De falácia em falácia e do individualismo ao “franchising” ou “you say goodbye and I say hello”

Ontem muita gente pareceu ficar entusiasmada com a descida dos juros da dívida portuguesa no mercado secundário para valores abaixo do patamar Teixeira dos Santos, o que é parcialmente compreensível. Infelizmente, basta pensar mais um bocadinho e esperar outro tanto – bastou o dia de hoje – para se colocar óculos de outra cor.

Taxas de juros de empréstimo acima de 1% induzem balanços negativos na Lusitânea nos próximos dois anos, pelo menos. Se em Setembro, os mercados emprestarem a 3-4%, algo que então será considerado pelos mesmos arautos um estrondoso sucesso, esses juros irão carrear menos-valias para o país de 3-4% negativos, se se conseguir valores de progressão do PIB entre 0 e 1%, o intervalo mais credível. O discurso político é o que é mas em situação de colapso à vista é bom que haja algo de substancial a sustentá-lo a menos que se queira acabar como o cómico ministro iraquiano.

A primeira luneta escurinha colocámo-la quando hoje, ficámos a saber que a dívida portuguesa já anda à volta de 400% do PIB, com a soberana a ser responsável por um pouco mais de 120%. Já nem é o facto desta última ter subido quase 10 pontos em apenas um ano, isso seria antecipável, o problema muito mais sério é o crescimento de pouco menos de vinte pontos no que interessa a dívida das empresas e dos particulares e isto depois de ter beneficiado de condições de financiamento invejáveis, recorde-se o significativo empréstimo contraído pelos maiores bancos portugueses junto do BCE a juros de 0.5%.

Como lateralidade, a infantil declaração de Portas de que devemos tratar bem quem financia do mesmo modo os nossos pedidos soberanos de empréstimo. Tudo isto pode parecer muito natural mas não num ministro de negócios estrangeiros que se sabe ter cultura. Confessar em público a nossa gratidão para podermos continuar não é uma boa ideia.

Primeiro, porque quem pede emprestado não faz disso alarde, a razão da simpatia a este nível deve ser imputada a interesses estratégicos de dar continuidade ou de iniciar parcerias de interesse mútuo de engrandecimento.

Segundo, admitir que nos endividamos em tempo de paz torna completamente óbvio que já não podemos fazer a guerra e realmente, ministro de negócios estrangeiros de alguém que não pode fazer a guerra só no mesmo registro iraquiano. Tendo a percepção que este discurso pode parecer a muitos anacrónico, Sextus contrapõe que períodos de paz e de boa vizinhança vão a par de períodos de razoável prosperidade e duram intervalos de tempo muito variáveis e este século certamente não quererá ficar mal na história no que respeita a eventos e datas marcantes – a menos que Clio tenha falecido de desgosto depois de ler Fukuyama e Zeus ainda não tenha contratado substituto, admira com tantos deuses desempregados.

A segunda luneta escurinha pusemo-la depois de ler que não só o custo de hora de trabalho desceu em Portugal (o que aconteceu também em vários outros comparsas da comédia europeia) mas também a produtividade por trabalhador também diminuiu, desta vez só em raros casos, um deles o lusitano. Este movimento não será invertido facilmente já que a capacidade de recrutamento de competência vai diminuir em resultado da emigração e aqui, a desgraça é apenas lusa porque nem a a Espanha sofre dessa hemorragia. Repete-se a tragédia nacional da emigração em massa e em ondas que é mórbida para o país que quase que parece sofrer uma tragédia natural recorrente de que recupera depois, mas lentamente, mas sempre cada vez mais afastado do centro.

Talvez seja uma inevitabilidade tudo isto e estejamos condenados a lentamente resvalar para a maior irrelevância destes mil anos de projecto nacional embora Sextus não partilhe de leituras determinísticas da história. É verdade que a elite já não tem desejos de independência, nem coragem para tal, pelo contrário, o discurso mil vezes repetido de que não podemos sustentarmo-nos junto com o sonho europeu tem sido a sua justificação. No intervalo, toma algum bálsamo proferindo inúmeras análises da situação numa esquizofrenia nauseante do piloto que afinal nunca está ao leme do barco em viciosa rota espiral depressiva.

Como diria Gil, quando há inscrição é ao nível do discurso que logo é visto como desafiante coragem sem limites, se alguém se lembra de tocar a corneta, muitas vezes já nem para a cernelha dá, metem-se todos nos curros. O país não cresce, entregou-se à prática do coitus interromptus.

Talvez a Lusitânea seja a antecipação da decadência ocidental, presa num jogo de que perdeu o controlo das regras. A contradição muito complicada de viver entre o fim do grupo e a assunção do individualismo conjugada com a demolição da mesma individualidade no universo de “the winner takes it all” ainda pode ter algumas boas décadas de crise à sua frente – Sextus notou a cada vez maior dimensão do “franchising” na individual Albio, oh Margareth Tatcher, será isto a sociedade?

O carro da história vai atrelando sucessivamente as juntas que já não se distyribuem por vários carros como antes, umas caem, as outras vão arrastando, há demasiada gente em cima e o eixo está mal construído e parece que não havia nem vaca nem burro. Talvez tenha que ser mesmo assim.

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