Uma equação de segundo grau: metade do que se publica não existiu e metade do que ocorreu não se publica igual a metade do que os governos legislam é prejudicial e metade do que seria necessário não é legislado

Não é líquido supôr que noutros tempos de crise a imprensa tenha desempenhado um papel muito diferente do actual, pelo menos para alguém que não seja um estudioso da área. De qualquer modo temos os comentários de Jefferson, de Dickens e de Twain que abarcam um século razoavelmente rico de crises, ou pelo menos de mini crises no pequeno mundo anglo-saxónico, para imaginar que não.

Por motivos muito mais ligeiros a imprensa conseguiu o estatuto de quarto poder, que alguns sempre lhe negaram, entre os quais o próprio Sextus. A imprensa sempre foi o altifalante do poder dominante, ou seja quem a financiava.

No ocidente actual, três poderes batem-se, o governativo (a classe política de funcionários de vários graus), o produtivo, entenda-se o agrícola e industrial e o financeiro. Empurrado para uma importância residual ainda sobrevive o poder dos proprietários que parecia renovar-se depois da crise do século XIX mas que não se cumpriu – o esboço de capitalismo societário seria um susbstituto massificado deste poder mas também não resistiu ao colapso e redirecção das bolsas no fim da década de oitenta.

O poder financeiro acabou mesmo por conseguir modificar de forma importante o poder da classe comercial e de serviços, tirando-lhes a independência, condição sine qua non da sua vivência com a imposição do franchising.

Ao arrepio dos comentários dominantes do importante leque de neoliberais lusos, não há luta nenhuma entre liberais e socialistas há apenas ajustes entre o mundo financeiro e o mundo político com movimentos rápidos entre os dois. Os ditos socialistas são mais sincréticos e promovem uma fusão mais completa entre os dois mundos, os ditos liberais optam pela maior separação, ou doutro modo, os primeiros ambicionam a roda gigantesca e única, os segundos apostam nas duas, solidamente unidas por um apropriado eixo.

No mundo da imprensa este debate faz-se de forma muito dissimulada, geralmente com argumentos muito básicos, às vezes em demasia para atingir a eficácia pretendida de manipulação. Infelizmente muitos blogues resvalaram para aí, reproduzindo de forma múltipla o que se vericava na imprensa tradicional. Não será fácil encontrar algo interessante na Lusitânea, como seria previsível a qualidade da internet lusa é inferior em qualidade e quantidade à britânica, por exemplo, acompanhando o que ocorre com os meios tradicionais de comunicação. Esta delisquecência da rede vai aprofundar-se, já se tinha reflectido sobre isto há uma década. A decadência vai avançando até à incomodidade em falar e escrever.

A governação apresenta um padrão com muitas similitudes com a comunicação, mas a velocidade mais lenta. A governação é em parte, mas só numa pequena parte para Sextus, certamente mais diminuta do que para muitos outros, uma comunicação. Mas a governação é muito mais e essencialmente consiste em taxas e impostos, a prorrogativa que o mais forte conquistou ao constituir-se como o garante da não generalização da violência.

O lançamento destas taxas não tem nenhuma racionalidade particular, apenas uma variedade de justificações para ser maior ou menor conforme os tempos, as vontades e a capacidade que essa sociedade mostra em pagá-las. Nos últimos dois séculos, primeiro no ocidente, justificou-se o aumento das taxas com a necessidade de financiar serviços considerados fundadores para o erguer do palácio de cristal e promoveu-se o crescimento da classe política.

A utilidade dos serviços sucessivamente criados pela classe política repousa muitíssimas vezes em falácias mais ou menos imaginativas habilmente sustentadas pelo mundo financeiro que desempenha a preceito o papel de tandem.

As taxas constituem ou os aros fortes da roda única ou o robusto eixo do sistema de duas rodas. Num momento posterior de criatividade, os parceiros político-financeiros engendraram as deduções nas taxas apoiadas por um emaranhado de articulado legislativo que comprovava que seguir o norte ou o sul é sensato e bom conforme a besonha. As deduções constituiram o aperfeiçoamento personalizado do sistema de impostos, a versão mais moderna das isenções concedidas aos mais nobres ou mais heróis ou mais qualquer coisa.

Hoje o ministro Gaspar assutou muitos ao falar sobre as deduções, ainda que apenas no que interessa o IRC. Se quisermos ser muito, muito optimistas podemos imaginar que essas deduções vão ser objecto de um aperfeiçoamento para maior captação pela indústria do capital de investimento que bem precisa.

Sextus defenderia uma solução bastante mais radical, a extinção das deduções sobre qualquer imposto. Na verdade, não é possível contruir um argumento sólido para uma dedução específica, isso é mesmo um contra-senso insanável. A dedução é a negação da bondade da taxa, haverá sempre belíssimas razões para avançar com pedidos de dedução de todas as taxas.

Num governo liberal muito mais aperfeiçoado o objectivo seria a diminuição das taxas acompanhada da eliminação de qualquer dedução.

É verdade que metade do que os governos fazem é prejudicial e metade do que é preciso não o fazem, não é incompreensão ou incompetência, é da sua natureza.

Se alguns escribas engraçados gostam do fraseado ” no taxation no representation”, deveriam actualizar para dedução, logo não representação.  

 

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