O mirar e remirar das duas faces da moeda que não se cunhou ou o anunciar da conformação do futuro cansado da não inscrição do presente

As culturas dos povos são por definição muito resistentes a qualquer mudança ou dito melhor, é a cultura que acaba por dar a forma final à mudança exógena. Se há algo de muito constante na cultura portuguesa é o perpétuo saltitar ou o que José Gil perpetuou na não inscrição.

Já estamos a falar no Portugal pós-troika, o nosso saltito para a frente. Uma coisa PPC tem razão em antecipar, vamos cumprir o suficiente exigido pelos credores mas tal como aqui se disse, a equipa dos médicos à periferia nada iria alterar com significado para além do apertar do cinto.

Depois de semanas de leitura ao longo destes vinte meses das taxas de cumprimento das medidas troikianas, sempre acima dos 70% e muitas vezes para além dos 80%, o vazio é quase total. Nada do que poderia realmente alterar o modus operandi luso ocorreu – o tamanho da máquina estatal, a legislação de procurada má qualidade, a inoperância da justiça, o laxismo dos prazos de pagamento quer no sector privado quer no sector público, a má qualidade das decisões de investimento da banca, para não falar do abafante capitalismo social sempre nutrido por impostos atrás de impostos justificados por presentes efémeros a antecipar futuros radiosos e contraditantes, tudo isto se manteve. Como a incapacidade para operar esse afrontamento cultural está na consciência de todos, passamos à fase seguinte, ou usando a metáfora que já apresentámos aqui, o touro é bravo mas o forcado não o é menos, toque-se a chamada para a pega de cernelha, as pilecas já estavam de reserva.

Com a ajuda do factor determinante para uma saída em alguma ordem do lodaçal onde se atolou e como assisadamente PPC reclamou, a emigração prossegue com razoável ritmo, a única alternativa ao dinheiro obtido com algumas privatizações, pelo menos neste tempo de anosmia não inscritora ad nauseum.

O estado voluntariamente emagrece e a nação encolhe em paralelo, os que ficam vão ter de lidar com a reestruturação da dívida, pelo menos no que interessa aos juros que vêm alimentando os alemães ao pequeno-almoço e talvez ainda dê para a choucroute – segundo a Bloomberg, lucro superior a 50% com a dívida portuguesa, é mesmo de touro e não de urso.

Portugal vai tornar-se num relevante “case study” pois vai novamente ser pioneiro. Será o primeiro país ocidental a perder a classe média, avanço que facilmente se compreende porque foi o último a tal conseguir e de forma bastante frágil, contemporânea quase da emergência do que alguns chamam a geração “low cost”, a versão optimista, ou a “tactel” do meu amigo pessimista. A derrocada da classe média irá ocorrer sequencialmente da periferia até chegar ao centro da europa, também ela acompanhada inevitavelmente pelo Japão.

Esta nova sociedade será provavelmente a última apresentação da civilização ocidental antes do seu desaparecimento, espera-se que não tumultuoso, algo a ocorrer dentro de duas gerações ou mais cedo se a implosão chinesa for apressada. Ocorrerá tumulto se a potência incumbente decidir procurar essa saída.

Nestas duas gerações, a sociedade “low cost” terá que arrastar-se desprovida de qualquer valor ou projecto, confundindo o seu fim com o fim da história, engano inerente a tais tempos, engano constituinte destas interfaces.

A socidade “low cost” irá procurar sempre sobreviver na identificação do melhor “value for the money”, paradoxal nesse tempo sem valor, em que a moeda será mirada e remirada na face e no verso porque nela já não se confia.

O poder de então, desacreditado não mais do que está – parece que 4% dos lusos ainda depositam esperança nos políticos em paralelo com os 3% dos italianos e 0s 7% dos espanhóis – refugiar-se-á na legislação regulamentadora asfixiante até ao romper como qualquer bolha financeira – “en passant”, então não é que 50% das transações em Wall Street são do tipo HFT e 30% na City, a vertigem pelo limite está como nunca.

Se as coisas correrem mesmo mal, a normalização, a certificação, a regulamentação da humanidade prosseguirão até à sua destruição, pelo menos tal como a conhecemos nestes milénios. Virá então o homem novo, admirável, todo ele neo em tudo e mais alguma até na sua neoanimalidade.

Este clima de paradoxos, de ambivalência é talvez o sinal mais consistente do entardecer da civilização ocidental. Será que Janus nos leva de novo para a vertigem hindu?

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