Os prós e contras de pedir boleia ou da complexidade até ao duplipensar sem sequer a roda girar

No mundo moderno da complexidade e do duplipensar a boleia é usada muitas vezes como primeira alternativa para se chegar a um destino, ao lado ou atrás de quem iniciou outra viagem com rumo diferente. Quando quem toma a boleia apenas pretende sair num ponto intermédio do caminho do outro, a compatibilidade é fácil. Quando quem pede ajuda no transporte tem como destino um ponto para além daquele que é o objectivo de quem lhe assiste, ou vai sair antes do fim do seu caminho ou melhor ainda, manipula o outro e consegue o que quer. Quando os dois destinos já não pertencem sequer ao mesmo caminho o conflito é inevitável e resolve ou pela separação ou pela captura de um pelo outro.

A discussão das origens e soluções para a crise portuguesa radica no sistema das boleias.

A primeira boleia ocorreu quando se tomou a ajuda do futuro para explicar o passado e o presente, isto não é tão raro quanto se possa pensar, é até muito frequente em vários ramos das ciências exactas, quanto mais nas humanidades. O futuro era a anunciada crise do estado social, perfeitamente insustentável no modelo conhecido. Mas era só uma boleia, esse futuro não explicava absolutamente nada da origem da crise portuguesa, esta estava baseada na mistura do hábito de dependência na dívida e na tragédia lusitana de séculos de má gestão, muitas vezes até aos níveis da irresponsabilidade insana. Aqui podem-se incluir desde os agentes políticos até aos directores dos bancos que são os mais importantes e últimos decisores de aplicação do capital, com dotações de quantidade de lucidez cada vez menor, consumida no fogo do lucro e da ausência do risco moral. Desde as rotundas, pavilhões, funcionários de coisa nenhuma de empresas sobre nenhuma coisa, até à construção ininterrupta, comércios em cada rés-do-chão, empréstimos para tudo e até para nada porque nunca haverá problema com a justiça. Como os caminhos são radicalmente diferentes, as exigências para a correcção ou pelo menos para a atenuação do que é mal feito são muito maiores, o conflito foi resolvido pela captura da reforma do estado social.

Num tempo subsequente da discussão, não só restrita a Portugal mas alargada a outras regiões da CE, a atenção foi dirigida para a desindustrialização. Também aqui houve uma boleia, a retracção do sector secundário lusitano radica em factores para além da desindustrialização ocidental. Outros determinantes jogaram o seu papel, um a congénita falta de vontade de iniciativa e de atracção pelo risco das culturas colectivistas, como a portuguesa. Outro estabelece-se sobre a crónica diminuta acumulação de capital, filha da má gestão, da fraca qualificação laboral e da pulverização de pequenos empreendimentos só possíveis por deficientes critérios para empréstimos bancários, muitas vezes colaterais de corrupção a esse nível, potenciada pelo desastroso tratamento judicial dos incumprimentos e falências (um primo, os atrasos nos pagamentos, apaticamente nuns casos, noutros voluntariamente para criação de quasi monopólios, nunca foi encarado como deveria ser pelos médicos à periferia da terapia do ajustamento). A outra base, talvez mais importante como causa mais próxima foi a financeirização da economia para níveis acima do usual com a direcção da aplicação de capital para investimentos especulativos que gozavam de um tratamento fiscal absolutamente ímpar e mais ainda, beneficiando mais vezes do que qualquer outra actividade da vantagem competitiva mais decisiva, a “inside information” que os reguladores que nada vêem despudoradamente dizem contrariar e impedir. A boleia das causas europeias deixa-nos aqui num ponto do caminho demasiado aquém do destino almejado.

Com o ruir do muro de Berlim e o colapso da experiência colectivista do leste europeu suportada no que muitos chamavam o socialismo científico emergiram várias ideias, algumas delas muito ridículas, que só fizeram caminho não porque os outros sejam estúpidos mas porque todos os recursos foram disponibilizados para a sua propagação, o paradigma, o chamado fim da história proclamado por quem tem licença para a ensinar  mas a quem nunca lhe ocorreu nada mais do que ser arauto do poder (é verdade que a maior parte dos professores são funcionários mas enfim não é bem a mesma coisa). Um derivado desse fim da história foi o chamado neoliberalismo que só pode ter interesse como modelo teórico do paraíso na primeira manhã. Se nos lembrarmos que o autor de “morning has broken” se converteu ao islamismo deveríamos logo desconfiar desta teoria. O neoliberalismo passou na fase madura para o apelidado capitalismo científico. Para melhor entendimento desta coisa nova façamos uma única comparação entre um governo dito neoliberal, o português e o chinês, ministrado por um partido comunista. No nosso caso, a captura da riqueza pelo estado anda à volta de 40%, no caso chinês anda um pouco abaixo dos 20% (finalmente se vê a alternativa verdadeira para a sigla MRPP por onde andou o nosso ilustre Barroso, deveria significar movimento para a reconstrução do partido dos proprietários e que terá desgostado José Manuel que foi a tempo de se converter ao neoliberalismo; isto é só uma ideia súbita, Sextus reconhece). Outra interessante manifestação do neoliberalismo/capitalismo científico foi o comentário ontem, de um secretário de estado (será digno de relevância um comentário de um secretário de estado, interroga-se Sextus ensinado por PPC?) sobre a impossibilidade de baixar o preço da electricidade tendo em conta o défice tarifário, apontando tal dignatário (?) que teria que subir á volta de 3% ao ano. Sabendo-se a constituição do preço do kWh, onde algo mais de 50% são aditivos neoliberais, mais do que défice tarifário trata-se mais apropriadamente de bebedeira tributária. Aqui, a boleia do neoliberalismo claramente levava consigo um magnífico manual de duplipensar.

A entrada de Portugal para a CE foi quase unânime, mesmo Sextus concordou com ela na altura, quando não pôde antecipar a dimensão da globalização que ocorreria cerca de dez anos depois. Neste caso trata-se de uma situação de completo aprisonamento por quem pede boleia, a Lusitânea. Mais interessante, configura um paradoxo interessante. A boleia  pedida para o futuro foi totalmente suportada pelo passado e pelo então presente mas no momento, a desesperada manutenção desse estatuto baseia-se amplamente numa recusa de ver o futuro ofuscado pelo passado e pelo presente. O declínio da CE está verdeiramente escrito nas estrelas, mesmo o estado com a posição mais equilibrada como é a Alemanha deverá ter 70 milhões de habitantes dentro de uma geração. Não perceber que uma dimensão dessa grandeza só casa com irrelevância nada mais é do que refugiar-se na negação. Persistir na aposta que a ligação à CE é que nos pode retirar do lodo da dívida é não perceber que quando há crise a periferia é triturada até ao desaparecimento, se for preciso. Sextus com a sua formação médica lembra-se que em situação de muito frio ou de colapso, a circulação sanguínea quase desaparece da pele e direcciona-se para dentro; só os pinguins é que resolveram esse problema na vascularização das suas patas de forma ainda algo incompreensível. Só temos que pedir boleia aos pinguins.

A última boleia é o conceito de soberania popular, a conhecida democracia ocidental. È interessante notar o grau de confiança estabelecido entre os governantes e os eleitores, quase em todos os países é francamente inferior a um terço e nos países do sul está abaixo de 10%. A soberania popular sempre foi uma falácia, neste momento é uma comédia e pode acabar numa tragédia e se Platão tem razão, então depois da democracia segue-se a tirania.

Como é que vamos saír daqui? Não vamos, lembram-se do petroleiro? Cuidado ó gente do molheeeee….

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