Sextus denuncia o erro de JFK ou não somos todos berlinenses, somos todos norte-coreanos, ou melhor ainda, o que é a verdade?

Há sempre alguma coisa interessante a retirar das situações mais improváveis, a crise na península da Coreia prendou-nos com pequenos excertos dos noticiários televisivos de Pyongyang, uma pérola autêntica. Registe-se a evolução das vestimentas das apresentadoras, ainda ontem a que surgiu era bem bonita e com vestido de cores suaves e com gosto. Mas o melhor de tudo é a surpreendente combinação da forma com o conteúdo, o texto heróico vai com o tom convicto e melhor, entusiasta. A perfeição desta mensagem só pode gerar algum desconforto num receptor um pouco mais adulto e já contaminado por um rudimentar cepticismo.

A forma oriental é diferente da ocidental desde há milénios e isso vê-se bem e leva-nos a recusá-la por exteriorização de quer imaturidade quer pouca cultura e informação. Pensamos na enorme vantagem da liberdade e maturidade da imprensa ocidental e com isso nos regojizamos. Enquanto que os norte-coreanos necessitam da pose e do tom, nós reconfortámo-nos com uma dose homeopática de postura e de assertividade. Enquanto uns se concentram no gesto, outros são mais atraídos pelo discurso. De vez em quando, lá somos tocados pela surpresa de um mais entusiasta e ainda esta semana, morreu uma política que beneficiou muita dessa imagem de convicção fresca.

Mas se passarmos à capacidade da informação em retratar a complexidade real, aí a nossa proximidade com os amigos de Pyongyang é notória. Spengler recorreria a outra imagem, o pensamento mágico da antiguidade mas esse era essencialmente desprovido do tempo e da causalidade, o presente parece sofrer essencialmente a influência da manipulação inteligente recorrendo á sobrecarga e à indiferença.

Um dos exemplos mais interessantes foi a concepção do euro que atempadamente, foi criticado por quase todos os economistas do outro lado do Atlântico. Uma moeda única para países tão diferentes e claramente percepcionados pelos outros como não formando um só nunca poderia correr bem para todos, embora esteja a ser muito favorável para alguns. Claro que a vontade dos dominantes continua a sobrepôr-se á realidade da grande periferia acorrentada ao núcleo destruidor.

Uma crença no crescimento como forma contínua de desenrolar do mundo só poderia ter medrado num ambiente já ahistórico (as influências do pseudohistoriador foram desproporcionadas já que foram potenciadas pela hiperdivulgação por quem tem o dinheiro para tal), bastava conhecer um bocadinho do que foram os últimos quinhentos anos, nem era preciso recuar aos dramas da peste negra ou da implosão do império romano. Mas essa crença determinou a gestão dos recursos por administradores que, finalmente, se viram livres do risco moral que foi remetido para as nações – a luta entre nações com determinantes físicos e bancos com mobilidade igual á luz nas fibras ópticas foi compreensivelmente ganha pelos últimos, com o brinde para os primeiros de serem classificados de retrógrados (atenção, a história não é um movimento unidireccional e adora as revisitas). A similitude nesta defesa do crescimento permanente com a crença na potência da sua capacidade guerreira por Pyongyang é patente e extraordinária.

Uma defesa de uma desvalorização interna num ambiente de dívida pesada ainda nos leva para níveis mais próximos de irracionalidade coreana. Alguém que deva mil, defender que produzindo menos paga mais facilmente os seus débitos está no nível da farsa revisteira. Pretender que a solução para uma crise de falta de produtividade com incapacidade de gerar emprego e superavit comercial é diminuir o investimento e o emprego, empurrar para a emigração uma parte substancial daqueles que iriam entrar no mercado de trabalho com pouca experiência mas mais capacidade de investimento pessoal revela confundir o sonho com a realidade, é acreditar que a destruição pode ser criativa sem que nada se modifique em tudo que é deveras determinante, os impostos castradores, a corrupção despesista, o custo burocrático, o acesso ao capital, a pouca qualidade de gestão.

