Do discurso insignificante misturado com a novilíngua até à escolha entre o laser e o fractal

A vida é verdadeiramente paradoxal, provavelmente até ao fim, mesmo quando a natureza sabiamente cria o ambiente favorável a desejar o seu fim, na grande maioria, sempre temperado pela oposta verificação que tudo foi tão rápido e tanto terá ficado por fazer.

Estes tempos intermediários de mudança quando ainda se nega a mesma e a recusamos, a fase de negação de Zizek, são sempre especialmente penosos, desfigurantes – antes da nova conformação – e por definição impossíveis de gerir. No intermédio somos claramente o sujeito da acção e pouco mais. Mesmo assim, alguns felizardos e mais competentes conseguem simular, pelo menos, uma administração desse intermédio sempre negativo.

A história está preenchida de casos onde o mais decisivo foi a desastrosa gestão da retirada do exército e não a própria derrota. Os orientais, mais avessos a grandes princípios mas mais chegados à formatação pela cultura costumam ultrapassar melhor esses tempos que os ocidentais, mais inclinados para ver nos princípios os determinantes da sociedade.

O Ocidente está a gerir mal a sua retirada, quer por interesses particulares e logo contraditórios, quer porque a sedimentação grega misturada com as religiões do Livro a isso leva.

Os governos são bastantes ineficazes e só a leitura da história feita pelos vencedores pode levar ao contrário. Claro que os sinais da acumulação do prejuízo engendrado pelo discurso insignificante de Hobbes misturado pelo discurso novilinguístico de Orwell estão a ficar obscenos mas os limites para a obscenidade são muitíssimo remotos.

Os últimos eventos de perturbação ou até impedimento para os ministros desempenharem os papéis que são supostos ter são menos relevantes do que possam parecer.

Sendo certo que se os sacerdotes são impedidos de dizer a missa segue-se um período em que demasiado pouca gente vai à igreja porque a expectativa de não haver missa é muito grande até que o momento do colapso dessa igreja surge logicamente, também pode ser apenas o sinal de tocar a reunir e retirar para as caves, sempre uma alternativa razoável ao castelo. É verdade que o assalto final às caves é muito mais destrutivo que aquele que é feito ao castelo.

Sextus tem dúvida sobre em que fase do processo intermédio estamos. O discurso insignificante e novilinguístico está centrado nas dívidas mas os problemas mais sérios estão para além disso e são essencialmente quatro: a nova conformação pós-globalização, a competição pela energia e pela água, a revolução demográfica e a competição pelo emprego. Estes problemas são muito mais sólidos e resistentes do que a dívida.

A dívida expõe múltiplos problemas secundários mas conseguiu bloquear a evolução que terá que ocorrer. A resolução da dívida é paradoxalmente não a antecâmara de um novo equilíbrio e os desejados novos alicerces mas a pintura do sótão da casa que se desmorona. 

A dívida e a sua resolução são a inércia do cargueiro mal pilotado em rota de colisão com o molhe.

Como muito bem diz Medina Carreira, dinheiro houve muito em Portugal em vinte dos últimos vinte e cinco anos. A dívida está a bloquear o que interessava realmente discutir, a diminuição dos gastos do estado para valores não muito longe dos 25% do PIB total, a reforma da justiça, as vantagens e desvantagens da adesão ao bloco europeu, a reemergência da comunidade pequena onde as necessidades e responsabilidades podem novamente descer ao indivíduo revestido da sua configuração social.

O paradoxo da vida bem vivida pela gestão das pulsões contrárias, indivíduo-grupo, mobilidade-fixação é melhor tratado no pequeno do que no grande.

Entre o laser do global e o fractal da diversidade joga-se também a luta entre o racional e o irracional, entre o homem e o sub-homem. Todos juntos não passa por ser mais do que estar todos confinados, vigiados por guardas cada vez mais embrutecidos com patrões alienados.

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