Melhor que o duplipensar é atirar ao lado para alguns ou no alvo para outros

Duas notícias pouco ligadas surgiram hoje mas que podemos reenviar ambas para uma mesma fonte.

Uma afirma que a carga tributária portuguesa é já a maior da Europa no que interessa os rendimentos do trabalho mas mais ainda no que respeita às pensões.

A outra relata a comunicação do economista do FMI, O. Blanchard numa reunião de economistas americanos ocorrida na semana passada a detalhar o que já tinha sido avançado, que as previsões tinham subestimado significativamente o aumento do desemprego e o declínio da procura interna associados à consolidação orçamental.

O mais interessante são os dois enganos. No primeiro, passamos a compreender que a pergunta feita pelo representante do FMI ( e já agora por V. Gaspar) sobre qual era a dimensão do estado social que os portugueses estão dispostos a pagar deve ser melhor substituída pela de inquirir onde é que os governos aplicam o dinheiro – a resposta em salários e pensões não é satisfatória, o problema é quais salários e quais empregos/trabalhos. Se um pensionista português leva para casa menos de 40% do que um alemão, então o desperdício é enorme, corresponde a cerca de 20% para reflectir a real diferença de produtividade entre os dois – claro que sabemos qual a causa, o fraco trabalho de casa dos sucessivos governos portugueses no investimento das taxas que colecta em comparação com o alemão. 

A segunda também espelha o outro engano, maior, que se observa desde a emergência da crise financeira ocidental. Não é o problema do tal multiplicador que Blanchard quer corrigir que está na mesa, é todo um problema diferente.

Parece que quisemos esquecer que a dívida actual dos estados nada tem a ver com a real insustentabilidade do estado social no futuro próximo. A diminuição das pensões é importante para prevenir a falência  no futuro a médio prazo de qualquer caixa de pensões de qualquer estado ocidental, mas as dívidas actuais, pública e privada não têm a ver com o futuro mas obviamente com o passado de incompetência, de laxismo, de abuso e até (muitas, poucas, variável conforme os estados) de comportamentos criminosos dos investidores, públicos e privados.

No que diz respeito aos públicos, por vezes tem havido pequeníssimas mudanças mas que serão cada vez menores, não por um incremento da capacidade de decisão mas porque perante a ameaça da escassez de benesses a distribuir as tentativas para a preservação do lugar conquistado na primeira fila serão mais determinadas e com maior probabilidade de sucesso, na lógica defende o vizinho teu conhecido que estás a defender-te também.

No que se relaciona com os decisores privados, os etéreos crentes nos mercados diriam que a concorrência e competição iriam promover a desejável selecção, o que é parcialmente verdade, mas aqui também o princípio da sobrevivência refugiando-se nas cumplicidades desempenhará maior importãncia nestes tempos, mais ainda do que desempenhavam os laços de sangue no tempo da aristocracia, que sentindo-se mais segura tolerava melhor certos ataques.

A tradução do que afirmo vê-se na quase ausência de renovação das elites de gestores da banca ou das entidades reguladoras. Já alguém viu algum director da banca, duma entidade reguladora ou duma agência de notação ser posto em questão até ao nível de processo judicial por negligência voluntária ou similar?

Como diria o meu amigo (com uma pequena modificação por Sextus) lidar com o estado social pode ajudar a prevenir mais dívida no futuro mas para lidar com a que contraímos precisamos de outra competência para retomar algum crescimento, condição sine qua non para controlar em decrescendo essa dívida.

Como arranjar essa competência não é fácil nem súbito mas Sextus reafirma o seu cepticismo em que tal possa ser desenvolvido num ambiente de menoridade e dependência. Que se saiba, todos concordarão que só os que crescem e se tornam independentes é que conseguem medrar.

A ligação ao controlo europeu financeiro e judicial parecia ser boa há trinta anos. Agora com o panorama de um continente em crise, menorizado por um grupo de exportadores que querem que continuemos importadores e tudo farão para isso, por uma moeda que não existe na  sua totalidade e por um banco central que apenas tem como preocupação (o que se compreende, diga-se desde já) a estabilidade dos outros bancos, o melhor  futuro que esta nação pode ter será aproveitar o trabalho de casa feito no passado, apertar o cinto mas debaixo do seu controlo e deixar a europa entregue à sua involução inevitável. Esta parceria é um abraço de urso depois de sermos visitados pelas raposas que nunca serão controladas pelos poderes reguladores – basta pensar em Constâncio, mas esse exemplo pode ser multiplicado inúmeras vezes, por exemplo o Sr. Draghi, o que fez enquanto esteve na GS?).

Os blocos são inimigos da liberdade individual, da liberdade das nações, são sempre a antecâmara dos maiores desvarios e da manipulação em massa. Se os atiradores actuais estão a atirar ao lado por incompetência ou estão a fazer mira para um alvo inconfessável pouco interessa, o que interessa é retomar a posse do campo.

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