Anunciar que se é bom aluno quando não se estuda, não se faz o trabalho de casa e na última hora antes do teste se afadiga a trabalhar é próprio de falhados e reprovados, tal como o que acontece quando Pyongyang se compara com Seul.

Repetir que não há alternativa perante o falhanço e se pretende continuar ao comando é porque realmente nada se quer administrar ou governar, apenas se espera que tomem conta de nós e nos ditem as normas. Também na Coreia, se ocorrer guerra é disso que se trata, ou então a busca da morte para evitar o castigo e a ausência de escolha a desculpa do servo que nada mais merece.

Quando perante uma situação tão difícil como a da Lusitânea-cacânea se discute e se fica perturbado aparentemente por contrariedade menor é porque nada se quer resolver porque nos remetemos para a auto-ilusão.

Claro que quando a situação parece surgir despida, sem enganos ou disfarces, há sempre mais algo por debaixo da pele, debaixo da forma que se renova surge, depois de procurada, o conteúdo mais profundo que obedece a regras muito antigas. Num interessante livro que surgiu recentemente, os autores discorrem sobre o porquê do falhanço das nações e avançam com a novidade conceptual – o isco para o sucesso do livro – das economias inclusivas e das extractivas. São cautelosos o suficiente para esclarecer que embora haja circuitos de retroalimentação, a contingência é importante e as situações são menos dicotómicas do que possam parecer.

O que acontece na Lusitânea resulta certamente de muita coisa, da natural e histórica incapacidade dos governos que por definição não pretendem resolver mas sim atrasar o desenrolar das crises, mas também entronca nesta classificação inclusivo versus extractivo. Na maior parte da sua história, a Lusitânea tem sido sempre uma sociedade extractiva e hoje vê-se bem na facilidade com que se implementaram as PPP e toda a organização do grupo dos fornecedores do estado. Não surpreende pois que o actual governo apenas tenha limitado os gastos com os funcionários e tenha deixado quase intocável todo o grande grupo de extractores maiores das receitas.
O que pode ser mais interessante é que a classe política portuguesa (embora isto possa ser alargado a toda a classe política mundial no presente) tende a ser cada vez mais extractiva, quase aliás por definição.

Subindo no nível do entusiasmo (para não deixar triste a locutora norte-coreana), a classe política mundial também o é, mais ainda a europeia continental, novamente mais junto da asiática do que da clássica do universo anglo-saxónico, mas mesmo esta está a derivar fortemente para o exemplo europeu. A evolução dos mercados, nada paradoxalmente, é no sentido extractivo, sempre e por definição, mais quando as fronteiras caem e a posição privilegiada passa a determinar mais fortemente o ambiente – o fracasso quase total das entidades reguladoras é disto o paradigma, sempre contrapropagandeado pela informação paga pelos incumbentes (volta Spengler quando dizias que quando ouvias falar na liberdade de informação inquirias sempre quem paga).

Como aqui já se tem repetido, um dos condicionantes da situação actual passa pelo facto da elite portuguesa já não acalentar o sonho da independência mas sim o do protectorado, no fundo como se viu com o alívio perante o programa da troika, elaborado por técnicos que nunca devem ter passado muito tempo a analisar Portugal. Não temos governantes, temos funcionários.

Quando quem acredita que são os outros que nos vão ajudar e que nos devem dizer o que fazer chega aos comandos de um estado é porque esta nação está ferida de morte e provavelmente é isto que se passa em Portugal. Uma mudança só será exequível com o aprofundar da crise europeia e cada um perceber que a competição pelo emprego é a mais decisiva de todas e que não é resolúvel por esta comunidade.

Até lá, tal como os norte-coreanos, vamos continuar a repetir que estamos a fazer o que é preciso, a tragédia dos fracos que não percebem quando isso não é suficiente. A certa altura, as sociedades extractivas têm que se reconformar para aquilo que é preciso equivalha àquilo que é suficiente.

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