Os tempos do teatro de enganos mas onde se pode ver muito claro ou quem não está disposto a ser adulto recebe ordens e serve à mesa

Um céptico está suficientemente treinado para perceber que a sua capacidade de antecipação é quase igual a zero o que o deixa em franca desvantagem sobre os chamados fazedores. No fim das tormentas, quando se consegue chegar á praia, o primeiro chega fresco e atento porque não remou, agarrou-se á madeira que o sustentou (ou como diria Aron de forma algo parecida, agarrou-se ao rochedo que sabe que pode confiar), o fazedor chega cansado, desorientado e eufórico com o sucesso do seu incessante remar pronto para continuar a extenuar-se para a sua grande glória e proveito mesmo que os remos não sejam de grande utilidade em terra.

Em contraponto, Sextus também gostaria de vincar que qualquer céptico só pode desconfiar de qualquer historicismo, uma coisa é gostar de O Spengler, outra é dar-lhe razão.

A grande dificuldade de um céptico é evitar a armadilha da sua firme negação á procura de sistemas e do poço da suspensão do julgamento.

Estes tempos de fim de intervalo são muito interessantes mas o que podem antecipar pode sê-lo pouco.
Se a actual crise é bastante dissemelhante da que ocorreu em 1929, a sua saída pode ser a mesma, muito mais do que qualquer intervenção estatal incipiente ou qualquer austeridade expiadora, o que empurrou o mundo ocidental para fora do pântano foi o esburacadíssimo chão da guerra. Tal pode voltar a acontecer, Sextus que conheceu alguns sérvios no ínício de 90 é bem disso testemunho indirecto. Os balcãs são o mundo.

Outra fenómeno interessante, este algo inovador, mas não completamente, é que a discussão que se faz ficou restrita a quem realmente não decide e nem mesmo aconselha. A informação que passa nos grandes meios de comunicação é essencialmente distracção, quem está na posição de domínio não quer participar nela – nunca a história registou discussões reais,os incumbentes por definição recusam-se a participar, mas isto faz parte de forma obrigatória desses “diálogos”. Este espectáculo de enganos regista-se quer a nível dos estados quer dentro de cada estado.

O comportamento do BCE tem sido, visto completamente por quem está de fora, mais ou menos aberrante, contribuindo em parte para o aprofundar da crise. Numa segunda observação talvez seja mais claro que o BCE comprou tempo e dinheiro para o mundo financeiro que tinha feito jogadas muito arriscadas que tinham que correr mal só não se sabia quando. Numa terceira olhadela podemos especular que o BCE está a participar conscientemente na divisão em vários níveis do euro, levando a médio prazo a um agravamento das disparidades europeias que já existiam antes da moeda única. Antes de avançar para a homogeneização de vários parãmetros financeiros fundamentais, completa-se o movimento de desenho dos vários círculos europeus, entronizando-se novamente a divisão de trabalho de Adam Smith.
A Lusitãnea está novamente em face do dilema que vem fitando desde há alguns séculos. Uma das principais razões para o seu atraso deriva da sua localização periférica, verdadeira finisterra, que é verdade é partilhada por outros mesmo neste continente. Dos vários estados nesta posição apenas um deles, a Suécia, saiu-se bem desde há séculos, a Noruega só não fracassou tão fragorosamente como Portugal porque descobriu o petróleo negro e o petróleo verde que financiaram a sua outra riqueza, a pesca e derivados. A Irlanda é uma sucessão de pequenas e médias tragédias mas com a brilhante excepção da sua produção literária. A Grécia constitui outro desastre há mais de um milénio. No nosso caso, creio que o facto da Espanha ter desistido de nos anexar nos últimos quatrocentos anos depois da má experiêcia entre 1580-1640, ainda mais agravou a improdutividade lusa.
Este isolamente da concorrência teve uma primeira demonstração preocupante no pouco dinamismo das universidades portuguesas ao longo dos primeiros duzentos anos de existência, empurrando-as para uma participação irrelevante no saber europeu, reflectido aliás pela pouca confiança que a coroa portuguesa já manifestva elegendo para os cargos mais importantes de chanceler universitários formados em Espanha, França ou Itália.
Sextus está pois ciente dos perigos em Portugal abandonar a atrelagem europeia mas neste momento, a aplicação de Adam Smith só nos irá empurrar para sermos aquilo que a fraca elite lusa sempre achou inevitável, os criados de mesa ( e de golf) do centro europeu. Só que mesmo este destino já não estará disponível, a quantidade de emprego e riqueza que gera é manifestamente insuficiente para aguentar uma Lusitãnea ajustada.

Na vida dos homens chega-se sempre o momento em que ficamos mais ou menos sozinhos, a casa dos pais só pode ser a referência e o recuo agradável e formador, a vida tem que ser lidada por essa nova geração de adultos.

Nesta época da história, quem não quiser ficar sozinho vai amaldiçoar a companhia.

O óbvio obstáculo reside na presença habitual no poder de quem não quer ficar só, a história lusa de séculos é um registo de rendeiros, se não monopolistas pelo menos protegidos. Aquilo que há de mais parecido com rendeiros, mesmo que remotamente, quando já não houver propriedade individual que se veja, depois da enxurrada das vendas, quer ao estrangeiro quer ao mundo financeiro do património que os proprietários já não aguentam porque não beneficiam das isenções, é ser capataz.

Será que a história vai encaixar a derrota da glorificada classe média desde Aristóteles, pela aliança entre os dois mundos alienados do lumpen e dos financeiros, é algo que qualquer céptico não sabe responder, mas que antevê um 1984 algodoado pelo tittytainement, lá isso vê. E se lhe perguntarem se esse mundo aguenta, também responderá, aguenta, ai aguenta sim senhor.

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