A vontade de obedecer corrompe muito mais que a de mandar ou o abraço do Reno, tão letal como o do urso

No Reino Unido procede-se ao lento retomar do debate sobre a bondade da sua pertença ao clube europeu continental, questão que nunca é fechada naquelas terras e por muito boas razões. Mesmo assim, os ingleses tiveram o bom senso de não embarcar na farsa da moeda única o que muito lhes tem valido.

É verdade que o Reino Unido vai ter que enfrentar problemas muito maiores quando o petróleo do Mar do Norte se findar e mais ainda, quando ocorrer com a Índia o que já se verificou com a sua outra mais importante colónia, os EUA, ou seja um afastamento mais notório, tirando-lhe o papel de parceiro fundamental.

Apesar de tudo, o passado dos britânicos joga bastante a seu favor, pois se apesar das suas duas maiores jóias, por serem muito maiores que eles, vão inevitavelmente constituir-se em centralidades – os EUA já o são há cerca de cem anos mas a língua tem atenuado esse afastamento – uma rede de pequenos e médios países espalhados por África e Ásia ainda se sentirão atraídos pela média potência colonizadora (além disso o profetizado papel de atribuído pelos dois Blair ao RU junto dos EUA terá sempre a sua importância e acarretará alguns benefícios).

Sem tardar mais nestes exemplos, o que Sextus quer sugerir é que relações entre duas entidades excessivamente diferentes terminam sempre num atrofiamento da mais pequena, embora durante algum tempo se possa observar dinâmicas de ganho mútuo, como é da definição de qualquer relação. Depois, em tempos subsequentes surgem outros efeitos que são tão negativos para o mais fraco que apenas podem resultar em dois desenvolvimentos, ou a incorporação completa no mais forte ou uma luta mais ou menos gravosa para a separação.

Este acoplar e desacoplar é muito antigo mas nestes tempos tornou-se cada vez mais laborioso. Ao contrário do que muitos pretendem, a vivência actual torna mais difícil a separação e o retomar do controlo do que nos tempos mais remotos. O mundo da comunicação instantânea e aparentemente sem limites não deu mais liberdade e independência individual, vem sim contribuindo para a sua eliminação. Por outro lado, quanto mais dinâmico for o núcleo, mais gravoso é para a periferia – por exemplo, é ilustrativo que a associação à Atenas dinâmica era percepcionada como mais lesiva para as cidades satélites que a ligação à mais lenta Esparta.

Nunca como agora se tornou mais apreendível que os problemas não se resolvem – deixemos de lado a piedosa intenção da sua profilaxia – os problemas apenas são substituídos pela eclosão de novos problemas e a capacidade de integração e diluição dos dilemas primeiros pelos segundos foi aumentada nestes tempos de ligação mais ampla. Se quisermos um exemplo trágico, se alguns queriam identificar a primavera árabe com o surgimento em toalha das redes sociais também poderão reconhecer que a resiliência do regime sírio é mais fácil nestes tempos do que noutros mais recuados em que a viscosidade e peso dos eventos era muito maior do que na actualidade.

O presente actual é muito mais leve do que costumava ser, o passado é cada vez mais amplamente reescrito, o período final desenrola-se a maior velocidade do que no início, os dias são mais curtos na velhice onde quase tudo se repete do que na infância onde quase tudo é novo, a velocidade é inimiga mortal das referências e paradoxalmente, é entendível que uma sociedade velha desenrola o seu tempo a grande velocidade percebendo cada vez menos e receando cada vez mais o futuro que adivinha já não o controlar. A negação do futuro substituído pelo fim da história é o primeiro acto da peça de actores que já não vão desempenhar mais nenhum outro papel.

Voltando á CE, é muito difícil prognosticar o desenvolvimento a médio prazo mas torna-se cada vez mais óbvio que o euro é uma moeda mal construída que na realidade não existe na plenitude do que é uma moeda.

Outra aquiescência debilmente perturbada por raríssimas dissonâncias é a projecção sobre a imparável involução europeia espelhada por uma fatia do PIB mundial que rapidamente irá descer abaixo dos 10% dentro de trinta a cinquenta anos. Nesses tempo do amanhã tão próximo, a voracidade e disrupção que o núcleo imporá à periferia serão muito maiores. Nesse tempo de crise, a quem ainda orbitar á volta do eixo renano apenas lhe restará a dissolução no seu interior – a ameaça que irá pairar sobre Bélgica, Holanda, Dinamarca, Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia e  ainda alguns flancos muito próximos (Croácia…) ou o abandono e transformação em farrapos exteriores desse núcleo, o caso lusitano, os pequenos países que fazem a transição com o mundo eslavo e oeste-asiático. ( A Espanha vai voltar a hesitar entre cair nos braços da Europa ou recriar-se).

Esta antevisão poderá ser contrariada se a visão violentamente voluntarista da dissolução das entidades europeias numa só for imposta ao fim de um período variável de esgotamento dos resistentes que incluem a quase completa totalidade face à desastrada narrativa política, ou melhor, à ausência dessa narrativa substituída pela estratégia da amedrontação propagandeada quase gratuitamente (é verdade que não há almoços grátis, o mundo financeiro assinará o débito) por elites locais medularmente corrompidas por secular vontade em obedecer.

No caso de Portugal, uma visão um pouco mais pessimista poderá prever a sua transformação numa placa de encontro entre os poderes da Europa e o mundo africano e sul-americano, mas onde tudo tem de ser permitido, logo o lado lupino e predador das relações humanas predominará sem rival. Poderemos transformarmo-nos num estado encavalitado na fronteira do falhado e para além da lei, o casino na margem laociana -o pobre sem remissão –  do triângulo dourado também desenhado pela ditadura corrupta de Myanmar e pela pós-modernidade tailandesa. O casino está numa curva do Mékong, rio que cria enormes e gordos peixes-gato que melhor se pescam à noite.

No que diz respeito ao combate de Sextus tudo fica assim claro: a pertença, à CE mais ainda do que ao euro, pode provavelmente constituir o tratado de Methuen do século XXI. A cacanização do rico fornece valsas e chocolates, a do pobre criados e jogos de casino, que esse sim irá beneficiar de menos impostos, aleluia.

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