O demónio de Maxwell… – parte II

Os neoconservadores foram misturados com os neoliberais quando a tese do senhor Francis foi divulgada às quatro partes e o resultante albergue espanhol (ou o anglo-saxónico “melting-pot”) foi de uma infelicidade estrondosa. O destempero adicional, a desregulação bancária, chamou por outros mais desestruturantes e quando a mistela estava demasiado condimentada apenas restou abrir as fronteiras para a diluir, qual água fria em sopa salgada.

Tivemos que esperar apenas uma geração, metade dela obnubilada por um discurso proferido por neoconservadores em conúbio com ex- e novos revolucionários para sermos apanhados por um fervor criacionista de tudo e mais alguma coisa. O governo mundial, a globalização nas falas mais tímidas mas irmãs.

Nesta parte do Ocidente, a queda da cortina de ferro constitui o promotor da aceleração deste processo, com o desenho mal amanhado da moeda única e uma esclerosada e quase enlouquecida burocracia centralizada.
Como é habitual, depois do senhor Francis ter proclamado o seu fim, os nossos políticos, homens de novas oportunidades, aproveitaram a boleia e fecharam os inúteis livros de história. A sua vivência era absoluta, exclusivista, não havia e ainda bem segundo eles, outras alternativas.

Entraram depois os filhos dos financeiros dos anos oitenta. Os fundos mastodônticos, os bancos de igual dimensão e maravilha das maravilhas, os algoritmos que permitiam criar do nada fortunas. Ou voltando a usar a metáfora das ondas, que não promovem significativo movimento das águas mas abilitam a serem surfadas proveitosamente.

Nalguns sítios mais impreparados e deslumbrados – já identificaram, o reinos dos políticos luso-cacânicos, mas não só – a utopia parecia ter chegado. Dois deles foram até premiados com lugares de aparente importância, um na capital onde se pôde deliciar com discursos depois das “moules,frites et degoutement des brunes trappistes”, o outro a ver comboios em frente da janela.

Os lusitanos modificaram ligeiramente o grito de Deng Tsiao Ping, em vez de “ser rico é glorioso” para ser endividado é proveitoso – não tinha o sábio vice do BCE anunciado o fim das dívidas nacionais, talvez se pudesse pensar no fim das dívidas particulares.
E foi isso que aconteceu. Não havia dívidas, só lucros presentes e futuros.

Um pequeno solavanco, a falência do LB, foi mal interpretado. Não se tratava do afundar do mercado imobiliário ou das dívidas soberanas, era sim o início do fim da superioridade ocidental como um todo.

Paradoxo, a mistela tinha chamado a pequena criatura, o demónio de Maxwell, para separar os constituintes. Ao fim da primeira fase do labor diabólico, emergiu a pura verdade, o rei vai nu apesar dos gastos no trajo, a história acordou.

Está finalmente a chegar o tempo para os conservadores, depois de se libertarem dos neoconservadores, neoliberais, globalistas e gestores da treta e coisa nenhuma. Resta a dificuldade de nos desembaraçarmos dos advogados que vão recorrer e recorrer para sucessivos tribunais.

O projecto europeu está a acabar, ainda bem. O euro vai com o menino, ainda bem. Restam muitos perigos, ou entropia para voltar ao demónio de Maxwell.

Se houve coisa importante que aprendemos desde que o diabito foi dado como morto é o poder, a inevitabilidade, a condição formadora essencial da redundância.
A redundância na organização das sociedades é a multiplicidade dos estados, as suas fronteiras e obstáculos à livre circulação e homogeneização de pessoas e produtos, a única garantia para prevenir que o sistema globalizado leve ao “winner takes it all”, a melhor alternativa à criação de massas desempregadas contidas pelo “tittytainement”, o muro para impedir a paz perpétua duma sociedade essencialmente de sub-humanos governada por porcos que se elevam nas patas traseiras.
A ficção sempre foi irmã da realidade, o governo global é filho da barbárie, não da civilização. Pode ser que Chipre dê uma ajuda, mas é duvidoso, até aí a mistificação é colossal, Chipre se for europeu é do oriente europeu, ortodoxo e não calvinista.

PS: Como já é habitual PPC é desastrado. A pressão no TC é contraproducente, é sempre uma situação perdedor-perdedor. Se o TC aprova, o apoio é parcialmente descredibilizado pela pressão, se o TC desaprova, a simples ameaça da demissão é da mais suicidárias que já se ouviu.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s