A emoção não é tudo mas é quase, seja quando forma a percepção (o erro do ecofin) ou quando a impede (a incapacidade para enterrar a CE e o euro)

A crise cipriota tem potencial para muitos ensinamentos e é bom que comecem a aparecer diferentes análises para melhor se perceber da solidez da primeira que foi feita. Aqui, como em muitas ocasiões, a primeira reacção visceral é a boa, as secundárias aparentando um pensamento crítico mais complexo e totalisante são as más.
A reacção visceral de recusa sobre a proposta do ecofin capturou e irá manter a razão.

Primeiro, porque como se viu a emoção rapidamente apontou o sentir e quem não compreende que a emoção se sobrepõe à razão tem andado a especular sobre qualquer outro animal que não o humano.

Segundo, porque parece que não perceberam nada da ética de Esparta: merece castigo quem é apanhado a roubar e não quem rouba, haveria certamente muitas maneiras de garantir a participação cipriota no seu resgaste, mas esta não em que o ecofin é apanhado a subtrair parte dos depósitos.

Terceiro, a actividade bancária sempre foi feita na fornteira da legalidade, da ética e da moral. Nos primeiors 1200 anos da era cristã foi até clara e persistentemente condenada. Dito isto, os banqueiros têm de se comportar, ou aparentar comportar, de forma previsível e estritamente legal. A isto há que associar a completa confiança dos depositantes. Sextus recomenda a leitura dos trabalhos de Bagehot sobre o desenvolvimento extraordinário da banca inglesa, muito superior ao que a francesa e prussiana conseguiram. Os banqueiros actuais não o percebem, ou melhor, estão confiados num estatuto de impunidade, conseguido com a complacência activa dos seus capatazes políticos e a a imbecilidade transmitida por meios de comunicação controlados – veja-se a extraordinária confissão da secretaria de estado da justiça americana que acusar um banco da dimensão do JP Morgan no caso recente de más práticas bancárias com novo prejuízo de milhares de milhões ocultados aos seus clientes já é só por si um factor de instabilidade, ou Hobbes revisitado no seu conceito sobre a inatacabilidade do governo porque este recebeu a transferência do poder que não pode ser reclamada a posteriori (algo que muitos não querem deixar entender, mas os pais da sociedade liberal, Adam Smith e Locke estão enterrados, Hobbes revive,mas temperado pelo moderno relativismo moral, que paradoxalmente é também filho do absolutismo, ou a célebre transição entre democracia e tirania proposta pelos gregos).

Quarto, Sextus não vai convocar os derivados da justiça para condenar o ecofin, bem resumidos na habitual recompensa de quem gastou e na punição de quem poupou e confiou nos bancos, mas vai retomar a comparação salários e depósitos. Um salário é um contrato para o futuro que, pelo menos mantém a possibilidade de ser interrompido livremente. Um depósito é um empréstimo de valor e tempo determinado que estabelece a grande diferença com a pensão que é de tempo indeterminado, logo sempre mais sujeita a incumprimentos, percepção até agora sancionada emocionalmente pelo beneficiário.

Quinto, o que este desgraçado conjunto de incompetentes ministros das finanças europeus conseguiram vai se tornar mais claro num segundo tempo, a incoveniência em pertencer ao euro. A única diferença entre Chipre e o Reino Unido reside na possibilidade de emitir moeda e pouco mais. No caso português, com uma longuíssima tradição de dependência e aversão a uma vida sem tutela vai certamente tardar muito até se tornar evidente o desastre da pertença ao euro. Pior, o debate sobre o euro vai ser parcial, não é da dívida que se trata, esta continuará insolúvel com ou sem euro, mas sim da mínima consistência de uma sociedade que não será conseguida com a trída fatal da crise demográfica, do desemprego e da emigração. Portugal, ao contrário da temerosa elite lisboeta, é iniviável na europa, será pobre mas vivo fora dela.

PSI: a reentrada de Sócrates é provavelmente um êxito de Relvas, o único até agora, embora sempre com o risco de Sócrates melhorar num segundo tempo a projecção de Seguro, enfim milagres deste tipo já aconteceram.
PSII: para tornar um pouco mais claro o comentário sobre o memorando, de facto ele parece ser fraco mas a maior verdade é que não foi cumprido, ao contrário da enorme propaganda contrária. Gaspar parece também não ter compreendido isso, ficou capturado pela metade laboral e não percebeu que a outra metade era ainda mais importante, mas isso não é uma tarefa para um funcionário do BCE, isso exige outra coisa muito diferente.

A emoção é estruturante e é um indicador indirecto da vitalidade de um povo. A sua ausência no estado actual do debate pode ser ainda mais preocupante, será que sinaliza que está moribundo e embotado? Sextus agarra-se à suspensão do julgamento.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s