Eu vi o futuro, a Coreia do Norte, só precisa de alguns pequenos refinamentos, ou banqueiros e lúmpen, a mesma luta

No dia em que o parlamento falha mais uma vez a percepção que o cerimonial que monta e apresenta necessita de uma renovação para que possa manter alguma utilidade soubemos que a cotação de alguns bancos portugueses caiu espectacularmente. Já ontem, Sextus escutou de um seu amigo a enorme preocupação com a situação das instituições financeiras nacionais. Logo após o desastre cipriota, convenhamos que pior era difícil.

O mundo financeiro sempre viveu atrás das cortinas e sob o manto de um segredo, bem aceite pela sociedade que durante muito tempo percebeu qual era a função que atribuia aos bancos e as regras não ditas que os guiavam. Acompanhando a complexidade crescente da organização social, o mundo dos bancos foi ficando cada vez mais opaco e depois mascarado e aquilo que não era dito mas tacitamente implícito deixou de o ser – nunca tinha atingido o nível de compromisso forte, mas conseguiu fingir tal durante muito tempo.

A participação dos bancos no eclodir da crise foi essencial, discussão sempre perturbada por reacções rápidas de quem vê neste discurso uma tentativa de desculpabilização dos outros actores. É compreensível dado o contexto mas isso não deve impedir a apreensão rigorosa que para haver esta crise os bancos foram um actor absolutamente imprescindível.
Tem havido muita confusão, percepção incompleta e mesmo engano perfeito nesta discussão.

A primeira confusão é sobre os bancos centrais. Uma percepção largamente difundida que os bancos centrais são entidades públicas tem tido consequências a jusante ainda mais mistificadoras. O BCE não é uma instituição pública, é multinacional e tem a sua propriedade dividida entre os governos e bancos comerciais. De facto, cerca de 65% do capital do BCE tem origem nos impostos que os cidadãos de vários países europeus pagam mas o restante capital está distribuído por outras entidades privadas.
Mais confuso ainda é o célebre FED americano, que não é de facto uma instituição pública mas é propriedade e governado pelo conjuntos das reservas federais de vários estados que por sua vez são propriedade e governadas por associações de bancos comerciais. O Banco de Inglaterra foi durante cerca de três séculos uma instituição privada até à sua nacionalização em 1946. De facto, de todos os grandes bancos centrais só o alemão é que mais cedo chegou a um controlo, na aparência, maioritário pelo estado.
O que sempre se verificou foi uma parceria mais ou menos profícua entre os bancos centrais e os bancos comerciais e os governos e foi a saúde e eficácia desta tríade que alavancou a superioridade ocidental. Isto fica ainda melhor explícito quando lemos as conclusões do G30, um grupo de dirigentes de bancos, economistas conhecidos e ex-ministros da área económica-financeira realizado nos primeiros dias de 2013: pedem mais lançamentos de parcerias público-privadas, maior disseminação do regime de pensões por seguros, maior securitização de empréstimos, maior liberdade de capitais, menor regulação bancária e maiores garantias governamentais para diminuir o risco de certos investimentos – em suma, os mandamentos do mundo social-financeiro que gosta de se trasvestir de neoliberal.

Para melhor compreender o que se passa é também bom lembrar o conceito M3, que define a quantidade monetária em circulação e que actualmente é igual a 11 vezes a soma do dinheiro em notas e moedas mais as reservas dos bancos comerciais nos bancos centrais. Quando V. Gaspar foi interrogado em Frankfurt em janeiro deste ano o que é que tinha aprendido como responsável pelo departamento de investigação do BCE sobre o aumento anual de dois dígitos de M3 nos anos antes da eclosão da crise europeia respondeu que nunca tinha pensado nisso.

Vai ser preciso piorar muito mais para se poder conceber sobre a exequibilidade de uma mudança. Mas pode ser inviável, a associação do mundo financeiro com os capatazes governamentais que conseguem aprovação no curso novilinguístico pode triunfar, os espectadores estão garantidos e aumentam cada vez mais, o lúmpen da gloriosa “low-cost, no mind”. Se duvidam, olhem para o divertido povo norte-coreano.

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