Dos tractores ao caminho de ferro terminando numa cachimbada enquanto que o navio rumo de encontro ao cais

Mais uma semana deprimente numa europa já não generosa e em negação a acompanhar a já avançadíssima cacanização lusitana rumo aos sem abrigo.

A habitual confusão governativa sobre a nova ferrovia entre Lisboa, ou será Sines ou  Portugal como diz a centrípeta e voraz administração e a Europa é, no entanto e de outro ponto de vista, nada confusa.

Nunca tais investimentos são acompanhados por estudos que se possam entender, nunca se percebe o porquê da subida na lista das prioridades de investimento. Uma nova ferrovia para parar na fronteira com destino a Madrid é economicamente indefensável, mas enfim o reino do disparate fica mais cheio quando se ajunta que se destina a transporte de mercadorias de forma mais célere. Dizer que a rapidez de colocação dos produtos portugueses na europa é uma das condições de sucesso das nossas exportações é uma mistificação apropriada para receptores distraídos, cansados e dispostos a acreditar em tudo porque já nada realmente interiorizam, ou seja a massa que entronizou a classe dirigente. Depois a socratina questão de TGV e não TGV como se fosse possível afectar recursos para tão faraónica obra.

Enfim tudo isto não passa do abuso de empregar dinheiro colectado com impostos para os usos os mais estapafúrdios imagináveis, consolidando aquilo em que os estados se tornaram, uma afinada máquina de captação de recursos com a avisada direcção do mundo financeiro que além do conforto de saber que não pode falir se pode sempre consolar com projectos de lucro moderado mas completamente assegurado, ou não tenham estes tipos de investimentos a alta cobertura do Sr. Draghi magnificamente assessorado pelo Sr. Constâncio. Só como pequeno exemplo, talvez muitos não saibam que 0 “project finance” – Sextus pela-se por estes termos tão, tão..- do metro do Porto ficou classificado em terceiro lugar no concurso europeu dos ditos. A gestão financeira é deliciosa, transforma qualquer farinha manhosa na mais apetitosa “delicatessen”.

O à vontade com que o estado espolia a sociedade pode ser visto de forma mais divertida mas não menos ilustrante na comezinha carta de tractorista. Se alguém quiser abraçar os amanhãs da agricultura lusitana, para obter uma carta de tractorista terá como pré-condição a frequência com sucesso do magnífico curso de mecanização agrícola que decorre durante meses seguindo porfiadamente um riquíssimo manual com algumas centenas de páginas magnificadas por várias fórmulas matemáticas que poderão elucidar os mistérios das forças, dos vectores e dos movimentos, curso esse em boa hora apoiado por fundos europeus. Há também um curso de várias dezenas de horas para a pulverização, muito provavelmente com pouquíssimos frequentadores haja em vista a actual população de artrópodes. 

Claro que todos estes bons investimentos necessitam de recursos e felizmente que os há, parafraseando o excelente Ulrich, ai eles pagam, ai se pagam. Sextus, inveterado fumador de cachimbo confrontou-se com a incapacidade de comprar o seu tabaco habitual na Lusitânea mas acabou por descobrir uma alternativa no país da banca, a Suiça. Os helvéticos nunca passaram por muito espertos, embora tenham uma poderosa indústria farmacêutica ao lado dos difíceis chocolates, sopas, pós, leites e cafés. Na pobre Suiça desprovida de mar, mas felizmente com ferrovias que permitem o rápido transporte de mercadorias, a caixa de tabaco que Sextus consome custa 45% do que custava em Portugal, dando razão a Ulrich, Sextus paga, ai se paga.

Esta lassitude da compreensão da armadilha em que todos caímos no mundo ocidental – e também em crescendo lento nalgumas outras partes dos outros mundos – a alimentação de um estado poderoso, expansionista, regulador que foi ocupado por uma classe de políticos de qualidade decrescente a acompanhar a evolução de igual sentido da classe média tem obviamente raízes num passado distante, discutida num debate antiquíssimo, talvez cristalizado quase definitivamente na República de Platão com todas as suas insuficiências e não respostas. As três saídas mais testadas tiveram exemplos em muitos sítios e diferentes épocas, a aristocracia, a democracia e a oligarquia. Nesta altura presenciámos um confronto silencioso entre duas formas, mas estas já de difícil arrumação segundo os conceitos de Platão. A governação chinesa tem características predominantes de uma aristocracia, revivendo o longo historial do governo por mandarins, mas é obviamente um modelo desviado do que o grego concebia. A democracia ocidental foi evoluindo ao longo do tempo, no fundo no início também era uma aristocracia, os habilitados a votar constituiam uma minoria “aristocrática” até chegar à oligarquia actual depois de um breve tempo de democracia.

A oligarquia actual não tem resposta para as questões complexas que estão a chegar resultantes da pressão da natureza, quer a nivel do meio onde vivemos, quer a nível da evolução da demografia e da questão da família. A oligarquia é sempre uma das formas mais transitórias de governo, porque tal como a ditadura tem um fraco potencial de inovação e renovação. Mas os estragos que está a causar e poderá ainda provocar são imensos.

Infelizmente, o passado nada ensina e nada evita, o desastre não se previne e quase nunca se administra a longo prazo- de facto a manutenção e preservação dos que governam depende em linha directa da sua recusa do conceito do longo prazo e na focalização do curto prazo, só de longe a longe na história são confrontados com rupturas mais ou menos restritas. Não é verdade que o “sound byte” seja uma doença do presente, o “action byte” é a pandemia de todos os tempos.

A essência dos governos é a inaptidão e a captura inapropriada, a sua exteriorização quotidiana é o à vontade na manipulação, neste tempo o seu imprimatur é a conformação habilidosa aos interesses do mundo – e sub-mundo – financeiro. Quase toda a actividade governativa ao longo dos tempos foi sempre feita por capatazes, nunca pelos senhores.

O dilema actual criado pela oligarquia foi a criação de um modelo demasiado competitivo, a globalização. Tal como as empresas, as sociedades repousam numa quantidade apreciável de redundância e ineficácia. O individualismo triunfante repousa no abrigo do grupo familiar, pelos menos da maioria. A dialéctica do modelo é a garantia da sua longevidade. A coerência total é o nada hindu.

A oligarquia finge ignorar tudo isto, finge porque enquanto for possível vai retirar o maior lucro possível. Além disso, só o curto prazo pode interessar, a longo estamos todos mortos e o pau quando bate nunca atinge todas as costas

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Uma resposta a Dos tractores ao caminho de ferro terminando numa cachimbada enquanto que o navio rumo de encontro ao cais

  1. Zé Muacho diz:

    Amigo,
    Não é um comentário, é um pedido de ajuda para que não continue a ser roubado; também sou fumador de cachimbo e gostava de saber onde compra o seu tabaco…

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