos no presente, a ambição de viajar e não só de surfar – pela ausência de outro sistema social no outro lado da ponte (e os sistemas sociais são a mentira ou aproximação á verdade que o homem exige para a sua sobrevivência) pode conformar uma crise mais violenta a médio-longo prazo do que se conheceu no passado.

Não será o receio deste tipo de involução que amedontrará as raposas, estas quando entram no galinheiro nunca cuidam de como o deixam, as galinhas aguentam, então não haviam de aguentar.

E infelizmente, os leões têm períodos de sono tão longos e estão tão desacreditados, são tão preguiçosos e tão desinteressados do progresso e tão incontidos quando se lançam na caça…

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