A periferia entra no estádio final, o centro ainda tem massa e músculo, é o kebab a rodar.

No seu magnífico livro sobre a decadência do Ocidente, O. Spengler ilustrava a pintura como um paradigma dessa involução civilizacional e sugeria que a música tinha sido a última das artes a entrar num período de bloqueio. O que Spengler não soube ou não se atreveu a antecipar foi o tempo do percorrer o caminho da falência do conhecimento e da sua aquisição. Aqui vai ser jogado um dos maiores desafios à evolução humana. A crise do conhecimento comparativamente à da pintura é por definição muito mais geral e desestruturante e vai muito mais além do que anunciou o pós-modernismo.

Claro que a manipulação da razão humana sempre foi feita de várias formas, desde a ocultação até á fabricação de diferentes partes que vão constituir a representação. Mas como em tudo, nada verdadeiramente se repete, tudo tem sempre algo de inicial.
O desafio actual é aquilo que Orwell intuiu através da televisão que projectava mas que também via. Não sabemos se por não ter reflectido sobre isso ou se por simplificação do que pretendia dizer, Orwell não elaborou muito sobre o outro lado que via a não ser na provocadora descrição da evolução terminal dos porcos que passaram a comportar-se de forma cada vez mais similar à humana, com a dúvida se essa transfiguração era pretendida ou surgia como efeito lateral alheia à própria vontade porcina.

Neste período de crise, uma das perguntas mais interessantes é qual é o grau de alienação dos dirigentes políticos na mensagem que transportam, foram eles capturados pelo seu própio discurso ou apesar da gigantesca manipulação e aparente desnorte, ainda estão conscientes, apenas manipulam, ocultam e fabricam de forma excelente?

A decisão sobre o resgaste cipriota, aparentemente desenhada pela Alemanha e FMI, pode ser suportada por muitas linhas: a confusão sobre a realidade alemã ser um paradigma virtuoso que só não é seguido porque os outros não querem (ou uma versão moderna de porque é que os outros não nos imitam se somos os melhores), a vontade de penalizar certos comportamentos de lavagem de dinheiro pela banca cipriota (ou não olhes ao que eu faço olha ao que eu digo, ou ainda, para os amigos tudo, para os outros cumpra-se lei, lembremos os off-shores), a crença que a classe média está moribunda e sem capacidade de reacção, logo tudo lhe pode ser feito (ou não se tirou o comércio aos judeus para os poupar à ira e pedradas da população e não se terminou a dar um sabão para se lavarem depois de tão extenuante viagem – não vale a crítica que Sextus está a nazificar a Alemanha actual, não é isso, o que se trata é do potencial gigantesco de condicionamento do outro quando este está aberto a isso ou pensa não ter melhor alternativa a esse condicionamento, ou a liberdade começa em nós e não no que o outro quer outorgar, nada ou quase nada, a propriedade privada é aquilo que estamos dispostos a defender e não aquilo que o outro reconhece). Mais interessante, tudo pode ser dito e o seu contrário quando o mundo financeiro entra em crise, e isto deriva da falta de ideias formadoras, de puro oportunismo, de confusão cognitiva insanável.

Estamos num momento particular em que a manipulação já não necessita da fabricação ou ocultação. Por exemplo, o relatório do Senado americano sobre os problemas mais recentes do JP Morgan exibem uma actividade bancária cheia de irregularidades, com informações deliberadamente falsas aos clientes e uma alta capacidade dos executivos bancários em esconder centenas de milhões de dólares de prejuízo, facilmente sobrevivendo a auditorias internas. A conclusão que o Senado retira, a necessidade óbvia de acabar com estes gigantes financeiros fica imediatamente remetida para o nível dos piedosos à espera do milagre, ou uma forma conhecida da involução avançada duma sociedade que regrediu ao infantilismo da inconsequência.

A discussão sobre a situação actual está eivada desta transmutação geral, com a discussão ao lado e exuberantemente fractalizada, autêntico borboletear de afirmações e princípios.
O que se trata é de algo muito simples, a qualidade da gestão geral da sociedade vem declinando constantemente – será quase irónico dizer que se correlaciona inversamente com a invasão da pseudo ciência da gestão – com as falhas a serem prenchidas pelos ganhadores habituais, as raposas de Pareto enquanto que não chegam os leões.

Um bom exemplo desta infeliz incompetência pode ser melhor vista no Michigan onde várias cidades estão já sob gestão de emergência, com Detroit e os seus 800 mil habitantes a ser a última e mais importante a caír. Detroit que há 50 anos, era a cidade com o PIB /capita mais alto do mundo, deve hoje 18 mil milhões de dólares. As luzes das ruas quando fundem não são substituídas, a polícia quando é chamada não atende, metade da população abandonou a cidade, os que permanecem já não se importam quem governa a cidade. Alguns dirão que a questão racial joga aqui um papel importante, mas a realidade é outra, trata-se sim do resultado da crise de uma indústria que não suportou o choque vindo do Japão e depois da Coreia a que veio ajudar na fase final a Alemanha.

A discussão ao lado pode também passar para a leitura do quadro das dívidas públicas e totais (respectivamente e em % do PIB) no fim da primeira metade de 2011: Japão 226 e 512, Reino Unido, 81 e 507, Espanha 71 e 363, Estados Unidos, 80 e 279, Itália 111 e 314, França 90 e 346, Portugal 79 e 356. Lendo estes números percebemos claramente que os montantes das dívidas públicas ou totais não se correlacionam com a dificuldade de financiamente dos estados, mas será óbvio que os mercados financeiros não estão completamentes insanos, embora Keynes comparasse-os a um concurso de beleza patrocinado por um jornal. Apesar do montante ser maior no Japão e RU, os mercados valorizam seja o fundamental da economia nipónica com uma ainda poderosa indústria, consistente nos últimos centos e cinquenta anos e uma praça financeira, rainha nos últimos duzentos anos e com a autonomia que é desejada.
A Lusitânea não tem nenhuma destas qualidades que só podem ser readquiridas com o abandono do euro e reinstalação de fronteiras e o aproveitar de uma população que tem um nível de conhecimento finalmente sobreponível aos dos seus pares. Falta-lhe o capital, sempre foi deficiente na acumulação deste factor primordial. Esperar que os parceiros ricos europeus lhe vão disponibilizar esse investimento é não perceber o que esta crise tem de diferente: tal como a competição pelo capital vai ser difícil, não o vai ser menos pelo emprego.
Quem estiver disposto a ser livre talvez o consiga, a nossa elite não está, apenas acalenta ser um funcionário superior do suicida monstro europeu. Ttemos que esperar que outros anunciem que nós vamos desistir, coisa que eles não querem.
Vamos continuar o comércio usando uma moeda que sabemos ser falsa, é o tempo do engano sem o ser, já não nos enganamos, ou seja a civilização está mesma a entrar no estádio final, a última reanimação é feita por quem não é como nós e que nós não reconhecemos.

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