As delícias da contradição no palco e na plateia desde que o espectáculo se prolongue

O resultado da combinação do discursar incontinente com a ausência de significado não será fácil de prever, não que os discursos tenham por norma qualquer mensagem para além da própria forma que assume toda a sua função, o inovador é a frequência com que são proferidos.

Voltando a Popper, a sua violenta diatribe escrita contra os grandes meios de comunicação sofreu por ter sido proclamada já muito perto do seu fim, o que não lhe permitiu a desejada maturiadade e derivação desse juízo. Convenientemente, até foi conseguido lançar dúvidas mais profundas do que é saudável sobre este escrito quase terminal.

Sextus no tempo em que vivia em Londres, interrogou-se muitas vezes sobre qual seria o efeito a longo prazo da leitura diária dos jornais tablóides empunhados bravamente pelos ingleses atafulhados na central line que diariamente frequentava ou mais tarde, a district line, agarrados às varas das carruagens que os abanavam com persistência. Esta dúvida arrasta-se há séculos, tal como a saudade do número do Times só com o obituário.

Por vezes esqueçemo-nos que os actores políticos, mesmo tomando em conta a sua informação que será bastante completa, acabam por ficar prisioneiros da peça que são supostos protagonizar.
A tragi-comédia em representação no mundo ocidental, com a versão integral levada à cena na europa das formas generosas, foi escrita por vários autores, uns mais seniores que outros, os primeiros talvez com um plano já em reflexão desde o último quartel do século XX, outros, os júniores deslumbrados e rápidos, mais desprovidos do agonizante sentido nacional e ainda convencidos que a história acabou. Uns, o que resta da aristocracia da administração financeira e privada, exausta e já sem ideias, do outro lado os mordomos e secretários que vislumbram a oportunidade da sucessão, os negócios mesmo á frente dos olhos.
O texto que nos é dito constitui uma bela sucessão de intenções contraditórias, quase sempre deslocadas de forma colossal do ambiente onde são jogadas, a fadiga dos senhores está contraposta à agitação dos secretários que ainda encontram oportunidade e ousadia para anunciar a sua qualidade, a sua virtude fresca e redentora.

Ouvindo ontem o ministro da Economia sentimos o paradoxo de que quase tudo o que diz faz sentido, quase tudo o que deseja não faz sentido nenhum.

A análise que Santos Pereira faz das causas que mais determinaram a chegada ao beco sem saída em que estamos podem ser tomadas por quase todos, resumindo, o gasto excessivo do estados, dos privados e particularmente o pouco retorno do capital investido. Faltam algumas mas enfim não é fácil num discurso breve incluir todas. Uma das não referidas que menos merecia ser negligenciada é a pequeníssima capitalização das empresas lusas e o grande “spread” que os bancos sempre praticaram, especialmente nos anos 80 e 90, quando taxas de inflação de dois dígitos e na parte final deste período, pouco abaixo dos 7-8% permitiam justificar prémios muito altos para os bancos. Certamente que esta prática não permitiu um desenvolvimento competitivo de muitas empresas enquanto que outras, gozando de posições privilegiadas, com mercados muito débeis obtinham lucros demasiado altos, capturando em excesso os recursos económicos.
Um dos mais conhecidos entraves naturais ao desenvolvimento de uma ideia, de um produto até ao seu mais exequível e longíquo derivativo é a contradição frequente e insanável entre a maximização do lucro de uma empresa e a sua sustentabilidade. Se um produto for demasiado oneroso, algum substituto aparecerá ou o mercado acabará por optar pela sua privação suportandoe os custos inerentes. Raramente, pode ainda ser mais destrutivo, provocando a involução de vários itens complementares ou não.
O paradoxo vem com os desejos de Santos Pereira, em linha com aqueles que são enunciados pelos actores governamentais europeus, a conciliação do crescimento com o desenvolvimento.

Primeiro foi o recurso à velha fada da confiança dos mercados que reapareceria a voar para os estados que estavam a controlar os seus orçamentos. Essa fada é real mas é de comportamento muito mais subtil e complexo. Primeiro, agora descobriu novos lugares e novos favoritos para tocar com a sua varinha, onde pode produzir o milagre da multiplicação do dinheiro de forma mais exuberante. Segundo, esta fada não é burra, apesar de também estar sob a impressão dos “animal spirits”, percebe que as condições que limitam a evolução do ocidente são muito mais rigorosas que aquelas que conformam o oriente, nas próximas décadas. Por muita corrupção e ineficácia que aflijam a Índia e em menor grau a China, as condições de crescimento estão quase todas disponíveis, o fosso a preencher por comparação com o mundo desenvolvido é tão grande que o progresso é muito mais fácil e agora muito mais seguro depois desses países terem alcançado um sustentável grau de autonomia no que respeita o conhecimento tecnológico e a acumulação de capital.

Chega mesmo a ser espantoso como homens habituados a tratar a matemátiva resvalam de forma tão exuberante para a arte teatral.
De forma clara podemos ver que o crescimento em Portugal é impossível, mais, trata-se mesmo de um caso em que se tal for comunicado não passará de uma imaginativa martelagem dos balanços, balancetes e tutti quanti.
Basta não esquecer a dimensão da emigração, desta vez com predomínio de jovens com formações média e superior para derivar que um crescimento neste contexto implica um aumento de produtividade importante, muito para além do que vem sendo registado nos últimos vinte anos. Ou seja, o PIB, produto do PIB / capita vezes o número de pessoas só pode descer com emigrações á volta de cem mil por ano, dito de outro modo, algo mais de 2% da massa empregável. É verdade que no passado, o PIB aumentava mesmo com emigrações fortes via significativo investimento externo directo no tecido produtivo ou indirectamente através das grandes quantidades de capital enviados por esses emigrantes, o que não se vai repetir.

A outra impossibilidade para o crescimento também é facilmente descortinável, se a massa circulante de dinheiro tem vindo a aumentar consequência dos chamados alívios quantitativos em curso desde há mais de dois anos, a massa total dos salários no ocidente tem vindo a diminuir de forma muito discreta nos países ainda livres da recessão e de modo mais afirmativo nos países ibéricos, gregos e partes do antigo conjunto de satélites do urso soviético. Uma das traduções desta alteração observa-se no menor peso relativo das exportações portuguesas para o espaço europeu. Seria óptimo que este movimento persistisse até nos colocar o dilema da inutilidade de ter uma moeda que nos desfavorecia e que já não constituia a maior parte das nossas trocas.
A persistência insane no desejo do crescimento explica-se pelo desejo profundo em evitar o óbvio, Portugal já não será capaz de pagar os juros da dívida a não ser com financiamentos obtidos para além dos mercados.

Portugal está como o doente terminal que suscita o apoio da família e dos prestadores de cuidados de saúde financiados pela moribunda classe média.

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