Um pouquinho de tudo antes do fim de semana ou melhor é impossível, ou será que pior é impossível, ou será que é possível fazer diferente ou continuamos tão a leste como antes sem compreender que o sol também tem o seu ocaso

Esta semana foi razoavelmente rica em notícias com algum relevo.

Primeira, a aguardada comunicação de Cameron. O PM britânico fez um discurso inspirado certamente nos “talk-shows”. Declarou que gosta muito da CE e para gostar ainda mais propõe alguns aditamentos para clarificar algumas coisas, particularmente que o RU não partilha da visão federalista mas apenas do projecto inicial de mercado comum. Tudo isto embrulhado de forma voluntariamente confusa que, é de recear, não constitui a melhor forma de falar de coisas sérias – até na velha Albion a cacanização impôs-se, apenas lá a confusão entre manobras de propaganda e incapacidade para inscrever o destino é enroupada de forma mais rica e culta, bom é preciso ver que uma história de um império de comerciantes tem sempre muito lastro cultural.

De qualquer modo é melhor que nada mas pode-se recear que o discurso tenha sido uma manobra de distração para a nova entrada em recessão do RU e dar oportunidade a toda a trupe dos eurófilos que lá restam nas ilhas para proclamar as grandes virtudes do casamento com a demenciada senhora continental. Depois de frequentar os conselheiros matrimoniais durante cinco anos, talvez se possam pronunciar se o sim estiver garantido.

A segunda foi a muito comentada ida de Portugal aos mercados. Sextus não vai adiantar muito mais sobre o que já comentou, apenas chamar a atenção para o magnífico escrito de JPC hoje no CM. Além disso, lá levámos hoje com a Fitch a dizer o óbvio, caminhamos alegremente para o segundo resgaste, que será mais disfarçado, à espanhola. (podemos ter sempre a ajuda do que é decisivo, a emigração, mais ainda quando parece que os dados que Sextus tinha consultado estavam errados, não emigraram 120 mil nos dois últimos anos, mas 200 mil; se for possível juntar mais 300 mil nos próximos três, teremos cumprido o tradicional resgaste nacional, embora com saída da crise de modo muito menos vigoroso porque a actual pirâmide demográfica é muito diferente do que se vivia noutros resgastes migratórios).

Terceira, os nossos vizinhos que percorrem um caminho deveras surpreendente e no fio do arame. Conviver com uma taxa de desemprego na faixa 16-25 anos de 55% é assumir destemidamente a vanguarda da evolução ocidental anunciada em 1995 na já muito lembrada conferência de S. Francisco onde se cunhou a bela descrição da sociedade tittytainement. Aonde é que se vai buscar o dinheiro para isso é que vai ser uma incógnita, mesmo a sociedade “low-cost” terá muitas dificuldades. Quando a China começar a contrair vai ser muito divertido, Septimus (será Octavus?) testemunhará isso.

Quarta, o delicioso comentário do presidente da UBS: não estamos a fazer nada de relevante a não ser comprar tempo. O homem não acredita nas modernidades do surf ou do HFT, segundo parece.

Quinta, a recomendação do governante teutónico que nos visitou esta semana para voltarmos a dedicarmo-nos à agricultura, infelizmente não chegou ao ponto de aclarear se á agropecuária para fazermos salsichas (Sextus teve um vizinho alemão que viveu os últimos trinta anos da sua vida a fazer salsichas perto de Vila do Conde) ou á cultura de choucroute nas encostas beirãs – talvez seja o tratado de “Tethuen” do século XXI, os lusos mandam ervas e salsichas (e já agora o vinagre), os alemães vendem-nos carros em segunda mão, ou a especialização das nações de Smith e Ricardo.

Sexta, a segunda declaração de Cameron sobre a necessidade de “cheirar o café” – sequela da fuga fiscal da Starbucks no RU e a reacção pronta da Goldman e tutti quanti sobre os perigos de tais declarações. Sextus já aqui afirmou a sua crença que tudo ficaria muito melhor com uma descida dos impostos para um leque entre 5% e os 15%, conforme as actividades e a sua grandeza acompanhada da eliminação quase total das deduções. O presidente da Goldman proclama a normalidade e bondade do aproveitamente da lei, chama-lhe isso o bom senso fiscal de quem organiza os seus proventos e acha terrível a diabolização desse bom senso, Sextus também concorda, mas com o aditamento de quem desenhou o edifíco fiscal não mostrou nenhum bom senso para além do seu bom comportamento de funcionário da Goldman e similares que alargaram esse senso fiscal entre o reembolso e a extorsão – estes gestores são imparáveis desde que à solta (se um brasileiro é um português à solta, um dirigente financeiro é o gestor brasileiro á solta).

Enfim voltando ao básico, como aqui temos referido não será fácil mudar a direcção do petroleiro que está apontado para chocar com o molhe, desde logo porque o comandante está distraído e divertido com a convidada na ponte, depois o director do porto já tem contratada uma empresa de construção civil para a anunciada reparação, o banqueiro da zona está a jogar golfe com outros colegas para montar o sindicato bancário para a reparação do navio e a ampliação tão reclamada do molhe, o autarca já contratou uma empresa de auditores para análise do evento e prevenção doutros e já iniciou os processos de recrutamento de mais bombeiros portuários, a sociedade civil já se está a organizar para conseguir um financiamento apropriado e um contrato sustentado pelos reguladores para a construção de um novo hospital e centro de recuperação tornados cada vez mais evidentes pelos sucessivos acidentes e em boa hora o governo, com a coordenação do seu ministro das finanças,  já elaborou o novo plano fiscal que inclui novos impostos sobre o ruídos dos acidentes, sobre a poluição do mar pela tinta do petroleiro, pelo petróleo e pelas pedras do molhe que se afundaram, do imposto sobre a poluição da fauna piscícola e do novo extra fiscal necessário para rapidamente começarmos a baixar os impostos. Uma empresa do ambiente propôs junto do ministério respectivo a criação de um fundo público para a construção de uma central de energia das ondas provocadas por acidentes futuros. Há quem defenda nalgumas áreas governamentais a criação de um imposto para a nova escola de comandantes, mas muitos outros acreditam que temos excelentes comandantes, apenas devem beneficiar de algumas deduções das enormes taxas que poderiam pagar e assim assistirmos à emigração súbita de tantos homens que sabem estar ao leme.

Na rua há alguns protestos contra o carácter ultra-liberal do governo que anunciou a eminente privatização do molhe, tudo devidamente salvaguardado por um excelente contrato redigido por duas excelentes empresas de advogados contratados em outsourcing e devidamente certificados pela entidade reguladora competente que abriu em consequência uma novas vagas de admissão para assessores, consultores, auditores e reguladores juniores.

Felizmente, dizem quase todos, estamos no bom caminho e adicionalmente protegidos pelo chapéu europeu para estas eventualidades.  E outro petroleiro já vem a caminho.

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