O aproximar do fim da sociedade aberta

Sextus também não poderia partilhar das visões historicistas que, no entanto e como seria de esperar, encerram contribuições interessantes por aflorarem tangencialmente a dinâmica social. Se alguns falam da sabedoria das multidões, outros poderão lembrar as histerias e histeresis das decisões das multidões. Nas situações de crise as massas conseguem sempre agravá-la e as situações de impasses são potenciadas pela multidão.
Derivando um pouco a abordagem de Nietzche em “Humano demasiado humano”, se nas democracias as massas escolhem os seus iguais, nas crises elas escolhem quem as criou ou delas nasceu, o mesmo se passa nos longos períodos de dormência histórica.
Nas últimas eleições italianas verficou-se mais isto do que qualquer outro sinal de mudança. O mais interessante mas isso já se tinha revelado anteriormente noutros sítios é a não verificação do príncipio da sociedade aberta de Popper, mais do que escolher um governo, é a capacidade de mandar um embora que define essa sociedade. Mas Popper, muito inteligente embora com o defeito de, ao contrário do que muitos pensam, não possuir uma dose razoável de pessimismo deixava-se deslizar nos sonhos voluntaristas mais do que se possa pensar.
De facto, a distância entre o popperismo e o taoísmo é equivalente á que se encontra entre aquele que acredita que, salvaguardadas as precauções devidas, a falsificabilidade da teoria pode levar á formação de melhores sínteses e o outro que teme essencialmente que qualquer nova sistematização corre sempre o risco de ser inferior à primeira e empurrar com a enxurrada o que de bom a precedente incluía.
O que vimos verificando nesta última década é uma pauperização do pensamento que por variadíssimas razões foi novamente agrilhonado pela armadilha dos sistemas. Mal tínhamos enterrado a perigosa utopia (todas as são, é verdade) marxista eis que surgiram duas ambições de pensamento totalizante, o universalismo e o neoliberalismo.
Os dois estão encadeados de um modo muito peigoso, o neoliberalismo capturou o estado com grande inteligência ao negá-lo da forma mais conveniente e orwelliana e o universalismo quer justificar um crescimento da invasão estatal.
Isto é feito no ultimo caso por várias vias, mas as redes de franchising e as normas reguladoras constituem dois excelentes exemplos ambos exibindo um à vontade brutal.
Quem é que acha incómodo as proliferações destas redes franchisadas, quem é que se perturba por regulações cada vez mais extensas e exclusivas. Sextus já aqui lembrou que a dimensão dos regulamento da actividade bancária restrita nos EUA abrangia cerca de cem páginas, a actual que regulamenta a banca desregulada incluí cerca de oito mil. Outro exemplo mais próximo, um regulamento sobre o horário de trabalho e de assiduidade duma empresa do universo EP do estado inclui trinta e oito artigos e dois anexos com trinta e um parágrafos.
Esta abundância está como seria de esperar casada com a mediocridade e alienação muito profunda. A discussão passa ao lado.
Até onde nos vai levar a crise da chamada sociedade aberta apimentada pela antecipada manipulação e alienação orwellianas é o que ninguém poderá saber.
Popper tinha razão ao recusar o historicismo mas antes de discorrer sobre a sociedade aberta devia ter lido Lao tao.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s