Erros atrás de erros, é tão curioso, será que a dança tem que fatalmente entorpecer

Na sua última crónica publicada no Expresso, Luís Marques parece descobrir aquilo que Sextus vem escrito neste sítio, a probabilidade de crescimento na Europa é diminuta.

Ontem, o presidente de um importante instituto alemão, IFO, afirma a necessidade de desvalorizações internas de cerca de 30% em Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal, de 20% em França, de 10% em Itália e uma valorização de 20% na Alemanha. Depois, aceita que eventualmente, nalguns países, uma desvalorização desta grandeza possa ser demasiado penalisante e admite que a Grécia seja forçada a sair do Euro e que Portugal está numa situação muito parecida. Como é que o excelso presidente do IFO compatibiliza uma valorização de 20% na Alemanha com a manutenção do euro é um milagre que não desvenda, mas estamos numa fase em que o atrevimento compensa mais do que nunca, a memória e análise recuam para valores surpreendentes.

Mas enfim, aleluia, é sempre bom encontrar alguma racionalidade. Mas falta ainda percorrer mais um pouco de caminho.

O que será expectável se ocorrer o que acima se expõe, será o fim da UE nesta configuração pelo menos.

Acresce que este quadro projectado pelo IFO continua enfermo de modelos económicos que não se ajustam á realidade. Aparentemente, ainda se aplica algo que o grande David Ricardo primeiramente enunciou, a influência da despesa pública na despesa privada.

Sextus já aqui alertou para uma falácia nuclear no discurso neoliberal. Muito do crescimento observado nos últimos anos radica de facto na despesa pública, é mesmo um interessante paradoxo que os neoliberais não querem assumir publicamente, embora agora o reconheçam de forma discreta, vide o relatório de Blanchard no último Outono. Para sermos muito mais claros, o crescimento dos últimos anos no Ocidente não se apoia no aumento da produtividade ou nos chamados saltos de inovações – lembro o deliberadamente olvidado paradoxo da generalização da informática na produção e na distribuição em paralelo com o desacelerar do crescimento (óbviamente não há relação causal, seja directa ou inversa). A principal sustentação do crescimento foi o crédito e a vontade de o dar e de o tomar, sendo que este último se erguia sobre a dispensabilidade de poupar. A segunda trave do crescimento Ocidental era a sua desequilibradora superioridade civilizacional que de forma mais ou menos pacífica capturava as matérias primas a baixo preço e podia impôr vender produtos manufacturados e vender dinheiro conforme lhe interessava e que lhe permitiu a acumulação de capital que andava á procura de poder dar crédito. Tudo isso sofreu uma enorme transformação.

Primeiro, com o fim inevitável do estado social, a necessidade de poupança volta com toda a força o que deprime a vontade de contrair crédito, logo o capital disponível que tem vindo a crescer (ainda hoje se soube que os lucros das empresas americanas aumentaram para cerca de 14% do capital) desloca-se para sítios mais rentáveis onde a necessidade de crédito é maior. Nalguns países isto assume curvas de alimentação sucessivas explicando que o índice entre corte de despesa pública e despesa privada possa ir de 0.9 até 1.7, segundo Blanchard. Em países com menos riqueza é provável que o extremo superior se aplique, uma classe média depauperada e endividada tem que fazer um corte muito radical na sua despesa para fazer face a um futuro que passou a encarar como tumultuoso, sem a salvaguarda de uma reforma sólida.

Segundo, o controlo das matérias primas foi perdido para os poderes locais na sua maioria – os últimos a descobrir essa via foram os bolivianos.

Terceiro, a superioridade ocidental mantém-se mas o fosso, ainda confortável, já não garante o domínio isolado. Mais, os países atrasados desenvolveram competências na produção de baixo custo, a única que interessa à massa do mundo que está a chegar aos níveis acima da pura subsistência e que está a puxar pelo crescimento global da economia. A recuperação da economia não pode ainda repousar no grupo de 0.1% a população mundial de maior rendimento – o futuro muito provavelmente, nada mais que um regresso ao passado recente de três séculos.

No que diz respeito à Lusitânea, vai ser necessário penar bastante mais até atirarmos a toalha ao chão, ou melhor, até ao núcleo europeu decidir entre perder dinheiro connosco – um corte de dívida nunca inferior a um terço do actual – ou permitir o pecado de sairmos com a penitência de uma geração desperdiçada e emigrada, com uma contenção de vida difícil, na realidade igual ao que será debaixo da enganadora protecção europeia.

Voltando ao expresso deste último sábado, há que recear o pior. A simples discussão sobre o porto de águas profundas na margem sul do Tejo e a já anunciada linha férrea de alto desempenho para escoar alface, tomate e cenoura cortada para a Europa lembram violentamente a feroz captura do estado por vários interesses. Não vale a pena pensar que podemos diminuir em muito o desastre com a reforma do estado, nem os reformadores potenciais nem os principais assistentes o querem fazer, nem sequer os que mais clamam nas plateias lisboetas. O governar demagógico das últimas décadas descobriu as virtudes dos impostos, bem sustentados na dita opinião pública por pensadores ditos socialistas e neoliberais que defendem a santa aliança estado-finanças-algumas empresas – diga-se desde já que isto é muito mais antigo do que se possa supôr, pelo menos desde a segunda guerra do século XX, a Boeing viveu sempre à custa do americano pagador de impostos, isto entre outros exemplos.

Erros atrás de erros, falácias atrás de falácias, com todas as suas limitações o nominalismo de Occam é agora claramente preferível aos sistemas em voga que não resistem á mais simpática falsificação popperiana, ou como disse Ferreira Leite, contra argumentos não há factos.

A periferia da periferia, enquanto que Lisboa rodopia e o resto do país fica cada vez mais pobremente atordoado.

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