De Bilbao ao FMI ou da clareza para a obscuridade

Muito pouco relevo foi dado à proclamação do alcaide de Bilbao feita há dois dias e no fundo tal é tão natural. Esse senhor, por acaso cardiologista de primeira profissão anunciou duas coisas: o pagamento da dívida da cidade e a recusa em contrair novos empréstimos, salvo circunstância excepcionais.

Certamente que o bom homem será rapidamente negado no futuro mais ou menos próximo mas isso não acaba com a importância do que disse.

Sextus também pensa o mesmo e já aqui escreveu que, no limite, o estado pedir empréstimo ao exterior é uma negação da soberania para o qual nunca esteve mandatado. O estado só deveria contrair empréstimo junto dos seus cidadãos o que se suporta muito fortemente em duas razões.

A primeira, a decorrente do que foi dito antes, o compromisso da soberania manifestamente nunca foi formalmente permitido aos estados, tal apenas foi possível ao longo dos últimos séculos pela afirmação até ao sufoco e captura pelo sistema financeiro. Todos sabemos da enormíssima dívida pública japonesa, quase o dobro da grega e o triplo da portuguesa, mas também sabemos que está nas mãos de japoneses em cerca de 95% – o problema conceptual radica na permissão desses 5% já pertencerem ao exterior.

Segundo, se os naturais não acorrem com sucesso ao empréstimo lançado pelo estado pode imputar-se ao mau estado financeiro desses cidadãos logo desaconselhando endividamentos adicionais, ou à não concordância com a bondade do investimento para o qual o estado lançou o empréstimo. Ora, estas duas condições reunidas desaconselhariam fortemente empréstimos exteriores.

Certamente que Sextus não quer barrar o acesso dos cidadãos ao capital estrangeiro mas isso são investimentos privados em que Sextus acredita firmemente e se por acaso forem mal sucedidos assumirão as perdas decorrentes – a abolição do risco moral tem constituído um dos factores mais negativos dos últimos cem anos.

Mas a imprensa quase não falou nem discutiu isto. Como diria Spengler, sobre a liberdade de imprensa é sempre primordial perguntar quem paga.

O relatório do FMI constitui o segundo assunto. É verdade que a credibilidade do FMI não está magnificamente exibida pela bronzeda Lagarde (ai que inveja embora se saiba que depois isso dá mau resultado mas o presente colorido compensa o devir cinzento). Como é que a senhora lá chegou é uma pergunta não respondida mas Sextus só vê uma resposta plausível, a frequência dos lugares onde outros banqueiros muito importantes se encontram. Nesses sítios fala-se do que se comprou e do que se vai comprar, no caso da senhora Lagarde, ainda que clube de beleza frequenta. Não se fala de mais nada. Como referia Bagehot no terço final do século XIX, quando os distintos “gentlemen” do banco de Inglaterra se reuniam semanalmente entre as 12h e as 12h30 toda a gente se alarmava se a reunião ultrapassava as 13h (só se adormece no cadeirão à tarde).

Agora a instituição que a senhora Lagarde dirige dispôs-se a queimar as meninges e elaborar um relatório sobre a modernização do estado português. Sextus ainda não leu, a sua preguiça vai ditar-lhe ficar á espera dos resumos que outros farão, se por acaso a coisa inesperadamente for melhor do que é usual lá o lerá. Mas bastou-lhe uma das sugestões para perceber que esses magníficos do FMI, tal como no post anterior, ou atiram ao lado por incompetência ou porque ao fim ao cabo o alvo é outro.

Então propor aumentar o horário de trabalho dos funcionários públicos para 40 horas semanais mas para fazer o quê? Talvez metade do que os funcionários fazem apenas tem interesse para justificar o seu posto de trabalho ou para escorar grupos dominantes que parasitam e capturaram o estado.

Os estudos, os relatórios, as inúmeras leis, as unidades intermédias de gestão – nos hospitais inventaram-se as unidades autónomas de gestão para produzir mais relatórios e planos de quem realmente não tem autonomia para nada (nem o própio conselho de administração o tem como se viu numa entrevista recente em que mais parecia estarmos a ouvir um comentador que um director, Sextus ficou com a impressão que essa pessoa desde que expurgada de algumas ideias nunca aplicadas em parte nenhuma pode até talvez vir a ser um razoável director) – impostos e deduções apenas para baralhar contas, mas a administração pública não precisa de mais horas, precisa de muito menos gente e muito menos horas numa tentativa de que passe a poder estragar e arruinar menos o país. Sextus está na disposição de enviar gartuitamente ao FMI cem exemplares do livrinho de Lao Tao, a boa administração veste-se, é notória pela quase singularidade, não se multiplica e distribui, se o faz é porque apenas representa os capatazes, tal como no castelo kafkiano.

Depois, como seria normal para o FMI (Sextus reafirma que não o leu, apenas excertos), apenas se fala de cortes no pessoal e salários mas os correspondentes e fundamentais cortes nos impostos ficam para outro estudo mais aprofundado, pressupõe-se.

Se persistirmos na nossa ligação a estes conglomerados internacionais que nada fazem a não ser distribuir recursos capturados através dos impostos, ou seja o nosso dinheiro, isto conjugado com a progressiva hipervigilância do cidadão terminara muito mal.

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