Quando os capatazes traem como sempre ou a segunda morte de Max Weber

Os últimos dias tem sido marcados por discursos ainda mais surpreendentes ou dissonantes do que aquilo a que nos vimos habituando.
Começámos no derradeiro sábado em que um grupo de capatazes janotas reunidos depois do jantar desataram a disparatar em roda livre. Geralmente eram vistas como pessoas mais cautelosas mas aquele sábado do ajuntamento do Ecofin foi memorável. Aparentemente a reunião durou várias horas o que é contra qualquer prudência. Já aqui se citou o grande Bagehot, editor primeiro do “Economist” que notava que a reunião desejada e padrão dos administradores do Banco de Inglaterra durava trinta minutos e tudo que fosse para além disso poria em sentinela ou até em pânico os vizinhos da “City”. O que aqueles janotas (incluindo a maior de todas, a permanente bronzeada senhora Lagarde – “en garde” diremos nós, doravante) não percebem é que os meios são mais decisivos que os fins, que a credibilidade nos bancos é fundamental que, óbviamente, tem que ser suportada numa gestão prudencial. É bem verdade que este hábito desapareceu de um número demasiado grande de bancos e isto parece ter derivado – uma pequena homenagem de Sextus aos mesmos – numa crença que tudo vale, tudo pode ser equivalente em sensatez e eficácia. Não é verdade, estes janotas acabam de querer enterrar pela segunda vez a descoberta de Max Weber, um pouco menorizada por uma análise mais aprofundada que evidencia que a associação weberista é real mas não causal, mas mesmo assim crucial para se entender alguma da realidade. Claro que os cipriotas, de uma forma diferente, vão pagar isso ou ainda mais mas a defesa que os depósitos para além de 250 mil ou 500 mil deveriam sofrer uma extorsão de 30 a 40% feita pela esbelta Lagarde confirma que uma terrorista pode não o parecer e que a senhora apreendeu o triunfo dos porcos.

O nosso representante, V Gaspar, deverá ter alinhado com o seu mentor e protector teutónico, que parece que sugeria uma extorsão de cerca de 18% para os depósitos mais elevados, supondo-se que apoiado numa fórmula mais científica de extorsão, os franceses (e as francesas, ainda bem) sempre foram mais arrebatados, os teutónicos mais metódicos.

Tudo isto teve agora um cómico desenvolvimento ao ouvirmos o Sr. Medved a aconselhar maior parcinómia no ataque aos bancos enquanto que o magnífico lusitano José Manuel sentia a necessidade de explicar que a reunião dos magos das finanças tinha terminado algo depois da meia-noite, inconvenientemente tarde para os capatazes de segunda linha pedirem a benção dos de primeira, e mais ainda para telefonarem aos amigos russos, a meio da sua soneca pesada de vodka de sexta para sábado. Para a próxima, José Manuel promete que serão menos tímidos.

Que tempos maravilhosos, um pós-comunista aconselha prudència a um pós-maoísta que deverá transmitir esse conselho aos calvinistas. Será a continuidade dos milagres já operados pelo comandante Chavez, Sextus começa a descrer do seu pirronismo. Oh novilíngua abençoada, porque fizeste tardar tanto o esperanto.

Mas não foi só este episódio de dissonância. Agora fomos confrontados com o lamento gaspariano sobre o memorando com os médicos à periferia da troika. Estaria pois mal concebido porque não acomodaria algumas variáveis externas que se mostraram mais condicionantes do que se pensava. Por exemplo, estariam todos à espera que a Europa das formas generosas continuasse a engordar serena e continuadamente, crecendo mais que Pantagruel. Enfim, seriam talvez as influências do Sr. Pinto de Sousa que teria convencido tutti quanti da solidez dos fundamentais da economia europeia. Bom, análises desta qualidade tinham pululado, publicitadas pelos génios das ditas, os competentíssimos directores dos bancos, justificadamente pagos melhor do que o peso em ouro e as abençoadas agências de notação.

Mas V Gaspar quer ainda fazer acreditar, em conjunto com quase todos os arautos que se espraiam pelos mais influentes meios de comunicação que, no resto, cumprimos nós e merecemos agora o prémio por tal, até eventualmente por termos tomado em demasia do remédio congeminado.

Bom, cada um acredita no que quer mas Sextus não segue por este caminho, ainda se lembra dos discursos da campanha, que ao contrário do que agora dizem, eram bem adequados embora pecassem por parcelares. É da natureza destas fases, mas aquilo que PPC disse foi parte do que era necessário fazer, faltava o resto. Acontece que vinte meses depois, apenas se fez o fácil, cortar nalguns salários, toda a reforma do estado foi pontapeada para a Chatam House lusa sob a tutela do Sr. Moedas, que agora também descobriu o desemprego.
Aguardamos ansiosamente novas descobertas do jovem senhor, certamente magnificadas pelas discussões superlativas e anónimas que estão a ser coligidas por uma qualificadíssima empresa de consultadoria, uma das muitas que tanto têm contribuído para que a qualidade decisória (ai, este fraseado é mesmo estimulante) atingida na governância ocidental suba a patamares de perfeição e beleza próprios de Beatriz (um dia destes, não aguento e corro para uma escola de gestão). Ao jovem Moedas que por o ser sabe pouco e tem ainda muito que aprender, Sextus aconselha algumas leituras sobre as relações de dependência, sobre as periferias, sobre história das ascensões e quedas dos impérios (não acredite no Francis) e sobre o orgulho nacional, tudo coisas novas e muito estimulantes para este jovem que tão bem co-organizou a reunião da reforma do estado – já agora, parece que V Gaspar também está possuído de angústias sobre os quatro mil milhões, aparentemente é impossível. Ainda bem, entrou a Primavera e acabamos por ser certificados de que estamos elegantíssimos, gorduras nem vê-las.

Os capatazes traem como sempre e querem enterrar Weber de novo, Bagehot nunca o leram e no navio apontado ao molhe nota-se movimentações nos pequenos guindastes, as pequenas balsas estão a ser descobertas.

Nada muda ou quase, tudo se gasta e rompe. Estamos prontos para a fase final, a vida “low-cost”, “low value for low money”.

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